J Soares

ASSASSINATOS NA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS





Sinpse

Valendo-se da graa e irreverncia de um dos mais famosos entrevistadores da televiso brasileira, Assassinatos na Academia Brasileira de Letras de J Soares, rene
fico e fatos reais numa trama envolvente. O ano  1924 e a cidade  o Rio de Janeiro. O cassino do Copacabana Palace foi inaugurado e o glamour e sofisticao
j estavam presentes em Ipanema desde ento. Era pelo centro da cidade maravilhosa que circulava a alta sociedade e os grandes intelectuais em atividade em nosso
pas. Mal sabem estes pensadores que um serial killer est  solta, exterminando somente um tipo de vtima: os membros da prestigiada Academia Brasileira de Letras.

Mas quais os motivos que levam algum a cometer um ato insano contra homens que se renem todas as tardes de quinta-feira para tomar ch com bolo?
Os crimes que acontecem neste livro no se tratam, apesar de todos os imortais mortos, de um ajuste de contas com os cnones bem pensantes de bem escrever ptrio.
O assassino no  um crtico ou um leitor mais exigente, mas algum que age envolto ao mistrio da trama. Os Imortais da Academia Brasileira de Letras morrem em
cartes-postais do Rio. Sem sangue. Estrebucham aparentemente do nada. No bondinho do Corcovado, no altar da igreja da Candelria. A brincadeira proposta por J
 fazer com que o leitor, no meio de vrias pistas, descubra qual  a verdadeira e identifique o criminoso.
J espera que os imortais de hoje percebam que  um romance de humor, e que, se for pra morrer, que seja de rir. Assassinatos na Academia Brasileira de Letras com
seus personagens caricatos e sua mescla de fico com realidade na medida certa, para no alterar fatos histricos, prende o leitor at a ltima pgina.

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Em memria da minha me e do meu pai, que viveram essa poca intensamente e me ensinaram o prazer da leitura Ao amigo fraterno Hilton Marques, que, mais uma vez,
teve o carinho e a pacincia de ler antes. Tambm ao querido Rubem Fonseca, que insiste em no me deixar inventar palavras Meu desejo sincero seria que nossa Academia
Brasileira no se esquecesse tanto de que tambm  de... letras! AFONSO ARINOS DE MELO FRANCO (1905), A escalada La dnigrer, mais toujours tcher  en faire partie.
[Denegri-la, mas sempre tentando fazer parte dela.] GUSTAVE FLAUBERT (1821-80), Dicionrio das idias feitas

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Une compagnie forme exclusivement de grands hommes serait peu nombreuse et triste. Les grands hommes ne peuvent se souffrir les uns les autres et ils n'ont gccre 
d sprit. Il est bon de les mler aux petits. [Uma companhia formada exclusivamente de grandes homens seria pouco numerosa e triste. Os grandes homens no se suportam, 
e no tm esprito algum.  bom mistur-los com os pequenos.] ANATOLE FRANCE (1844-1924), As opinies do sr. Jrme Coignard ... ele sabia que faltava pouco para 
que a vingana enchesse seu corao de alegria. Repetiu mentalmente o velho provrbio siciliano "La vendetta  un piano che va servito freddo" ; at que o ritmo 
da frase se mesclou com a cadncia da respirao. Sabia que s a morte lavaria a honra ofendida. Por duas vezes fora vilipendiado, humilhado. A notcia da recusa, 
glosada at nos matutinos populares, tornara-o motivo de chacota entre o povilu. Os falsos amigos comentavam sono vote, entre sorrisos sarcsticos: "Ele vai tentar 
de novo e novamente no ser aceito. Jamais deux sans trois... "'. No lhes daria esse gosto. Seria ele a rir por ltimo. O desagravo tomaria contornos de tragdia. 
Da sua formao francesa veio-lhe uma frase de Racine: "La vengeance troe faible ature un second crime". "A vingana fraca em demasia atrai um segundo crime. " Neste 
caso no haveria revide. Seus ofensores pagariam com a vida o ultraje. Pensou na perfeita justia da vindicta: "Enxovalharam-me juntos, morrero juntos. Na mesma 
hora". No foi difcil o acesso  copa, onde se preparavam os quitutes. Como a famulagem no o conhecia, disfarou-se com o uniforme dos garons, passando-se por 
um dos serviais ajornalados. Trazia o veneno no frasco de prata em que de hbito levava o conhaque. Adicionou o lquido  gua quente do ch. A poo libertria 
faria efeito em poucos segundos. "Finita la commedia!"Divertiu-se vislumbrando a contradio no cabealho dos dirios do dia seguinte: MORTOS TODOS OS IMORTAIS. 
Sim. Os quarenta Imortais da Academia. Os mesmos quarenta que haviam recusado seu ingresso na Casa de Machado de Assis, frustrando um sonho acalentado desde a infncia.

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O PAIZ RIO DE JANEIRO, QUARTA-FEIRA, 31 DE OUTUBRO DE 1923 Supplemento Literrio Extraordinrio o successo alcanado pelo ltimo livro do senador Belurio Bezerra, 
o excellente "Assassinatos na Academia Brasileira de Letras". Como j assinalou esta columna, a obra conta, com muito humor e verve, a histria de um mallogrado 
poeta decidido a vingar-se dos membros da Academia Brasileira de Letras, pois, por duas vezes, os
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illustres acadmicos negaram-lhe aquelles to cobiados votos que o acclamariam como "Immortal". Irnieamente, ste trabalho, que vem coroar uma carreira illuminada 
por innmeros successos, deve credenciar inda mais o inspirado auctor para occupar uma cadeira na prestigiosa instituio. Alis, a de nmero dz, uma das mais attrahentes 
daquelle Olympo literrio, et pour cause: a cadeira nmero dz teve Ruy Barbosa como fundador. Escriptor de estylo atrevido e innovador, Bezerra  tambm um dos 
polticos mais influentes da Repblica, tendo sido eleito successivamente senador por Pernambuco. Belurio Bezerra mudar-se, n'ste mez, do Grande Hotel para o 
recm-inaugurado hotel Copacabana Palace.

QUARTA-FEIRA, 2 DE ABRIL DE 1924 ANTEVSPERA DA IMORTALIZAO Ao sair do chuveiro s nove horas da manh, o senador Belurio Bezerra examinou-se no grande espelho 
do banheiro da sute no ltimo andar do Copacabana. Aprovou com um sorriso a imagem que o cristal bisotado lhe devolvia: apesar dos cinqenta anos, a ginstica sueca 
praticada diariamente deixava-o com aparncia de quarenta. Tinha a convico de que, alm do seu barbeiro, ningum notava que devia os cabelos negros como azeviche 
a Aurole, uma nova tinta inventada por Eugne Schueller, fundador da L'Oral, que ele comprava regularmente em Paris. Penteava-os para trs, imaculados, com brilhantina 
Yardley. No fosse o sotaque carregado e o indefectvel terno branco de linho S-120, passaria por um legtimo latin loverdo cinema americano. Bem merecera o apelido 
de Rodolfo Valentino da Zona da Mata. Seus inimigos abreviaram a alcunha para Valentino da Zona. Todos sabiam que Belizrio freqentava os sales das cafetinas mais 
requintadas do Rio de Janeiro. Ningum tinha coragem de pronunciar a forma reduzida do apelido na presena dele. O senador era valente e jamais se separava da sua 
Parabellum, nem mesmo nas sesses do Senado. Sua famlia, dedicada ao cultivo da cana e s usinas de acar desde os tempos de Maurcio de Nassau, era proprietria 
de metade da Zona da Mata pernambucana, devastada pela agricultura canavieira, e exercia influncia poltica sobre a outra metade. A valentia dos
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Bezerra em Pernambuco era lendria, forjada ainda na luta contra os holandeses. Considerado por muitos o melhor partido do Rio de Janeiro, eram quase audveis os 
suspiros das moas de sociedade quando, nos saraus, ele dizia alguns poemas. Vaidoso como poucos, Belizrio nunca se furtava a declamar seus versos pouco inspirados. 
Diga-se a bem da verdade que os dotes literrios dele no chegavam a causar impresso. Sem sua fortuna e influncia poltica, jamais teria sido publicado. O sucesso 
de vendas dos livros era creditado, em grande parte, ao prprio autor, que comprava vrias edies por intermdio dos secretrios e mandava distribuir entre os empregados 
das suas herdades e usinas. Noventa por cento dos pees eram analfabetos, mas guardavam os livros num relicrio ao lado da Bblia Sagrada. Mesmo assim, o acadmico 
pernambucano Euzbio Fernandes, cujos dotes de poeta s se igualavam aos de articulador, garantira a eleio do senador para a Academia. O poder dos Bezerra estendia-se 
muito alm das fronteiras de Pernambuco. Eram freqentes as visitas que Belurio fazia ao presidente Arthur Bernardes quando saa do Lamas depois do jantar, indo 
a p do restaurante, no largo do Machado, at o palcio do Catete. Ademais, a quantia que doara para ajudar nas instalaes da nova sede no Petit Trianon suavizara 
a imparcialidade dos acadmicos. O fato de tratar-se da cadeira nmero 10, que pertencera a Ruy Barbosa, um dos mais notveis membros fundadores, acrescia honra 
maior ao evento. Belurio Bezerra andava esfuziante como um adolescente. Vestiu um dos quarenta ternos brancos do guarda-roupa e saiu do hotel no seu Hispano-Suiza 
conversvel pela avenida Atlntica, assobiando um frevo do ltimo Carnaval de Olinda. VAIDADE DAS VAIDADES, TUDO  VAIDADE! O destino do senador era a oficina do 
alfaiate Camilo Rapozo, no centro da cidade, para os ltimos retoques no fardo que usaria dali a dois dias, na noite da posse. O alfaiate esperava-o desde segundafeira, 
mas o senador s chegara do Nordeste na tera. Rapozo era o ltimo representante do ateli de sua famlia: filho nico, no pretendia renunciar  solteirice apenas 
para perpetuar atravs da prole a alfaiataria fundada por seu tatarav Antnio Gomes Rapozo, em Lisboa, artfice de cortes e costuras da corte portuguesa e alfaiate 
do marqus de Pombal. O av, Apolinrio Rapozo, recebera o ttulo de artfice-alfaiate-mor de Sua Majestade e
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chegara ao Brasil trazido por d. Joo m, que no lhe dispensava os talentos. Aos trinta e seis anos, Camilo era um homem musculoso, de tez morena e olhos oblongos, 
herana dos mouros que ocuparam a pennsula Ibrica. A cabea, raspada  navalha, ressaltava-lhe o formato oval do rosto. Durante anos, o topo fora parcialmente 
coberto por poucos cabelos, que ele deixava crescer de um lado at a altura dos ombros e penteava para o outro, por cima do crnio, numa v tentativa de ocultar 
a calvcie precoce. Fixava o laborioso emaranhado com gomina argentina, que, quando seca, transformava as ralas madeixas numa carapaa negra. O vento era seu pior 
inimigo. Certa vez, quando se dirigia a p para casa, uma ventania levantou o tampo construdo a duras penas com os fios escassos. Foi nesse momento aviltante que 
o alfaiate resolveu se livrar do intil penteado. Sua maior vaidade era a unha desproporcionalmente longa no dedo mindinho da mo direita. Havia um motivo profissional 
para aquela discrepncia: a unha era uma ferramenta de trabalho, pontiaguda como um pequeno punhal. Rapozo seguia o hbito dos grandes alfaiates de Lisboa, que a 
usavam para marcar correes no pano quando da primeira prova. Com a conciso de um compasso, ele traava crculos perfeitos, calcando a ponta afiada na trama dos 
tecidos ingleses. Camilo conhecia os segredos da confeco de uniformes, fardes, redingotes e casacas, segredos que vinham sendo transmitidos por sua famlia havia 
dois sculos. Pela prtica do ofcio, sabia, como poucos, quais os vieses e outros cortes oblquos que davam um caimento impecvel  camura de l inglesa do fardo. 
Incomparveis as costuras com fio de ouro francs, o remate dos gales, o leve pregueado das passamanarias, o conforto provocado pelo recorte milimtrico das cavas 
e, o mais difcil, o peitilho encimado por um colarinho rgido, soberbo, porm inacreditavelmente confortvel. No menos importante era a exatido do gancho das 
calas, com folga aconchegante  esquerda e o cs na altura certa. Conhecendo o poder calrico dos quitutes do ch das cinco, o alfaiate de mos mgicas conseguia 
esconder, sem prejudicar o corte e os ornamentos, sobras de fazenda dobradas em plisss e bainhas falsas, o que permitia alargar a vestimenta acompanhando a corpulncia 
sedentria dos imortais. Tantos talentos transformaram Camilo Rapozo no alfaiate oficial da Academia Brasileira de Letras.
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ALFAIATARIA DEDAL DE OURO A PROVA DE UM HBITO QUE FAZ O MONGE Belurio Bezerra apertou a campainha, e Camilo, numa reverncia, abriu a porta para o celebrado cliente. 
O alfaiate vestia-se com apuro e trazia presa ao pulso a tradicional almofadinha povoada por dezenas de alfinetes. Empunhava um exemplar do Assassinatos na Academia 
Brasileira de Letras. - Ser que, antes de experimentar o fardo, o senador pode me dar um autgrafo? - pediu Rapozo, correndo, com livro e caneta, atrs de Belurio, 
que se dirigia a passos largos para a cabine de prova. Indiferente, sem dizer uma palavra, Bezerra rabiscou seu nome numa caligrafia ilegvel. - Vai demorar? - perguntou. 
- Tenho reunies no Senado. - No, no! Vou j buscar. Est belssimo, uma obra-prima! Tambm, o fsico do senador ajuda muito... - disse o alfaiate, adulador. Largou 
a caneta e o livro no balco, e seguiu, com passos midos, at os fundos da alfaiataria. Voltou de l trazendo nos braos o fardo como se fosse a capamagna do papa. 
- Nem vai precisar de retoques. E de longe o meu melhor trabalho. No af de se vestir, Bezerra ps logo a parte superior, o que provocou o risinho dissimulado do 
alfaiate. Vendo-se no espelho, Belurio percebeu o motivo da chacota: l estava ele de cuecas e imortal da cintura para cima. -Vamos com isso que eu no tenho o 
dia todo - disparou, irritado. Realmente nada havia a corrigir. A vestimenta sublinhava o porte altivo de Belurio Bezerra. Embevecido, o escrevedor imaginava-se 
aceitando a nomeao num constrangimento simulado. Aproveitando o momento de enlevo do senador, Camilo atreveu-se: - E quanto ao pagamento, Imortal? - perguntou, 
tratando-o pelo ttulo ainda no oficializado. Ser que tarda? -Voc sabe muito bem que  costume o governo do estado natal do escritor oferecer o fardo. No me 
meto nisso - respondeu Belurio rispidamente. Obvio que Bezerra poderia pagar o vesturio. Embora carssimo, no era mais do que ele gastava numa noitada com os 
amigos nos bordis de luxo das Laranjeiras. Se no o fazia, era apenas por uma questo de vaidade. Era praxe, uma lei no escrita: o estado do imortal morria com 
a conta do alfaiate. S que Rapozo no se

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conformava. J lhe deviam vrios fardes, com a desculpa de que a verba sairia dos cofres pblicos. - Tenha pacincia, seu Rapozo! - diziam. - E a glria de ser 
o homem que veste a Academia? - Glria no enche a barriga dos meus filhos retrucava Camilo, que no os tinha nem pretendia t-los. O senador dirigiu-se para a sada. 
- Entregue amanh no meu hotel. Enquanto o alfaiate abria a porta pensando no seu provvel prejuzo, Bezerra deu-lhe um envelope. Rapozo animou-se, antevendo a gorda 
propina. -  um convite para a posse - explicou, magnnimo, o futuro imortal, estendendo o carto. Venha ao hotel antes pra ajudar a me vestir. - Claro, Excelncia. 
Obrigado, Excelncia... Ao cruzar a soleira, Belurio virou-se rapidamente. - Ah! Antes que eu me esquea. - Inclinandose, passou a mo na cabea lisa do alfaiate. 
-  pra dar sorte... - esclareceu, e saiu batendo a porta. O imperturbvel mestre alfaiate suspirou, engolindo mais uma vez a humilhao que sentia quando o usavam 
como amuleto. Sim, porque Camilo Rapozo era ano. Filho, neto e bisneto de anes alfaiates, todos perfeitos, como os sete da Branca de Neve. SEXTA-FEIRA, 4 DE ABRIL 
DE 1924 A POSSE DO IMORTAL Em 1923, o governo francs, por meio do seu embaixador Alexandre Conty, doou  Academia uma rplica do Petit Trianon de Versalhes, edifcio 
construdo um ano antes, na avenida Presidente Wilson, no centro da cidade, para abrigar o pavilho da Frana na Exposio do Centenrio da Independncia. Nessa 
noite abrasadora de abril darse-ia a primeira posse de um imortal na nova sede. O Salo Nobre estava mais quente ainda devido  quantidade de pessoas famosas que 
se apinhavam no local. Graas ao prestgio do senador, alm dos acadmicos, havia deputados, outros senadores e o ministro da Viao e Obras Pblicas. Srgio Loreto, 
governador de Pernambuco, mandara representante. Senhoras elegantes tentavam afastar o calor com leques rendados de hastes de madreprola. Vinham presenciar a noite 
de glria do inefvel beletrista.

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Um alarido ecoou pela sala, saudando a chegada do futuro imperecvel. Belizrio Bezerra, o Rodolfo Valentino da Zona da Mata, assemelhava-se a um imperador de opereta. 
O colar banhado de ouro e o espadim lavrado aprimoravam essa aparncia. A tez queimada pelo sol do Nordeste fundia seu rosto com o verde e o dourado do esplndido 
vesturio. Carregava, sob o brao, o chapu bicorne emplumado, e percorreu o salo debaixo de aplausos, apertando mos midas entre as luvas brancas. O andar de 
Belurio tinha a firmeza marcial dos militares e a graa dos bailarinos.  sua passagem ouviam-se exclamaes arrebatadas: "Quel panache!", "Quelle allure!". Um 
desavisado que desconhecesse a ocasio e o visse passar assim paramentado seguramente perguntaria, inclinandose num salamaleque: "Sois rei?". A noite anunciava-se 
auspiciosa. Bezerra seria acolhido na Casa de Machado de Assis por seu mais empenhado cabo eleitoral e conterrneo do Recife, o poeta Euzbio Fernandes. A competncia 
inegvel que Euzbio demonstrava para a lisonja exigida pelas circunstncias no lhe diminua o talento de escritor. Era poeta maior, admirado por Bilac e por outros 
freqentadores da Livraria Garnier. Nessa noite ele envergava uma sbria casaca preta. Afirmava que o fazia por modstia, mas a verdade  que nem os recursos milagrosos 
do alfaiate Camilo Rapozo conseguiriam que o antigo fardo voltasse a emoldurar a robustez do vate: Fernandes engordara vinte quilos desde sua posse. Com fartos 
bigodes e barriga empinada, parecia irmo gmeo do poeta Emlio de Menezes. Para espanto geral, e contrariando o protocolo, o volumoso poeta iniciou a solenidade, 
privilgio do homenageado. As palavras com que recebeu Belizrio Bezerra foram um primor de conciliao. Em duas horas de fraseados retumbantes, por vrias vezes 
logrou elogiar o autor sem falar da sua obra. Ao terminar, citou apenas o ltimo livro, Assassinatos na Academia Brasileira de Letras: finalmente, no poderia me 
furtar tambm ao panegrico da nossa altipensante instituio, que se demonstrou capaz de rire de soimme com a espirituosa trouvaille do insigne escritor, o qual 
levou o picaresco vilo de seu romance a nos envenenar a todos de uma vez. Oh, deliciosa burla! Oh, brilhante faccia! Como dizia Voltaire, "l' humour est L' apanage 
de L' intelligenc'. Parabenizo o autor e a Academia. Bravo L'auteur! Bravo L'Acadmie! Orador brilhante e histrinico, Euzbio foi brindado com aplausos calorosos.

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Agora era a vez do novo acadmico. Belurio preparara um texto com elogios bombsticos a Ruy Barbosa, falecido menos de um ano antes. A expectativa adensava-se, 
tornando-se quase palpvel no Salo Nobre da nova Academia. O calor e o pesado fardo faziam-no transpirar abundantemente. Desdobrou as oito pginas do seu discurso, 
pigarreou para clarear a voz e disse: - No sei bem se tenho o direito de sentar-me na ctedra do to excelso intelecto que aqui me precedeu. Sinto-me pequeno beija-flor 
 sombra das colossais asas da guia de Haia. E com imensurvel emoo... Seguiu-se uma pausa, um tremor de mos que muitos atriburam ao nervosismo, e o senador 
Belurio Bezerra, o mais recente dos imortais, caiu fulminado no cho do Petit Trianon.

O PAIZ RIO DE JANEIRO, DOMINGO, 6 DE ABRIL DE 1924 OBITURIO Paradoxo Fatal Os convidados que estiveram presentes antehontem ao acto de posse do senador Belurio 
Bezerra na Academia Brasileira de Letras chocaram-se com o lamentvel incidente que veio ennodoar a noite, enlutando o Petit Trianon. Suppe-se que, no resistindo 
 emoo da cerimnia, o homenageado foi acommettido por um mal sbito, tendo morte instantnea. Collegas acadmicos, summidades no mbito da medicina, que fizeram 
o primeiro exame no senador, suspeitam que ele tenha soffrido um insidioso ataque de apoplexia ou, mais provvel, um enfarte do myocrdio. Saliente-se aqui, guardando-se, 
por supposto, as differenas, a ironia do triste episdio: o ltimo livro de Belizrio Bezerra, que lhe valeu louvores de crtica e pblico, descreve a morte, por 
assassinato, de todos os Immortais. Belizrio Bezerra est sendo velado no Petit Trianon, e ser enterrado amanh, s 16 horas, no cemitrio S. Joo Baptista, em 
Botafogo, ltimo abrigo dos Immortais fallecidos.

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SEGUNDA-FEIRA, 7 DE ABRIL DE 1924 PULVIS EST ET IN PULYEREM REVERTERIS Uma chuva de gotas grossas caa sobre a cidade do Rio de Janeiro naquela tarde de cu encoberto, 
e relmpagos festejavam a tempestade. Contrariando a crena de que aguaceiros aliviam o calor, os termmetros acusavam uma temperatura de trinta e nove graus. O 
clima no impediu que os partcipes se apresentassem a rigor para as ltimas despedidas ao senador da Repblica e emrito escritor Belizrio Bezerra, no cemitrio 
So Joo Batista. Havia mais gente ainda que no dia da posse. Srgio Loreto viera de Pernambuco, e at a autoridade maior do pas, o presidente Arthur Bernardes, 
estava l, de cartola e sobrecasaca, prestigiando o amigo morto, apesar das preocupaes com o estado de stio, que vigorava desde o governo anterior. Turistas ocasionais 
tambm se amontoavam em volta do tmulo, dando mostras da curiosidade mrbida que se manifesta em catstrofes e nos enterros de pessoas ilustres. Imortais mais ansiosos 
j cabalavam, entre si, votos para futuros candidatos. Causava estranheza v-los de fardo e guarda-chuva. Outros grupelhos contavam anedotas e riam disfaradamente. 
Mulheres envoltas em renda negra trocavam idias, em voz baixa, sobre os ltimos lanamentos da moda em Paris e falavam do extico Cuir de Russie, novo perfume de 
Coco Chanel. Deputados e senadores, conhecedores das tenses do momento poltico, dirigiam olhares para o presidente, conjecturando sobre possveis rebelies tenentistas,inspiradas
 pelos Dezoito do Forte. Enfim, como em qualquer funeral, o nico silencioso era o morto. Todos pretendiam despachar o defunto com um necrolgio pujante, porm o 
criminalista Aloysio Varejeira foi o mais pressuroso. Quando ele puxou do bolso o panegrico, um enorme crculo abriu-se  sua volta. O inescrupuloso advogado era 
temido pelo seu mau hlito. Os maledicentes imputavam-lhe o sucesso nos tribunais ao bafejo custico, cultivado por anos de vinho avinagrado e queijo-do-reino, que 
ele expelia, ameaador, em direo aos jurados. Pura aleivosia: o talento de Varejeira era to perigoso quanto seu bafo venfico. A no ser por essa discutvel qualidade, 
Aloysio era um homem comum. Portava bem seus setenta e oito anos, no escondia os cabelos brancos, e os dentes perdidos numa juventude descuidada haviam sido substitudos 
por belas dentaduras de marfim. O fardo,
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esmaecido por anos de ba, no conseguia atenuar-lhe a penosa figura. Desprendia-se dele um almscar em que o odor da naftalina se confundia com o da bafagem malfazeja. 
Somando-se a tudo isso a transpirao abundante do advogado, ficava mais que justificado o largo espao formado em seu redor. Mesmo assim, algumas senhoras protegiam 
as narinas com lencinhos perfumados, fingindo prantear o finado. Indiferente a tudo, Aloysio Varejeira ajustou no nariz o lorgnon que lhe facilitava a leitura, abriu 
a boca cheia de molares luzidios e, engrolando um ruidoso gorgolejo, tombou morto sobre o caixo do seu confrade. TEORIA DAS COINCIDNCIAS AXIOMA DE LUZATTI Amadeo 
Luzatti (1498-1572), astrnomo genovs, professor de filosofia da Universidade de Bolonha "... La creatura umana  legata a tutte le parti dell' universo." (A criatura 
humana  ligada a todas as partes do universo.) *** POSTULADO DA TEORIA DAS COINCIDNCIAS Tendo uma amostra significativa, mesmo um evento extremamente improvvel 
torna-se provvel, e, portanto, qualquer coisa est fadada a acontecer. *** REFUTAO PEREMPTRIA  TEORIA DAS COINCIDNCIAS TEOREMA DE PENZANI Giacomo Penzani (1512-1603) 
, algebrista florentino, matemtico da corte do duque da Toscam "... La questione  dimostrata con chiarezza in questo teorema:" (A questo  demonstrada com clareza 
neste teorema:) IMPOSSIBILIDADE METAFSICA DAS COINCIDNCIAS DOGMA DE GALDERN Y FUENTES Frei Diego Galdern y Fuentes (1530-1619), telogo madrilenho, inquisidor 
do Tribunal do Santo Ofcio "A identidade ou igualdade absoluta de duas ou mais pessoas, eventos ou objetos que altere a
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ordem divina  uma heresia, indicando interveno satnica no universo celestial criado por Deus Todo-Poderoso." O HOMEM DA PALHETA O comissrio Machado nada entendia 
de teoremas e axiomas, nem era homem de grandes convices religiosas: "Catlico no praticante", costumava dizer. Mas certamente no acreditava em coincidncias. 
Ainda mais se a coincidncia envolvia duas pessoas de renome. Dez anos na polcia haviam-no persuadido de que as coisas no aconteciam por acaso. Quando ele leu, 
n' O Paiz, a notcia da morte dos dois acadmicos por ataque cardaco, seu instinto de investigador entrou em alerta. Segundo os mdicos, nenhum deles tinha histrico 
de problemas vasculares. Por se tratar de literatos, o comissrio, compulsivo devorador de livros, logo se interessou pelo caso. O hbito da leitura fora-lhe incutido 
pelo pai, Rubino Machado, escrivo de caligrafia primorosa do 2Cartrio de Imveis. Tamanha era a admirao de Rubino por Machado de Assis, que batizara de Machado 
o filho. Nome: Machado. Sobrenome: Machado. Desde os tempos de colgio perpetravam-se gracejos com o nome em dobradinha do comissrio Machado Machado. Magro, de 
olhos negros, olheiras cavas - fruto das noites maldormidas nas delegacias -, que lhe valeram o apelido de Coruja, cabelos compridos de poeta que irritavam seus 
superiores, Machado Machado era um homem bonito. Tinha mos longas, de pianista, as unhas impecavelmente tratadas pelas manicures do Hotel Avenida. No as tratava 
por vaidade, e sim por zelo profissional. Ningum como as manicures para conhecer todas as futricas de uma cidade. Enquanto cortavam peles e cutculas, as moas 
nem se davam conta quando lhe passavam informaes valiosas. As vezes, aquelas alegres meninas tagarelas eram-lhe mais teis que os alcagetes das delegacias. A 
diferena da maioria dos policiais, que usavam chapus de feltro com abas largas, o Coruja no abria mo da palheta, chapu feito de palha tranada, desde que vira, 
um ano antes, O homem mosca, com Harold Lloyd. Inesquecvel a imagem do comediante, nas alturas, pendurado nos ponteiros do relgio gigantesco na parede de um arranha-cu, 
de palheta na cabea. Decerto no combinava com as algemas e o Colt.45, a arma semi-automtica que Machado portava num coldre de ombro.
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O chapu-palheta e o terno mal passado emprestavam-lhe um ar jovial, acentuando seu jeito enganador de menino desprotegido. As mulheres achavam-no perturbador, intrigante, 
e encantavam-se com seu nome em eco: "Machado Machado... Machado Machado...". Aos trinta e quatro anos, fumante desde os dezoito, no abdicava dos cigarros Cairo, 
da Tabacaria Londres, feitos de fumo turco, um tabaco de cheiro forte, inconfundvel. Machado tinha uma pacincia quase patolgica e sempre conseguia o que desejava. 
Sua obstinao era lendria na polcia. Da paixo do Coruja pela esgrima, no entanto, poucos sabiam. Era o nico esporte que ele praticava. Ficara fascinado pelos 
duelos desde meninote, ao ler O Corsrio Negro e todos os livros de aventuras de Emilio Salgari. O comissrio treinava regularmente na sala D'armas do mestre italiano 
Ruggiero Buonaventi, no largo da Carioca. Excedia-se no manejo do sabre, do florete e da espada. A persistncia levava-o a aprimorar todos os golpes  perfeio. 
Mestre Ruggiero considerava-o seu melhor discpulo e no entendia de onde vinha a resistncia quase ilimitada daquele homem que fumava entre os exerccios. Nessa 
manh ensolarada de quinta-feira, trs dias depois do ocorrido no cemitrio So Joo Batista, ele tentava convencer, com a teimosia habitual, o chefe de polcia, 
general Floresta, a deix-lo investigar a morte dos acadmicos. Floresta espantava-se com a perseverana e ousadia do comissrio: "Que petulncia a desse homem, 
vir at meu gabinete com essa histria absurda! Deixemos os mortos enterrarem seus mortos, que eu tenho mais o que fazer!", pensou. Bastavam as medidas discricionrias 
e os mtodos repressivos do estado de stio. No necessitava de mais aborrecimentos. Servindo-se de um imaculado leno de cambraia com monograma bordado pela prpria 
esposa, enxugou o suor do rosto, e bufou: - Tudo isso porque o senhor no acredita em coincidncias? - Exatamente, general. - Pois eu acredito - pontificou o chefe 
de polcia, como se a resposta encerrasse a arengada. - Passe bem. Machado nem se moveu. - General, s estou lhe pedindo que ordene um exame mais detalhado dos cadveres. 
Uma autpsia. Se no surgir... -Autpsia!? Em dois imortais!? Voc enlouqueceu de vez! Quer que eu seja odiado pela Academia? - esbravejou Floresta, que almejava 
glrias futuras.

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- Ningum precisa ficar sabendo. Posso arranjar isso com o doutor Penna-Monteiro, l do Instituto. E s o senhor dar a ordem. Pra alguma coisa devem servir estes 
horrveis tempos de exceo... O general fingiu no ouvir a crtica ao governo e tentou demov-lo: - Olhe que s vezes acontecem coincidncias inacreditveis. Voc 
conhece o caso do rei Humberto I, da Itlia? - No, senhor - disse o Coruja, paciente. - Pois bem. Na noite de 28 de julho de 1900 comeou Floresta, que tinha tima 
memria para coisas inteis -, o rei Humberto i da Itlia jantou com seu secretrio num restaurante em Monza. O rei notou que o dono do restaurante era idntico 
a ele. - Idntico? - No me interrompa! - disparou o chefe de polcia. Machado sups que ele devia brilhar contando essa asneira em todas as reunies sociais. Floresta 
continuou: - Por curiosidade, o rei comeou a conversar com ele e descobriu que os dois tinham muitas coisas em comum. O dono do restaurante tambm se chamava Humberto, 
ambos haviam nascido em Turim no mesmo dia, a sua mulher se chamava Margarida, como a rainha, e o restaurante foi inaugurado no mesmo dia da coroao do rei. Pois 
bem. No dia seguinte, o dono do restaurante foi assassinado por um desconhecido na mesma hora em que um anarquista matava o rei Humberto. E ou no  uma coincidncia? 
- terminou, triunfante. - Pode ser, mas h uma dissonncia nessa histria. - Como? - irritou-se o militar. - Um era o rei da Itlia, e o outro era s dono de restaurante. 
Pelo argumento esfarrapado, o chefe de polcia percebeu que no adiantava lutar contra a teimosia do seu funcionrio. - Est certo! Se lhe d tanto prazer revirar 
as entranhas alheias, v em frente! Mas nem uma palavra a ningum antes de descobrir algo suspeito - concedeu, vencido. - Claro, general. - Agora, eu tenho que cuidar 
de assuntos mais srios - resmungou Floresta, mergulhando na leitura da revista Careta. FIDELITER AD LUCEM PER ARDUA TAMEN "Fidelidade  verdade a qualquer custo": 
era o que dizia o escudo de bronze, smbolo do novssimo Instituto Mdico-Legal, colocado na entrada do necrotrio instalado na praa XV. O Servio Mdico-Legal 
passara a ser subordinado diretamente ao Ministrio da Justia.
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Nada mais apropriado para a inaugurao daquelas dependncias do que as duas necropsias dos distintos extintos que jaziam sobre as reluzentes mesas de metal. Devido 
ao trnsito e ao segredo que cercara toda a operao, os corpos chegaram s s trs horas da tarde. Uma mincia protocolar acrescentava estranheza maior quele cenrio 
soturno: ambos haviam sido enterrados com seus fardes. Entre as duas mesas, estava o legista Gilberto de Penna-Monteiro. Figura imponente - quase dois metros de 
altura, cabelos encaracolados e voz de baixo profundo -, lembrava um guerreiro conquistador posando ao lado de seus despojos. Penna-Monteiro era conhecido pela meticulosidade. 
Nada escapava queles pequeninos olhos castanhos e percucientes. O comissrio Machado Machado fora seu colega de ginsio, e o destino solidificara essa amizade forjada 
nos bancos de colgio. L estava ele junto ao amigo, fumando o inseparvel Cairo, enquanto aguardava, ansioso, o incio das intervenes. - Perna, vamos logo com 
isso. Tenho que devolver esses defuntos ainda hoje! - exclamou, revelando total falta de respeito. - Calma. Primeiro me ajuda a tirar essas fatiotas. - Eu?! - Claro. 
Voc no disse que queria sigilo absoluto? Dispensei meus assistentes. Despir defuntos no  uma empreitada to simples como pode parecer  primeira vista, sobretudo 
quando esto com uniforme de gala. Machado esperava que todo aquele trabalho no fosse intil. Sabia que o chefe de polcia jamais deixaria de lembrarlhe o erro, 
caso fracassasse. Afastou o funesto pensamento e empenhou-se, ao lado de Penna-Monteiro, em desnudar os acadmicos. Mesmo tendo morrido h mais tempo, Belizrio 
Bezerra achava-se em muito melhor estado que Aloysio Varejeira. Pena que isso no servisse de consolo ao senador. Pouqussimos confrades foram, no dia seguinte, 
ao enterro do criminalista, no se sabe se por estarem abalados ou por superstio. Os cadveres encontravam-se cobertos de manchas roxas, e a pele rachara em diversos 
pontos. Os rostos apresentavam a mesma colorao azinhavrada. A pele embaixo do queixo tornara-se violcea, formando um colar  volta do pescoo. Os dois tinham 
marcas idnticas por todo o corpo. Machado atribuiu tais alteraes a um comeo de decomposio, no que foi contestado.

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- No. Existe alguma coisa estranha aqui afirmou, intrigado, o legista, abrindo a boca do advogado. - Olha s como a lngua dele est escura. - Claro. Diziam que 
ele tinha um hlito horroroso. - No se trata disso. Pode ver que a lngua do colega tem a mesma cor. Machado afastou os maxilares de Bezerra e constatou que era 
verdade. As duas lnguas exibiam tonalidade semelhante. Havia um certo humor funreo na postura dos imortais de boca escancarada. PennaMonteiro declarou: - Os dois 
apresentam sinais de pelagra e lngua nigra. - Lngua o qu? - Lngua nitra pilosa. A lngua parece preta por causa da hipertrofia e do alongamento das papilas filiformes 
na parte superior. Fica com esse aspecto peludo e com essa colorao porque as papilas desenvolvem colnias de bactrias cromatognicas. - Sei, bactrias cromatognicas... 
- comentou Machado, irnico. - So fungos formados por carncia de enzimas - explicou o legista. O engraado  que tambm esto com todas as caractersticas da pelagra. 
- E isso, agora, vem a ser o qu? - perguntou o comissrio, cada vez mais aturdido. - Uma doena causada por m alimentao, deficincia de cido flico, vitaminas 
e sais minerais. Est vendo este colar formado pela colorao diferente da pele? Chama-se colar de Casal, em homenagem a don Gaspar Casal, um mdico espanhol. Ele 
foi o primeiro a identificar a doena, por volta de 1 %00. Ns chamamos a pelagra de "doena dos trs D": dermatite, demncia e diarria. S leva  morte a longo 
prazo e se no for tratada. No  possvel que dois homens bem alimentados tivessem isso. E ningum morre de lngua nigra, que  de origem desconhecida mas  benigna. 
Machado Machado horrorizou-se: - Belo consolo. O sujeito se olha no espelho, v que est com a lngua preta, no sabe como pegou, mas fica tranqilo porque  benigna. 
- Um dia tudo isso vai ser descoberto. No esquea, Machadinho, que a medicina  uma cincia de verdades transitrias - pontificou Penna-Monteiro, um dos poucos 
a cham-lo pelo diminutivo. - Est bem. Enquanto essas verdades no transitam, me esclarece sobre esses sinais. - Pra mim s tem uma explicao: veneno. - Eu sabia 
que essas mortes no eram naturais! - exclamou o Coruja. - Que veneno?
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- Isso eu no sei. Certamente no  nenhum dos clssicos. Minha intuio me diz que  algum txico desconhecido, porque nos meus anos de legista nunca vi nada semelhante. 
O mdico estava desnorteado. O estudo de venenos era sua especialidade. Havia defendido tese sobre o tema em Cambridge, na Inglaterra, onde primeiro se graduara 
summa cum lande em medicina forense e em qumica. A famlia Penna-Monteiro era constituda por geraes de obstetras bem-sucedidos. Seu bisav fizera o parto de 
d. Pedro n, no palcio de So Cristvo, na Quinta da Boa Vista. Fora um desgosto quando Gilberto revelara sua paixo pela medicina legal. - Vou abrir os corpos 
pra ver se encontro mais algum indcio resolveu. Duas horas depois, os imortais, costurados e vestidos, eram despachados de volta ao tmulo, para enfim desfrutarem 
do sossego eterno. O comissrio Machado observou o cenho franzido do mdico ao ver o rabeco do Instituto, disfarado em ambulncia, afastando-se em direo ao So 
Joo Batista. Estavam os dois intrigados com o resultado final da necropsia. A princpio, nada parecera anormal, at que Penna-Monteiro extraiu o corao do peito 
de Belurio Bezerra. O rgo estava enrugado tal qual um pergaminho, encolhera, e sua cor era negra, como a lngua. Assemelhava-se s cabeas reduzidas e mumificadas 
pelos jivaros, os ndios peruanos caadores de cabea. O corao de Aloysio Varejeira tinha aparncia idntica. Pela primeira vez desde que entrara para a polcia, 
contrariando o desejo do pai, que o queria bibliotecrio ou advogado, Machado assustou-se com a presena da morte. Despediu-se em silncio do amigo. Logo teria que 
prestar contas ao chefe confirmando seus piores receios. "Imortais assassinados", pensou. "Como no livro." Anteviu o escndalo estampado nos jornais e lamentou no 
ter se enganado. Sabia que o general Floresta odiava portadores de ms notcias. O dr. Gilberto de Penna-Monteiro, legista por profisso e cientista por vocao, 
demorou-se ali na soleira, sob o emblema de bronze no umbral do necrotrio. Absorto em vises soturnas, girava entre os dedos o boto que arrancara de um dos fardes 
como souvenir daquelas mortes misteriosas.

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O PAIZ RIO DE JANEIRO, SABBADO, 12 DE ABRIL DE 1924 Assassinatos na Academia Brasileira de Letras! Chegou a esta redaco uma espantosa notcia: os dois membros 
da Academia Brasileira de Letras mortos h uma semana foram assassinados. As autoridades officiais competentes, depois dos resultados de minuciosa necropsia, chegaram 
 concluso de que o bito, anteriormente attribudo a causas naturaes, foi provocado por um veneno mysterioso. O chefe de polcia, general Floresta, apesar de ver-se 
s voltas com a denncia de uma conspirao anarchista promovida por subversivos profissionaes infiltrados na Unio dos Operrios em Construco Civil, prometteu 
no medir esforos para desvendar os execrveis homicdios. Salientou o general que desconfiou immediatamente do succedido. "No sou homem de acreditar em coincidncias", 
annunciou. Floresta affirmou ser o crime ainda mais condemnvel, pois as victimas pertenciam  fina flor da nossa intellectualidade. O general ordenou ao comissrio 
Machado Machado que iniciasse, ipso facto, as diligncias appropriadas, outorgando-lhe carte Manche. Explicou que sse subalterno, reconhecido por sua efficincia 
investigativa,  tambm um ardoroso admirador das belfas-letras. Decretou, na mesma occasio, que o legista dr. Gilberto de PennaMonteiro, do Instituto Mdico-Legal, 
collaborasse com o comissrio, tendo em vista seu profundo conhecimento chmico das substncias venenosas. O chefe de polcia assegurou um rpido desfecho para o 
afflictivo e clamoroso affaire policial.

INDISCRIES DE UM PARLAPATO As onze horas da noite, no havia uma pessoa no restaurante Lamas que no tivesse um jornal aberto  sua frente. O farfalhar de todas 
aquelas pginas, folheadas  procura de mais detalhes dos crimes, lembrava uma revoada de pombos. Sentado  mesa habitual, Machado Machado lia, estarrecido, a notcia 
publicada n' O Paiz. A burrice do general suplantava a
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desfaatez com que falara  imprensa. Haviam combinado manter sigilo sobre os homicdios, para facilitar a sindicncia, mas o chefe de polcia, na nsia de aparecer, 
tinha convocado uma entrevista coletiva. O estabanado falastro acabara de liquidar a vantagem que levavam sobre o assassino. "Agora, o matador sabe que eu sei e 
sabe que eu sei que ele sabe", pensou, irritado, o Coruja. Jurou a si mesmo que somente revelaria qualquer nova descoberta a Floresta quando prendesse o criminoso. 
Machado no estava no restaurante apenas para jantar. Freqentado por bomios, artistas, intelectuais, polticos, jornalistas e at por umas poucas ovelhas negras 
do clero, o Lamas tambm servia de precioso manancial de informaes. Suas portas no fechavam nunca. Um dos bomios assduos, o Garoupa, contava que dois anos antes, 
por ocasio da primeira revolta dos tenentes, foi impossvel baixar a grade de ferro que protegia o local. Estava emperrada por falta de uso. Os garons, que funcionavam 
como olheiros, sempre a par dos ltimos mexericos a circular pela cidade, eram outra fonte de notcias que o Coruja cultivava com carinho. O mais popular deles, 
o Bodoque, como o chamavam, aproximou-se do policial. - Ento, comissrio? Alguma novidade sobre os Crimes do Penacho? - cochichou, batizando a ocorrncia em funo 
das plumas que adornavam o chapu bicorne dos acadmicos. Devido ao grande nmero de jornalistas fregueses das mesas servidas pelo Bodoque, Machado tinha certeza 
de que, em breve, o apodo viraria cabealho nos clichs dos dirios. - Bodoque, voc sabe muito mais que eu das novidades. - Pode ser, comissrio, mas nesse caso 
estou boiando - disse, pensativo, o garom. - Vou sentir falta do senador. Vinha muito aqui. Gostava de dar boas gorjetas. - E o doutor Aloysio Varejeira? Tambm 
vinha? - Quem? O Vav Boca de Esgoto? - Bodoque, respeite os mortos... - admoestou Machado, suprimindo o sorriso. O garom no se abalou: - A morte s lhe pode ter 
melhorado o hlito. O sopro daquele homem derrubava urubu no vo. Ele vinha menos. Era o homem mais unha-de-fome que eu conheci. No comia ovo pra no jogar a casca 
fora. Gorjeta, ento, pecas. - Por acaso viu os dois juntos alguma vez? - Nunca. O senador, quando vinha acompanhado, era por mulheres lindas - Bodoque sussurrou. 
Volta e meia, aparecia tarde da noite
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com aquela artista de teatro, a Monique Margot. Que monumento, seu delegado. Quando ela chegava, quase que eu derrubava a bandeja! Para um profissional como o Bodoque, 
a expresso era o auge do elogio. Monique Margot era uma girl francesa disputadssima por rapazes e coronis. Chegara ao Brasil na companhia de revistas Ba-Ta-Clan, 
que, um ano antes, trouxera ao Rio de Janeiro a famosa estrela Mistinguett. Conhecendo suas limitaes artsticas, e ao mesmo tempo percebendo as imensas possibilidades 
financeiras que o pas lhe oferecia, graas  vocao para a macheza e para o coronelismo, quando a trupe voltou  Frana, depois da turn, a esperta francesinha 
preferiu ficar por aqui. No momento, participava de Al!... Quem fala?, no Teatro So Jos. - Alis, estiveram aqui dois dias antes dele morrer - prosseguiu Bodoque. 
- Chamou ateno porque tiveram uma discusso feia. Falavam baixinho, disfarando, mas eu notei que ele estava tiririca e a coisa quase descambou num forrobod. 
- Voc no ouviu nem do que se tratava? - perguntou Machado, sabedor da curiosidade insacivel do garom. - Tentei, mas eles ficavam calados sempre que eu chegava 
perto. No era grande coisa, mas, com as poucas pistas que tinha, no dia seguinte o Coruja estaria, sem dvida, no auditrio do Teatro So Jos. Terminou o cafezinho, 
pagou a conta sem esquecer uma boa propina e, ajeitando o chapu-palheta na cabea, saiu fumando um Cairo, enquanto Bodoque mergulhava no burburinho perene do Lamas. 
OH L L'. VIVE LA FRANCE! VIVE LA FERIE! Na primeira fila do So Jos, o comissrio Machado Machado admirava os reclames estampados no pano de boca que guarnecia 
o palco. Era costume vender esse espao para ajudar a pagar a montagem do espetculo. Muito coloridos, eles formavam uma animada colcha de retalhos. Os casais de 
namorados, para passar o tempo, antes do comeo e no intervalo da pea, ficavam brincando de descobrir onde se encontrava esta ou aquela palavra no texto dos anncios. 
Terminara o primeiro ato de Al!... Quem fala?. O libreto de Carlos Bittencourt e Cardoso de Menezes satirizava o servio telefnico, que volta e meia apresentava 
problemas dias a fio, irritando os
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assinantes. O pblico rira a valer, identificando-se com aquelas mazelas, e continuava em estado de alumbramento e alegria. A revista absorvera a influncia das 
montagens francesas que passaram pelo Rio de janeiro e deixaram uma marca inconfundvel: a ferie. O gnero caracterizava-se por muitas luzes, mquinas de fazer 
fumaa, cenrios grandiosos, msica e, claro, como atrativos indispensveis, o humor dos cmicos e o "nu artstico" das girls. Machado ganhara o lugar privilegiado 
no "gargarejo" graas  sua amizade com o administrador. A primeira fila dos teatros era assim chamada porque a proximidade do palco obrigava o espectador a inclinar 
a cabea para trs e ele ficava pasmo, de boca aberta, diante das modelos. Olhando de longe, tinha-se a ntida impresso de que a fila inteira estava gargarejando. 
Em princpio, o "gargarejo" era totalmente ocupado por senhores ricos de excelente fama que vinham se deleitar com a nudez das meninas pobres de fama duvidosa. Depois 
de uma apreciao in loco, os "coronis" faziam s coristas propostas ditas indecorosas. Sendo uma extraordinria negociadora, a esperta e belssima Monique Margot 
j abocanhara dois solitrios de cinco quilates, trs apartamentos no Flamengo, um sobrado em Copacabana, onde morava, e um automvel Packard novinho em folha. Sem 
falar numa conta em banco cada vez mais polpuda. Seu salrio mal dava para pagar a maquilagem importada. A sala estava lotada alm da sua capacidade. Pessoas apinhavam-se 
em p, atrs das galerias e da ltima fila. Al!... Quem fala? sairia de cartaz na quarta-feira em razo da Semana Santa e s voltaria no dia 19, aps o Sbado de 
Aleluia. Conhecendo a instabilidade das temporadas teatrais, muitos temiam que isso no acontecesse. Machado notou que Monique Margot tinha status de vedete. Foi 
ela quem abriu o segundo ato, cantando um grande sucesso de Mistinguett, "a, c'est Paris", o qual adaptou com inteligncia para "a, c'est Rio". Cantava cobrindo-se 
apenas com dois imensos leques de plumas que deixavam entrever os seios esplndidos. Era, sem dvida, uma mulher fascinante. Tinha a pele muito branca, quase translcida, 
a contrastar com cabelos ruivos, grandes olhos verdes, longas pernas e coxas generosas. Durante o nmero, ouviam-se suspiros abafados na platia. No meio do segundo 
ato, enquanto se trocava o cenrio, um novo cantor, chamado Francisco Alves, foi aplaudidssimo ao interpretar um cabaretier. O espetculo terminou em clima de festa. 
Pouco a pouco, o pblico foi deixando o teatro e seguindo em direo  praa Tiradentes. O Coruja esperou esgotar-se a fila de admiradores endinheirados que

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se acotovelavam nos bastidores, marcando encontros, e bateu  porta do camarim da corista. - Un moment!- gritou a vedete. Fingindo no conhecer bem a lngua francesa, 
Machado foi entrando. A moa postava-se em frente a um grande espelho, totalmente nua. O comissrio entendeu por que os milionrios disputavam a peso de ouro os 
favores de Monique Margot. Desculpouse, tirando o chapupalheta: - Perdo! Pensei que fosse pra entrar... A francesinha avaliou-o sem pressa dos ps  cabea. A 
palidez e as olheiras profundas do policial lembravam-lhe um retrato de Rimbaud, publicado na edio d' Une saison en enfer, que ela guardava desde criana. Depois, 
escondeu-se atrs do biombo, no antes dele constatar que Monique era realmente ruiva. Ela no deve ter desgostado da visita inesperada, porque, enquanto vestia 
um quimono, disse, apontando o pequeno sof do camarim: -J que entrou, sente-se. O senhor deseja? - Meu nome  Machado. Sou comissrio de polcia, e gostaria de... 
- Se veio fiscalizar, vou lhe avisando que minha carteira foi registrada - cortou, rspida, Margot. Ou vai exigir que eu faa algum exame de sade? O registro, feito 
na polcia, na carteira das atrizes era idntico ao das prostitutas. Apesar do empenho de vrios artistas e intelectuais, a lei continuava igual. O Coruja, que considerava 
essa qualificao absurda, defendeu-se: - Mademoiselle, jamais viria aqui com essa misso insultuosa. Tenho o maior respeito pelo seu trabalho. No esclareceu a 
qual das duas atividades se referia: a de atriz ou a de cortes. Preferiu manter a ambigidade da resposta. Monique aproximou-se, com o quimono entreaberto, e perguntou, 
provocadora: - O que deseja, ento? - Estou investigando a morte dos dois acadmicos. - Mon ami, s seria possvel eu matar algum, do corao, durante o meu nmero... 
- afirmou a vedete, rindo e sentando-se ao lado dele. O quimono deixava ver parte dos seios. A moa cruzou as pernas com sensualidade calculada, mostrando o joelho 
rolio. Machado levantou-se e acendeu um cigarro. Forou a concentrao. - E que a senhora foi uma das ltimas pessoas a ter uma conversa tte--tte com uma das 
vtimas, Belurio Bezerra - explicou, gastando seu francs. Monique deu uma gargalhada.
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- Mon chri, era impossvel ter uma conversa tte--tte com ele. O mximo que se conseguia era uma conversa "coxa-a-coxa"... - Eu pediria que a senhora... A francesinha 
interrompeu, achegando-se a ele: -Antes de mais nada, eu prefiro que me chame de voc. Afinal, temos intimidade suficiente. Voc me viu toute nue... Machado acendeu 
outro cigarro na ponta do primeiro. Manteve uma aparncia de calma. - Est certo. Ser que voc podia me dizer do que se tratava? Soube que foi mais uma discusso 
que uma conversa. - Bobagem. Uma briga vulgar envolvendo amor e dinheiro. - Como assim? - Ele queria mais amor, e eu queria mais dinheiro... - Voc notou alguma 
diferena no seu comportamento? Ele falou de algum receio, de algum medo? - Voc j viu colonel pernambucano demonstrar medo? - respondeu Monique, misturando as 
lnguas. Machado despediu-se, a contragosto, acendendo o terceiro cigarro na ponta do segundo: - Bem,  s. Muito obrigado pela sua pacincia. A vedete chegou mais 
perto. - Pensando bem, houve um momento em que ele reclamou de um guarda-costas que devia ter vindo do Recife e ainda no tinha aparecido. Estava nervoso e inseguro, 
queria que o capanga chegasse antes da posse. Ficou furioso por causa disso e quis descontar em mim. O comissrio achou que talvez a informao fosse relevante. 
Entregou um carto a Monique. - Se lembrar de mais alguma coisa que possa ter relao com os assassinatos, por favor, me ligue, a qualquer hora do dia ou da noite. 
A francesinha colou seu corpo no do comissrio. - Tem preferncia? De dia ou de noite? Perdendo a conteno que lhe restava, o detetive atirou longe o cigarro e 
beijou Monique avidamente. Os dois caram abraados sobre o sof. A vedete arrancou as roupas de Machado, enquanto ele deixava em frangalhos o frgil quimono. E 
apalparam-se s cegas, como se quisessem guardar a memria dos seus corpos. Esse momento de plena entrega foi interrompido por batidas violentas na porta: - Dona 
Monique! Est pegando fogo a dentro! Estou sentindo cheiro de fumaa! Era o bombeiro que ficava de planto no teatro.
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Machado Machado percebeu que seu cigarro aceso havia cado na cesta de papis do camarim da estrela. E pensou seriamente em parar de fumar. O REPOUSO DO GUERREIRO 
Machado acordou tarde no dia seguinte. Depois do episdio pirotcnico ocorrido no camarim, Monique carregara-o para sua casa, em Copacabana, de onde o detetive sara, 
exausto, s cinco horas da manh. Como sentia no corpo modo os excessos da vspera, preferiu tirar a tarde para descansar. A cabea pesava-lhe, no por causa do 
champanhe que tomara com a francesa, mas em razo do intrigante mistrio dos assassinatos. Que haveria de comum entre as duas vtimas alm da imortalidade? Por acaso, 
o senador fora cliente do criminalista? O advogado deveria favores ao poltico? Teria participao nas mortes o capanga nordestino, cuja chegada no consumada tanto 
irritara Belurio, ou ele ansiava por sua presena porque temia pela prpria vida? E o jurista de reputao nebulosa? Por que se precipitara em ler o necrolgio? 
Apenas por vaidade, ou era uma forma secreta de ironia? Resolveu que o melhor que tinha a fazer era cumprir a rdua tarefa de ler o ltimo livro de Bezerra em busca 
de alguma pista. Anoitecera quando o comissrio Machado Machado terminou a leitura do Assassinatos na Academia Brasileira de Letras. No havia dvidas quanto ao 
talento de Belizrio Bezerra: como escritor, a posteridade reservava-lhe o anonimato. A insipidez era sua musa inspiradora. Com afinco admirvel pontificava, em 
vrias lnguas, sobre os temas que mais ignorava. O empenho do delegado em procurar pistas no livro mostrou-se intil. O nico ponto em comum era que, tanto na fico 
como na vida real, os acadmicos morriam envenenados. Entretanto, no romance morriam todos, e o veneno fora despejado no famoso ch das cinco, no Petit Trianon. 
Bezerra no o descrevia no texto, porm certamente a droga usada era menos intoxicante que a sua prosa. No caso dos assassinatos reais, nem ch existia. Desconhecia-se 
o veneno e o modo como fora ministrado. Penna-Monteiro continuava no laboratrio particular improvisado em sua casa, tentando identific-lo. Passava as noites percorrendo 
velhos compndios que pudessem conter alguma informao relevante, mas, por enquanto, o enigma permanecia impenetrvel. Machado atirou o livro longe, suspirou e 
dirigiuse para a cozinha em busca de um copo de gua. A ressaca deixava-lhe um travo na boca.
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Quando atravessava a sala, ouviu passos afastando-se pelo corredor do prdio. Era um andar ligeiro, que produzia um som seco. O comissrio saiu para o corredor a 
tempo de ouvir a porta do edifcio bater. As pressas, desceu os poucos degraus que o separavam da entrada e ganhou a rua, de pijama e chinelo. No viu ningum, mas 
o rudo das passadas rpidas contornando a esquina soava em seus ouvidos. O Coruja voltou para casa, com uma sensao de mal-estar. Seu sexto sentido de policial 
dizia-lhe que o visitante incgnito tinha algo a ver com o caso. Foi quando avistou no cho, perto da soleira, um envelope que haviam enfiado por baixo da porta. 
No tinha endereo marcado, muito menos remetente. Lembrou-se de que a janela da cozinha dava para a rua lateral e correu para abri-Ia. Debruandose, ainda teve 
tempo de ver um vulto alto e cabisbaixo, de chapu e sobretudo pretos, perdendo-se na escurido da noite. No envelope, numa folha de papel branco, apenas um nome 
formado por letras recortadas de revistas e enfeitado pela figura de um pssaro.

"Era s o que me faltava. Venenos com quebra-cabeas", disse consigo mesmo o comissrio Machado Machado, que nada entendia de charadas e odiava passarinhos. FILTROS 
& POES Enfiado na biblioteca do casaro da famlia no Cosme Velho, Gilberto de Penna-Monteiro lia calhamaos antigos de medicina e escritos arcaicos de alquimia 
 procura de qualquer tipo de informao sobre a substncia que aniquilara os dois acadmicos. O primeiro registro de uma essncia preparada com o intuito de conseguir 
resultados letais constava de um papiro egpcio guardado no museu do Louvre, em Paris, que mencionava a manufatura de um veneno colhido em sementes de frutas. Os 
sacerdotes da deusa Sekhmet, divindade associada  pestilncia e  cura das doenas, extraam do caroo de pssego, mediante um processo de destilao inventado 
por eles, a substncia agora conhecida como cido prssico ou ciandrico. Essa substncia era utilizada nos sacrifcios de seres humanos a Ptah, deus criador da 
matria e companheiro de Sekhmet. Sua ingesto provocava morte quase instantnea.

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Sabia-se que outrora, na China, os mandarins suicidavam-se engolindo folhas de ouro. J os hebreus tinham noo das propriedades do acnito, uma planta extremamente 
venenosa. Mas foi na Grcia antiga que se ampliou o conhecimento sobre venenos, com o manuseio do arsnico em forma de realgar, sulfeto de arsnio, e em metais como 
o mercrio, o cobre, o chumbo e a prata. Foram tambm os gregos os primeiros a pesquisar antdotos; os mdicos recomendavam a ingesto de azeite quente para provocar 
vmito antes que o alimento envenenado fosse absorvido pelo organismo. O resultado desses antdotos era quase sempre improfcuo. Em Roma, no ano 200 a. C., os manuscritos 
de Lvio descrevem a morte misteriosa de vrias pessoas importantes ligadas ao senado. Os bitos foram atribudos  peste, at que uma escrava do cnsul Quinto Fbio 
Mximo revelou o nome de diversas envenenadoras que pertenciam  aristocracia. Em 1321, em plena Idade Mdia, surgiu, na Frana, o hbito de envenenar cisternas 
com um caldo composto de sangue de leprosos, esperma de um enforcado e ervas daninhas, ao qual se adicionava uma hstia consagrada, pois o bispo Hugues Graud garantia 
que a fuso sacrlega da pureza com a impureza lhe decuplicava a fora destrutiva. Todavia, foi na Renascena que a escola italiana de envenenadores atingiu o apogeu. 
Em 1543, o monge Giovanni di Ragusa, no Conclio de Trento, dispunha-se a eliminar qualquer indivduo considerado censurvel ou repreensvel, oferecendo um vasto 
sortimento de venenos de eficcia garantida. Pode-se dizer que o dedicado monge transformou em arte seu ofcio, tanto que criou uma tabela de tarifas diferentes 
para cada empreitada. PREOS AFERIDOS POR GIOVANNI DI RAGUSA PARA O ENVENENAMENTO DO GRO-SULTO SOLIMO, O MAGNFICO: 500 DUCADOS PARA O REI DA ESPANHA: 150 DUCADOS, 
MAIS AS DESPESAS DE VIAGEM PARA O DUQUE DE MILO: 60 DUCADOS PARA O MARQUS DE MNTUA: 50 DUCADOS PARA O PAPA: 100 DUCADOS

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Num adendo  relao, lia-se: "Quanto mais distante for o trabalho efetuado, quanto mais eminente for o destinatrio, maior dever ser a remunerao deste humilde 
servo do Senhor". (Vale salientar que o que se pagava para envenenar o gro-sulto equivalia ao preo do envenenamento de cinco papas.) Em 1610, o alquimista milans 
Giuseppe Borri desvendou a origem da doena que vinha minando a sade de Leopoldo t, da ustria. O mal que afligia Sua Majestade, debilitado a ponto de no deixar 
seus aposentos, era causado pelas velas que, em candelabros, iluminavam-lhe a alcova. Os pavios estavam impregnados de uma grande quantidade de arsnico, que, ao 
queimar, emanava vapores intoxicastes. Eliminados os crios, Leopoldo 1, depois de ingerir um antdoto secreto criado por Borri, recuperou-se rapidamente. Uma investigao 
posterior revelou que aquelas velas tinham sido preparadas pelo Pater-Procuratordos jesutas e entregues ao camareiro-mor do palcio com a recomendao expressa 
de que s fossem queimadas nos aposentos do imperador, pois eram bentas e proporcionariam boa sade a ele. To importantes quanto os venenos eram os antdotos. Certas 
frmulas, como a Theriaca Philonium, criada por Zopyros, um esculpio grego do ano 80 a. C., continuavam sendo prescritas na farmacopia londrina do sculo xvm. 
Esse emaranhado qumico, que chegou a conter duzentos e cinqenta medicamentos, era considerado o Antidotum Universalis. Entre outras drogas exticas, compunham 
a mistura: extrato de papoula, pimenta, gengibre, alcaravia, melado, vinho, sangue de vbora e os dentes de um guerreiro albino morto em combate. Penna-Monteiro 
presumiu que, caso o doente no morresse do veneno, morreria do remdio. Passava da meia-noite, e o mdico resolvera adiar a pesquisa para o dia seguinte, quando 
ouviu a sineta do porto. Pelo basculante da biblioteca, viu Machado Machado apertando a campainha com uma das mos e segurando um envelope na outra. Abriu a porta 
e fez o amigo entrar, ironizando: - O que houve, Corujinha? Trocou o emprego de polcia pelo de carteiro da noite, ou est s justificando o apelido? - Sei que  
tarde - respondeu o comissrio, entregando-lhe a mensagem cifrada que havia recebido pouco antes -, mas no ia dormir sem que voc visse isso. Gilberto de Penna-Monteiro 
examinou o bilhete e coou a cabea. A coisa toda j estava bastante complicada. No precisavam de mais enigmas.
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- Brs Duarte? Voc conhece algum Brs Duarte? - Nem Brs, nem Duarte. Tem mais: odeio aves desde que tive um vizinho que criava uma araponga - explicou Machado, 
apontando o pssaro aboletado no papel. Os dois sentaram-se  mesa da cozinha. Ficaram aliem silncio, bebericando um caf requentado, como se o lquido negro lhes 
fosse clarear as idias. De repente, o legista levantou-se e comeou a andar, pensando alto: - Ser que algum imortal escreveu sobre ornitologia? Animado, o detetive 
tambm se levantou, quase derramando a infuso morna na cala amarfanhada. - No sei, mas pelo menos  uma idia a ser investigada. Vou amanh mesmo ao Petit Trianon! 
- Seja paciente, Machadinho. O melhor  ir na quinta-feira, quando o ch das cinco  mais concorrido.  nesse dia da semana que acontecem as reunies regulares e 
as eleies. - Tens razo. Alis, preciso ir ao Copacabana Palace pra ver se algum tem notcias do guarda-costas. - Que guarda-costas? - quis saber Penna-Monteiro. 
- Um capanga que era esperado aqui no Rio e sumiu. Parece que o Belurio estava muito chateado com isso. - Como  que voc soube? - Tenho fontes no mundo teatral 
- respondeu, misterioso, Machado, sem comentar sua proveitosa aventura francfila. - Entendi, fontes femininas... - adivinhou Gilberto, que conhecia bem o amigo. 
- Depois eu conto, agora no  o momento desconversou o comissrio. Penna-Monteiro lembrou-lhe um assunto que estava sendo negligenciado: - Seria bom, tambm, investigar 
mais a vida do outro morto, o Aloysio Varejeira. - J pensei nisso. Alis, conto com a sua ajuda; vamos dividir os trabalhos. V se descobre alguma coisa sobre ele, 
amanh, no Tribunal do Jri. Vou ter que passar o dia na chefatura, botando a papelada em dia. Afinal, o Floresta ps voc  minha disposio disse Machado, zombando 
do amigo. - Na quarta, vou ao Copacabana Palace. - Que tal trocarmos de tarefa? - sugeriu o lgista. - Nunca! Voc conhece mais juristas do que eu, pobre mortal. 
Vou ter que me entediar no cassino do hotel. Como dizia Machado de Assis, "a vida  cheia de obrigaes que a gente cumpre, por mais
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vontade que tenha de as infringir deslavadamente" - declamou, canastro, o comissrio, num falso tom de tragdia. DURA LEX SED LEX Penna-Monteiro conhecia bem o 
prdio do Tribunal do Jri. J tivera que demonstrar sua experincia de legista um ano antes, durante o julgamento do rumoroso Crime do Aougueiro, quando provou 
que Jlio Macrio desmembrara a mulher, ainda viva, com a ajuda de Severino Silva, um auxiliar de aougue, por quem se apaixonara. Veio a se descobrir posteriormente 
que Macrio sempre fora homossexual e apenas por interesse se casara com a portuguesa Maria Amlia, que era filha do comendador Manoel Ferreira, proprietrio de 
uma rede de aougues. Depois de um banquete antropofgico, em que saborearam um churrasco das ndegas da infeliz senhora, Jlio e Severino recolheram as sobras em 
sacos de aniagem e, durante a madrugada, lanaram os restos do corpo na jaula dos lees, no jardim zoolgico, em Vila Isabel. Eram quatro horas da tarde, e um mormao 
sufocante pesava sobre a cidade. Os jornais diziam, como todo ano, que jamais se vira tamanho calor em abril desde a poca do Imprio. A cancula no impedia que 
advogados e rbulas atarefados circulassem, vestidos de preto, pelo antigo edifcio da rua da Relao. O mdico chegou ao mesmo tempo que um chofer de libr, ao 
volante de um Panhard & Levassor, estacionava  entrada do Tribunal. Rodrigo Dantas, um velho jurista amigo de seu pai, abriu a porta, antes que o motorista pudesse 
faz-lo, e saltou, lpido, do automvel. Entusiasta de mile Zola, emulava-lhe a barba, o bigode e o pintenez. Dantas era tido como um dos adversrios mais perigosos 
diante de um jri. Usava o humor como arma mortal. Muitas vezes, bastava um comentrio mordaz sobre a incompetncia dos promotores, para absolver o ru. Defendia, 
pro bono, operrios, anarquistas e comunistas que no podiam lhe pagar os honorrios. Certa vez, cobrou uma fortuna de uma famlia milionria paulista para representar 
um rapazote de vinte e um anos acusado de, bbado, espancar um desconhecido no Carnaval de Petrpolis. Quando lhe perguntaram por que aceitara o caso, respondeu: 
"Os ricos tambm tm direito  defesa". Gilberto de Penna-Monteiro, que o apreciava desde menino, aproximou-se, respeitoso. Sentia-se nfimo diante daquele monumento.
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- Mestre Rodrigo, posso roubar um pouco do seu tempo? - Meu filho, roubar no  um termo muito apropriado para se usar aqui - disse o advogado, rindo e apontando 
o prdio do Tribunal. - Se quer falar comigo, vamos at o botequim do Almeida, na rua do Lavradio. E o melhor cafezinho do Rio de janeiro. Pela maneira efusiva como 
foram recebidos, percebia-se que Rodrigo Dantas no era um fregus comum. Ele explicou a alegria do portugus dono do boteco: - Ano passado, uma construtora tentou 
despejar o Almeida e seus vizinhos pra construir aqui um desses monstrengos modernos que esto desfigurando o centro da cidade. Cuidei pra que isso no acontecesse... 
- concluiu com um sorriso maroto. Sentaram-se a uma mesa afastada, nos fundos, e o aroma do caf fumegante logo os envolveu. Rodrigo adiantou-se: - Imagino que o 
assunto diz respeito aos crimes que voc est investigando. Pode falar  vontade. Aqui  o meu escritrio no oficial. Gilberto sorveu um gole do caf. - Ns estamos 
quebrando a cabea pra descobrir o motivo dos assassinatos. Acho que ningum melhor que o senhor pra me traar o perfil de uma das vtimas. - Voc est se referindo 
ao Aloysio Varejeira,  claro, porque eu no conhecia o outro, o poltico borra-papis. Penna-Monteiro anuiu com a cabea. - Exato. Tem idia de quem desejaria a 
morte dele? - Praticamente todos que j estiveram no raio de uma lgua do seu hlito. - Era to terrvel assim? - divertiu-se o mdico. - Um pavor. No havia como 
escapar. O hlito virava a esquina atrs da gente. - Alm desse atributo duvidoso, o que mais pode me dizer a respeito dele? - Nada de muito bom. Era um sujeito 
miservel, daqueles que no jogam peteca pra no abrir a mo. Pra voc ter uma idia: antigamente, no bar da sede do Jockey Club, no se cobrava suco de laranja. 
Todo dia o Aloysio tomava uma jarra. H pouco tempo, resolveram cobrar um vintm pelo copo, uma cobrana simblica, que era destinada aos garons. Pois bem. O Varejeira 
passou a tomar sal de frutas como se fosse refresco, porque era de graa... - O jurista baixou a voz e confidenciou: - Sei que ele entrou pra Academia chantageando 
um dos membros mais influentes da Casa. Os protegidos desse homem so sempre eleitos.
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Inclusive, basta que ele anuncie seu apoio, pra que o indicado seja candidato nico... Gilberto interessou-se imediatamente: - Quem  esse homem todo-poderoso? - 
Olha, meu filho, vou lhe dizer porque eu era muito amigo do seu pai, meus dois filhos nasceram nas mos dele, mas, apesar de saber com certeza, no tenho provas 
concretas. Por isso, seja discreto, veja l o que vai fazer. Penna-Monteiro tranqilizou-o: - Nunca trairia sua confiana, doutor Rodrigo. Ainda me lembro dos rebuados 
cor-de-rosa, em forma de bonequinhos, que o senhor me dava quando eu era garoto. O jurista riu ao lembrar-se do fato. - Ento foi ali que nasceu esta "doce" amizade... 
Levantou-se e chamou o portugus, querendo a conta. Almeida gritou l do balco: - O dinheiro do senhor doutor Rodrigo Dantas aqui no vale nada! Mesmo assim, o 
advogado deixou escondida sob a xcara uma nota que daria para pagar vinte bules de caf. Virou-se para PennaMonteiro e segredou: - O nome do acadmico  Lauriano 
Lamaison. Gilberto espantou-se. Lamaison era temido pelos homens mais influentes do norte ao sul do pas. Afirmava-se que o sexagenrio solteiro, dono de uma cadeia 
de jornais e revistas de escndalo, possua arquivos com histrias escabrosas sobre quase todos os figures da Repblica. Suas empresas enquadravamse na categoria 
de "imprensa amarela", expresso inventada para designar o The New York Journal, de William Randolph Hearst. Quando Hearst roubou do The World, de Joseph Pulitzer, 
o autor do personagem de histria em quadrinhos The Yellow Kid, criou-se o conceito de Yellozu,%urnalism, 'jornalismo Amarelo", aplicado a todos os peridicos do 
gnero sensacionalista. Lamaison adorava as tiras desenhadas e publicava diversas em seus jornais. Achava que lhe davam sorte. Os inimigos diziam que os quadrinhos 
eram a nica leitura do magnata. A socapa, chamavamno de Baro Amarelo. Gilberto no entendia como Varejeira pudera chantagear um homem to poderoso. -  um mistrio 
para mim tambm - declarou Rodrigo, como se adivinhasse as reflexes do mdico. E, puxando-o em direo  sada, fez suas suposies: - Mas ele era advogado do Baro, 
sem querer pode ter descoberto algo terrvel. Varejeira no tinha tica nem escrpulos, deve ter se aproveitado de alguma patifaria que

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descobriu, pra encurralar o cliente. Sei que o Lauriano pagava uma fortuna pra ele tratar dos negcios mais escusos. Penna-Monteiro no entendia como o Baro Amarelo 
conseguira entrar para a Academia Brasileira de Letras. Mesmo com o poder que seus arquivos lhe emprestavam, precisava de um pretexto, e o legista no se recordava 
de nenhuma obra escrita por Lamaison. Indagou a Dantas: - Que livros ele escreveu? - S um. As vezes, basta um pra ser aceito - ironizou o jurista. - Um romance? 
- Quem dera. Ele escreveu foi um tratado de ornitologia sobre pssaros brasileiros. O ttulo  muito original: Tratado ornitolgzco sobre a fauna alada do Brasil. 
- Ele entende de pssaros? - Se abutre for passarinho... O velhaco entende mesmo  de carnia. Gilberto lembrou-se imediatamente do bilhete com o nome Brs Duarte 
e a ave, e perguntou ao jurista se conhecia algum com aquele nome. - Brs Duarte? No. Nunca ouvi falar. Qual  a ligao desse homem com o caso? - E o que gostaramos 
de saber - disse PennaMonteiro. Rodrigo Dantas ajustou o pinte-nez e voltou em passos rpidos para o casaro do Tribunal do Jri. - Agora, se me d licena, tenho 
que cuidar do caso de um padeiro anarquista que est sendo perseguido sem motivo. Virou-se, antes de desaparecer pelos portes. - E no esquea: cautela! "Ipsa scientia 
potestas est." - E traduziu para o legista, adaptando a frase que se tornaria lugar-comum: "Informao  poder!".

PELO TELEFONE Enquanto Penna-Monteiro passara o dia descobrindo subsdios sobre Aloysio Varejeira, Machado Machado ficara na chefatura cumprindo a parte que detestava 
da sua profisso: preencher laudas formalizando os trabalhos, datilografando na velha Underwood,  qual faltava o W. A alegao para que no se comprasse uma nova 
mquina de escrever era que, em portugus, quase no se usava a letra ausente. O Coruja odiava aquela burocracia. Quanto mais ele
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castigava o teclado com dois dedos, mais se dava conta do pouco progresso da investigao. Omitiu o bilhete com o nome formado por letras recortadas e enfeitado 
com o passarinho, por medo de que o chefe de polcia o revelasse  imprensa. Floresta no perderia a oportunidade de aparecer novamente nos jornais. Entardecia, 
e a lata de cera Parquetina que servia de cinzeiro ao comissrio j estava cheia at a borda de tocos de cigarro. Quando ele se levantou para esvazi-la, o telefone 
tocou. Machado despejou os tocos no lixo e atendeu: - Al? - Machadinho? - Ento, Gilberto? Valeu a pena ir ao Tribunal? - Valeu, e muito, Machadinho... Mais do 
que eu esperava. Voc nem imagina o que descobri. - Vai contar ou no vai? At parece Os mistrios de Nova York disse, referindo-se ao filme que havia feito um sucesso 
tremendo alguns anos antes. - Dou uma bala se voc adivinhar como foi que o Varejeira entrou pra Academia. - Dou outra se voc no contar logo. S que outro tipo 
de bala retrucou, agastado, o comissrio. O mdico riu da impacincia do amigo. - Sabia que o Aloysio Bafo de Drago foi candidato nico? Machado estava aflito demais 
para achar graa em apelidos. - Candidato nico? No sabia que ele tinha esse prestgio todo. - E no tem mesmo. Conseguiu a proeza porque foi lanado... adivinha 
por quem? - Quer me enlouquecer? Fala de uma vez! - Pelo temido Lauriano Lamaison. - O Baro Amarelo? - Ele mesmo. De quem Aloysio era advogado pra certas transaes 
duvidosas. Parece que o falecido sabia de um segredo inconfessvel a respeito do Lauriano e prometeu silncio em troca da eleio garantida. O Coruja teve que se 
divertir com a ironia. - Quer dizer que o chantageador virou chantageado? - Pois , foi pago na mesma moeda. - O que ser que o Varejeira conhecia de to escandaloso 
da vida do Baro? - Pouca coisa no era. Machado Machado continuou: - Isso coloca Lauriano Lamaison como suspeito.
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- Pode ser, mas, conhecendo a reputao do Aloysio Varejeira, duvido que ele no tenha tomado precaues. Sabia muito bem que desafiar o Lauriano era correr risco 
de vida. Sbito, o comissrio lembrou-se de um boato antigo, logo abafado, que correra pela cidade. - No andaram dizendo que era comum ver o Rolls-Royce prateado 
da Manuela Pontes-Craveiro estacionado nos jardins da casa de campo do Lamaison, em Petrpolis? - A mulher do embaixador? Aquela mulher maravilhosa? - No se esquea 
do poder do Lauriano. O poder  sedutor. Quer um exemplo? Voc e eu temos a mesma idade, no entanto eu fascino muito mais as mulheres... Penna-Monteiro gargalhou 
do outro lado da linha. - Talvez, mas sou muito mais bem conservado. - Pudera, lidando o dia inteiro com formol... respondeu Machado. E logo voltou a falar srio: 
- De toda forma,  uma pista a seguir. Os jornais do Lamaison abafariam qualquer boato, mas o Varejeira podia conhecer algum detalhe srdido desse romance inslito. 
Seria um escndalo. - A manso dele, em Petrpolis, fica perto da casa dos meus pais. Vou falar com nosso caseiro, o seu Arlindo. Trabalha pra gente h trinta anos. 
 capaz de ter ouvido essa histria. No custa averiguar. Voc sabe que em cidade pequena todos os caseiros se conhecem prontificou-se o mdico. - Boa idia. Amanh, 
vou ao hotel Copacabana Palace, mas depois mergulho aqui, nos arquivos, pra ver se no aparece alguma outra coisa. Penna-Monteiro acrescentou: - Ah, antes que eu 
me esquea: voc conhece a "obra" que levou Lauriano Lamaison  Academia? - Ele tem livro publicado? Que livro? - Um tratado sobre os pssaros do Brasil. Que tal? 
Um canalha daqueles escrevendo um livro buclico... - Nunca se sabe. "O vcio  muitas vezes o estrume da virtude" lanou Machado, citando Machado. Ao desligar o 
telefone, veio-lhe  mente o passarinho equilibrado nas letras recortadas do nome Brs Duarte no bilhete. Ia ser obrigado a consultar o livro de Lamaison. Anoitecera. 
O Coruja pegou a palheta no cabide, vestiu o eterno palet amassado do terno de cambraia e partiu para a rua da Assemblia. Como sempre antes de ir para casa, passou 
no Brao de Ferro e tomou uma caneca de chope.
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Nem atentou para a figura alta e sombria, vestindo um longo sobretudo, que o seguia pela calada oposta. MADRUGADA DE QUARTA-FEIRA, 16 DE ABRIL DE 1924 TABULA SMARAGDINA 
O diagrama que representa a Tbua de Esmeralda, de Hermes Trismegisto, j conhecida dos srios no sculo x, estava incrustado na pesada porta de madeira da gua-furtada 
no velho casaro isolado da rua dos Invlidos. Dentro do crculo, viam-se as palavras: VISITA INTERIORA TERRAS RECTIFICANDO INVENIES OCCULTUM LAPIDEM. "Visita o 
interior da Terra e, purificando-te, encontrars a pedra oculta." As primeiras letras da frase em latim formavam o acrstico vitriol, frmula celebrada pelos alquimistas. 
Era ali, escondido de olhares curiosos, que o Envenenador preparava seus filtros de amor  morte. Depois de seguir Machado Machado at o bar na rua da Assemblia, 
voltara para o refgio no ltimo andar da casa, onde instalara o laboratrio. Enquanto triturava sementes de frutos irreconhecveis e pequenas amndoas roxas num 
grande almofariz de pedra, ele inclinava e levantava o corpo, murmurando obsessivamente um cantocho ininteligvel. O Envenenador, ou Veneficor, como preferia assinar 
suas anotaes, era um dos ltimos remanescentes da Veneficorum Secta, a seita dos envenenadores, fundada pelo monge guerreiro Isidoro de Carcassonne, egresso dos 
Cavaleiros da Ordem dos Templrios por prticas de magia negra, em 1311, antes da injusta extino da Ordem e antes que o ltimo gro-mestre dos Cavaleiros, Jacques 
de Molay, fosse queimado vivo - o que aconteceu trs anos depois - por ordem do rei Filipe w, o Belo. Isidoro conhecia profundamente os mistrios da alquimia, e 
seria mestre na transmutao dos metais. A Veneficorum Secta detinha as mais poderosas receitas de envenenamento, e relatos sobre a existncia dela foram registrados 
nos tratados de ocultismo at 1560, quando quase cessou a cronologia secreta de suas atividades. Contudo, h fortes indcios de que Catherine Deshayes, conhecida 
como L Voisin, uma das mais clebres envenenadoras do sculo xvn, que foi condenada  morte por suprir com suas poes vrias damas da corte do rei Lus xm, era 
sacerdotisa da Veneficorum Secta. Na mesma poca, participavam das cerimnias da Secta o dr. D'Aquin, mdico do Roi Soleil, e L Forest, cozinheira suspeita de ter
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envenenado Molire com peonha do Bufo marinus, variedade de sapo venenoso trazida da Flrida por um frade espanhol. A narrativa consta das anotaes precisas do 
mago alemo Reuben von Zecken. Em 1788, mais de cem anos depois, os mdicos de Jorge m, da Inglaterra, atriburam a primeira crise de loucura do rei a um txico 
revigorante administrado s escondidas pelo barbeiro dele, Edgard Manfield, oitavo conde de Manchester. O conde escafede-se, mas em buscas levadas a efeito em seus 
domnios na provncia descobrem-se frascos com substncias desconhecidas que exalam um odor acre, quase insuportvel. Um desses lquidos  adicionado  rao de 
um mastim napolitano, e o canzarro morre instantaneamente. Num espao escamotevel na biblioteca do conde, encontram-se vestes cerimoniais que, segundo a ocultista 
russa Tatiana Grotenski, pertenciam  Secta. Durante todo o sculo xlx, desaparece qualquer meno  Veneficorum Secta. O cardeal Puzzolli, prcer do Ufficio di 
Metafisica do Vaticano nos idos de 1898, declara que, realizada escrupulosa devassa, pode afirmar que essa seita no passa de uma lenda medivica, to fantasiosa 
quanto a do Santo Graal. O mito teria sido perpetuado atravs dos tempos por hereges mal-intencionados. No entanto, em 1920, na Frana, quatro anos antes dos assassinatos 
dos imortais no Brasil, acontecimentos escabrosos parecem desmentir as revelaes dogmticas do cardeal. Os crimes hediondos de um homenzinho calvo, magro e de barbas 
longas escandalizam o mundo civilizado. Henri Dsir Landru, um escriturrio de aparncia insignificante,  culpado pelo envenenamento de dez mulheres e um menino. 
Landru fica conhecido como o Barba Azul. O processo leva dois anos, e personalidades como a escritora Colette, o prncipe herdeiro da Prsia e a princesa de Mnaco 
assistem ao julgamento. Outro que comparece s audincias  um obscuro cozinheiro e pasteleiro vietnamita chamado Ho Chi Minh. Ho Chi Minh  freqentador assduo 
do Grand Guignol, o famoso teatro de terror de Paris, em Montmartre, e considera que os crimes de Landru comprovam sua teoria de que os horrores reais do mundo capitalista 
superam a fico. Tamanha  a popularidade do assassino que, nas eleies, quatro mil eleitores preenchem as cdulas com o nome dele. Os corpos das vtimas jamais 
foram encontrados, e Landru leva seu segredo para a guilhotina. Antes, porm, da lmina cair e decepar-lhe a cabea, o frio multicida sussurra no ouvido do carrasco 
Fernand Moreaux: "Impia sub dulci melle venena latem". A frase, incompreensvel para o verdugo, era a senha cabalstica pela qual os seguidores da Secta
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se identificavam. Significa "Sob o doce mel escondemse venenos terrveis". "Impia sub dulci melle venena latem, mpia sub dulci melle venena latem, mpia sub dulci 
melle venena latem...": era essa a cantilena sinistra que Veneficor, o ltimo membro da Secta em atividade no continente, ressoava como uma ladainha. O vasto gabinete, 
meticulosamente montado no sto, faria inveja ao envenenador Mester da Secta, o hngaro Ferenc Csabay, que, em 1480, matou ou tornou invlidas mais de duzentas 
e trinta pessoas. Uma estante alta sobre a bancada de trabalho exibia vasos retorcidos de formatos excntricos, designados por nomes exticos como "alguidar gmeo", 
"ovo filosofal", "ovo dentro do ovo", "pelicano duplo", "alambique cego", "alambique duplo", "vasilha nfera" e "campana cucrbita". Perto da mesa, havia um grande 
caldeiro onde desembocavam duas serpentinas, as quais se ligavam a um funil inverso cuja borda mais larga cobria um forno de ferro e tijolos. O conjunto assemelhava-se 
a um antigo aparato de destilao. Em destaque, no centro do recinto sombrio, um atril cercado de velas pretas sustentava um grosso volume que continha as escrituras 
profanas da bblia negra dos envenenadores: a Malignum opus. Um aparador revelava as pginas de revistas que o Envenenador recortara para confeccionar a mensagem 
cifrada. Ele se aproximou do forno e despejou a mistura pulverizada pelo pilo no tonel do destillator, onde borbulhava um lquido acinzentado de vapores ftidos. 
Satisfeito com o resultado, Veneficor afastou-se do alambique, emitindo uma gargalhada tenebrosa e proferindo um grito desvairado: - Lascive facturo, Brs Duarte! 
Houve outra logo depois! DA PROLA NA ORLA AO RUBI NO UMBIGO O Copacabana Palace seria inaugurado durante as comemoraes do Centenrio da Independncia, mas as 
obras s permitiram que o hotel fosse aberto ao pblico em setembro de 1923. O atraso no abalou o nimo de Octavio Guinle, idealizador do empreendimento. Uma obra 
daquela envergadura no dependia de efemrides. Guinle brincava com os amigos, dizendo que o segundo centenrio ele comemoraria da janela do seu quarto, na sute 
B, onde fixara residncia. A imponente construo em estilo neoclssico, a exemplo

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dos grandes hotis dos balnerios franceses, transformara-se na prola sem jaa engastada na orla da praia de Copacabana. Um cdigo de dezoito itens demonstrava 
o zelo do empresrio por seus hspedes. Vale destacar cinco desses mandamentos: No medir as atenes que dispensar a cada um pelas fortunas que aparentarem possuir. 
No contradizer os clientes, atendendo-lhes sempre com amabilidade em suas reclamaes. Qualquer que seja a importncia das gratificaes recebidas, julgarse bem 
recompensado e agradec-las de maneira respeitosa. No demonstrar conhecimento das excentricidades dos clientes, que devero passar despercebidas, sem manifestaes 
de gestos, atos e palavras. Evitar surpreender qualquer conversao ou procurar conhecer detalhes da vida particular de um cliente. O comissrio Machado Machado, 
estudioso infatigvel da natureza humana, confiava na tendncia de alguns empregados de hotel  indiscrio, para que as duas ltimas clusulas no fossem respeitadas. 
Principalmente porque conhecia um dos boys do Copacabana Palace, o Fabinho, desde quando o rapaz trabalhara no Grande Hotel, no largo da Lapa, l onde se hospedara 
o mortalssimo imortal Belurio Bezerra antes de mudar-se para o Copa. Como outros senadores, Belurio morara por vrios anos no luxuoso hotel, que ficava prximo 
ao palcio Monroe, onde funcionava o Senado Federal. Fabinho era o tpico facttum sonhado por todos os conciergesde hotel. Suas relaes eclticas iam dos polticos 
do Congresso aos banqueiros de bicho, passando pelas cafetinas mais importantes da capital da Repblica. Conhecia os pontos de jogo da cidade, dava-se com delegados, 
marginais, artistas, donos de dancings e alcoviteiros. Desmontava um motor de automvel com a mesma facilidade com que trocava uma lmpada. Prncipe na arte da pechincha, 
sabia quais farmcias vendiam a melhor cocana Merck ou Park-Davis sem receita e que sorveteria preparava o melhor sorvete de manga. Certa vez, a fim de entrar como 
penetra num baile de rveillon, reformou sozinho, com agulha, linha e uma tesourinha de unhas, um smoking velho que ganhara de um hspede bem mais alto e mais forte. 
Alm das timas gratificaes que obtinha graas  sua simpatia natural, usava de estratagemas questionveis para aprimorar seus rendimentos. Havia um gordo senador 
de Alagoas que, diariamente, mandava Fabinho comprar um quilo de marrons glacs na Sucre D'or, uma confeitaria carssima na rua Visconde de Piraj. A
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guloseima custava uma fortuna. O boy comprava apenas oitocentos gramas e embolsava a diferena. A artimanha s foi descoberta porque, um dia, o senador, desconfiado, 
pesou o saco com os marrons e viu que faltavam duzentos gramas. Interpelado, Fabinho respondeu sem vacilar: "U! No tem um quilo? Como esse pessoal da Sucre D'or 
 ladro, no, doutor?...". Servia-se, amide, de artifcios pouco ortodoxos ao realizar tarefas consideradas impossveis. Fabinho foi, em verdade, o criador do 
"jeitinho". Para o comissrio, a mais valiosa qualidade daquele rapaz era o talento com que armazenava na memria informaes que colhia ouvindo, sem se fazer notar, 
tudo o que diziam. Mido, de voz fina e de culos, parecia uma criana inocente, a no ser fora do hotel, quando fumava seus amados charutos Corona, da Suerdick. 
O aspecto inofensivo tornava-o invisvel para os hspedes, que conversavam, sem pudores, sobre qualquer assunto na presena dele. Fabinho era a conexo perfeita 
entre os dois hotis e o Senado. O policial lamentava que ele no fizesse biscates na Academia. Machado Machado, com um pacote quadrado sob o brao, entrou no saguo 
do Copacabana Palace s sete e meia da noite e avistou seu mensageiro predileto passando um mao de dinheiro a uma senhora de idade que acabava de chegar. Ela separou 
algumas notas e as colocou na mo de Fabinho, que agradeceu, educado, guardando elegantemente a gratificao no bolso sem verificar a quantia. Acompanhou a dama 
at o elevador, despedindo-se com um sorriso cativante. Quando se virou, deparou com o comissrio, que o observava dando uma longa tragada no seu cigarro. - Excelncia, 
mas que prazer! - cumprimentou. Era esse o tratamento que dispensava ao detetive. E uma honra encontrar aqui, no meu novo local de trabalho, a mente dedutiva mais 
afiada da polcia provocou, com ironia. O Coruja resolveu entrar na brincadeira: - Minha mente dedutiva est mais afiada do que nunca. Quer ver? Aquela hspede teve 
que sair e pediu que voc fosse ao banco trocar um cheque. Quando ela voltou, voc entregou o dinheiro, e ela, muito generosa, lhe deu uma bela gorjeta. - Errou, 
Excelncia. No  gorjeta,  comisso. A veneranda adora jogar no bicho, e hoje acertou no milhar. Ela sonhou com uma vaca deitada no sof da sala dizendo: "Mil 
e quinhentos... mil e quinhentos...", e o milhar deu na cabea. Como de hbito, o comissrio riu das histrias do mensageiro.

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Fabinho puxou Machado para um canto do saguo, longe das vistas do Karl, o alemo chefe dos concierges. - Posso ser til, Excelncia? - Como sempre, Fabinho. Sabe 
que estou investigando a morte dos acadmicos? - Sei. Os Crimes do Penacho. Como o policial previra, o nome criado por Bodoque, no Lamas, havia sido usado pelos 
jornais. - Exatamente. Agradeo tudo o que voc puder me contar sobre o Belizrio Bezerra. -Ah, Excelncia... uma perda muito sentida no hotel. Como diz a mxima 
hoteleira inventada aqui pelo seu criado, "quem melhor nos gratifica, por menor tempo fica". - Ele era bom de gorjeta? - Melhor impossvel. O Karl, do concierge, 
s chamava o doutor Bezerra de Maraj Belurio. Gastador generoso. No cassino, ganhando ou perdendo, deixava uma ficha das grandes pros crupis. - Notou se ele andava 
preocupado? - No diria preocupado, mas volta e meia perguntava na portaria por uma pessoa que ia chegar de Pernambuco. Machado concluiu que se tratava do guarda-costas. 
Depois indagou, baixando a voz: - Mulherengo? - E como! Casanova perto dele era broxa. Sabe a Pontes-Craveiro? perguntou Fabinho, referindose  mulher do embaixador 
Caio Pontes-Craveiro. O casal tambm morava no Copacabana. Pontes-Craveiro, milionrio de famlia tradicional, conhecera a esposa nos famosos saraus de Laurinda 
Santos Lobo, que reunia artistas, intelectuais e a elite do Rio de janeiro na sua manso de Santa Tereza. O embaixador era quarenta anos mais velho do que Manuela, 
que, segundo as ms-lnguas, seria "da p virada". - A Pontes-Craveiro foi amante do Bezerra? - Uma das muitas. Ele lhe deu de presente um rubi que ela usa preso 
no umbigo. - Como  que voc sabe disso? - A camareira do terceiro andar me contou. - E o marido? - Manso. Ela inventou que achou a pedra no cho, quando passeava 
pelo Jardim Botnico... - Mesmo os mais mansos tm seu dia de revolta. Que eu saiba, o embaixador est com setenta anos mas  de um gnio terrvel.

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- Pode ser, Excelncia, mas o embaixador vivia paparicando o senador depois que ele foi eleito imortal. Parece que pretende entrar pra Academia. - O embaixador Pontes-Craveiro 
quer entrar pra Academia? - Quer sim, Excelncia, e a vaidade amansa o mais bravio dos cornos... - filosofou o mensageiro. Machado ponderou a informao, enquanto 
Fabinho deitava o olhar malicioso no jovem detetive. -J imaginou, Excelncia, aquela mulher linda, nua, s com um rubi no umbigo? - Prefiro nem imaginar. O Coruja 
recordou-se do boato que envolvia Lauriano Lamaison, homem vigoroso e relativamente jovem aos sessenta e dois anos, e a embaixatriz. Depois calculou a mdia etria 
do resto dos membros da Ilustre Companhia. - Ser que ela chegou a cativar tambm os outros acadmicos? - Claro que no, Excelncia. Os velhinhos no tm flego 
pra digerir aquele pitu - respondeu Fabinho, verbalizando o pensamento do comissrio. Mas o embaixador sabe agradar os provectos. Cansei de levar presentes carssimos 
l no Petit Trianon. - Pra quem? - Pra todos. O que mais me impressionou foi uma cigarreira de ouro que ele deu pro doutor Aloysio Varejeira dias antes dele ser 
assassinado. - Como  que voc sabe que era uma cigarreira de ouro? - Eu sempre finjo que o embrulho rasgou no bonde pra ver o que tem dentro... O detetive lembrou-se 
da mensagem misteriosa que haviam enfiado por baixo da sua porta. - S mais uma coisa: j ouviu falar num tal de Brs Duarte? Tem algum hspede com esse nome? - 
Brs Duarte? No, Excelncia. E um nome desses eu nunca esqueceria. - Por qu? - Porque meu av por parte de me ainda vive, e nasceu no bairro do Brs, em So Paulo. 
Machado Machado no estava interessado na genealogia do mensageiro. Agradeceu as informaes, passando para o rapaz a caixa de charutos Corona da Suerdick que trazia 
embaixo do brao. - Que  isso, Excelncia! No carece - disse Fabinho. E, fazendo uma mesura exagerada, segredou: - Acho que o Max Muchenot, um francs gabola que 
 crupi-chefe no cassino, pode lhe dar mais
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informaes interessantes sobre o doutor Bezerra. Uma noite, quando estava indo pra casa, vi os dois conversando dentro do carro do senador. De longe, parecia que 
estavam discutindo. Chamou minha ateno, porque eu pensei que, se o doutor Guinle visse aquilo, na hora botava o malandro na rua. O comissrio despediu-se e seguiu 
para o cassino. As histrias do esperto mensageiro eram sempre instigantes. A imagem de Manuela Pontes-Craveiro, nua, com um rubi cravado no umbigo, no lhe saa 
da cabea. FAITES VOS JEUX! O cassino do Copacabana Palace abrira suas portas em janeiro, com um espetacular baile de gala. No pde funcionar antes, j na inaugurao 
do hotel, porque a lei s permitia jogos de azar nas estaes balnerias. O caso foi amplamente discutido nos jornais, pois havia provas de que, na fase de construo, 
as autoridades assumiram com os investidores o compromisso de liberar seu funcionamento. Octavio Guinle contratou o advogado Herclito Sobral Pinto, moo incorruptvel 
e catlico devoto, para defender a causa. Herclito comprovou, indignado, que o governo no honrara a palavra, e seu parecer a favor da abertura tornou lcito o 
jogo, fazendo girar a volvel roda preta e vermelha da roleta. Sobral Pinto cobrou cinco mil contos de ris de honorrios, quantia irrisria se comparada aos lucros 
do cassino logo na primeira noite. Bem no fundo do salo de jogos, iluminado por imensos lustres de cristal da Bomia, reinava Maximilien Casimire Felisbert Anglois 
de Muchenot, que, alm de ser o chefe, distinguia-se dos outros crupis pela elegncia. Parecia mais um habitu do que um funcionrio, com o smokingbem cortado valorizando 
seu corpo atltico. Rosto talhado  faca, impecavelmente escanhoado, e cabelos louros completando o porte apolneo, l estava ele, prncipe incontestvel dos domnios 
da roleta. - Faites vos jeux, mesdames et messieurs, faites vos jeux! Senhoras e senhores, faam o jogo! Muitas vezes, de madrugada, quando os jogos se encerravam, 
sentava-se  comprida mesa da cozinha para jantar com os garons e os crupis e, aps quatro doses de Calvados, costumava bazofiar, asseverando que seu ancestral 
Anglois de Muchenot era nobre e participara da Primeira Cruzada com Godefroi de Bouillon, duque da Basse-Lorraine. Gabava-se de que, mais tarde, durante a Guerra 
dos
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Cem Anos, outro antepassado, Aubert de Muchenot, lutara ao lado de Joana d'Arc como lugar-tenente de Gilles de Rais. Passava, ento, a narrar a histria do abominvel 
Gilles, baro de Rais, que, terminada a guerra, praticava rituais de magia negra no castelo dele na Bretanha, tendo eventrado mais de oitocentas crianas para masturbar-se 
sobre suas entranhas. E Max terminava sempre da mesma forma, contando como 0 av, baronete de Vauvray, suicidarase depois de perder a fortuna da famlia jogando 
bacar em Monte Carlo. Os ouvintes fingiam acreditar, entediados pela repetio montona do falatrio. Max s no esclarecia por que chegara ao Brasil a bordo do 
Massilia como camareiro da primeira classe, onde oferecia prstimos galantes a mulheres ricas e solitrias, mediante disfaradas gratificaes. - Faites vos jeux, 
mesdames et messieurs! Senhoras e senhores, faam o jogo! - repetia Maximilien, com sotaque glamouroso, prestes a lanar na roleta a pequena esfera de marfim. Uma 
senhora grvida de oito ou nove meses inclinou-se sobre o pano verde e efetuou sua aposta. O crupi ao lado de Max sorriu e brincou, demonstrando que a jogadora 
era uma cliente habitual: - Esse menino ainda vai nascer no 27, dona Mercedes... Machado Machado aproximou-se de Maximilien e identificou-se, puxando do bolso a 
carteira que raramente mostrava: - Eu queria lhe fazer algumas perguntas. Muchenot passou o rodo de recolher fichas s mos de um colega e levou o comissrio para 
a saleta onde os funcionrios descansavam durante o rodzio. Apontou uma cadeira para ele e sentou-se a cavalo em outra, ficando frente a frente com o policial. 
Puxou um grosso cigarro de fumo negro do mao de Gauloises, acendeu um e ofereceu a Machado: - Fuma? - Obrigado, prefiro dos meus - agradeceu o comissrio, acendendo 
um Cairo. - Ento, commissaire? Acha que sou o assassino dos escritores? lanou Max, irnico, com uma baforada pesada. - Parece que todo o Rio de janeiro sabe o 
que eu estou investigando. - C' est normal. Saiu nas primeiras pginas dos jornais. O senhor est to famoso quanto Fantmas - continuou Muchenot, no mesmo tom, 
referindose a um notrio anti-heri dos folhetins franceses de mistrio. O detetive achou que era hora de interromper as trivialidades e retrucou, rspido:
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- Voc foi visto discutindo com Belurio Bezerra no carro dele. A afirmao pegou Maximilien de surpresa. - Quem lhe disse isso? O comissrio no se deu o trabalho 
de responder, e prosseguiu: - Qual era a discusso? - Commissaire, quando dois homens de diferentes classes sociais discutem  noite, escondidos dentro de um carro, 
e um deles  francs, cherchez la femme... - Est me dizendo que brigavam por uma mulher? - perguntou, desconfiado, o comissrio. - Brigar  um pouco forte. Inclusive 
porque o senador Belurio Bezerra era um dos homens mais influentes do pas e hspede do hotel. Eu sou um humilde empregado. S pedi, com educao, que o senador 
se afastasse da mulher que eu amo. Ele riu na minha cara! Na hora, fiquei... no sei como se diz em portugus, dboussol. Machado inventou a traduo: - Desbussolado? 
Sei, sem bssola, perdeu o norte, ou seja, desnorteado. - Exactement. Fiquei desnorteado. Claro que no chorei pela morte dele. - No sabia que os franceses podiam 
ser to ciumentos. Quem  ela? - Uma moa da minha terra que eu conheci no cassino de Deauville e que reencontrei aqui, por acaso. Agora ela me despreza - explicou 
Max, o olhar transfigurado, ao lembrar-se da mulher. O policial percebeu um misto de dio e tristeza na expresso do crupi. Repetiu a pergunta: - Quem  ela? - 
Uma atriz. - Maximilien deu um sorriso amargo. - Quando eu digo atriz, estou sendo gentil. No passa de uma demi-mondaine, commissaire. O senhor provavelmente a 
conhece de nome: Monique Margot. Machado, que estava no meio de uma tragada, quase engasgou, e pigarreou, disfarando. No convinha que o francs ciumento soubesse 
que ele conhecera Monique no sentido bblico. - Voc e Belizrio nunca se encontraram fora do hotel? - Claro que sim. As vezes, na quinta-feira, no ch da Academia 
Brasileira de Letras. Dessa vez, Machado engasgou de verdade. - Na Academia? O que  que voc vai fazer na Academia? - O senhor no sabe? Pensei que estivesse me 
procurando por isso. Na minha folga aqui no hotel, s quintas-feiras, eu trabalhava no Petit Trianon. Eles adoravam ter um legtimo majordome parisiense
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servindo o ch. Quando me viam, ficavam ali, sonhando que estavam na Acadmie Franaise, ao lado de Clemenceau e Anatole France... debochou o crupi. - Voc disse 
que trabalhava no Petit Trianon. No trabalha mais? - Infelizmente no, monsieur le commissaire. Fez uma pausa, e hesitou antes de continuar: - Vou parecer suspeito, 
mas  melhor dizer tudo, porque o senhor vai acabar descobrindo. Fui despedido por causa do Aloysio Varejeira. Aquele canaille! O nome da segunda vtima aguou os 
sentidos do detetive. - O que aconteceu? - Ele me acusou de ter roubado sua cigarreira de ouro. Fui posto na rua na mesma hora! O Coruja lembrou-se do rgio presente 
oferecido pelo embaixador. - Uma injustia dessas me deixaria com vontade de matar. - Que injustia? Eu roubei mesmo. - Roubou? - Claro! Um homem to avarento no 
podia apreciar uma obra de arte como aquela. Mas devolvi. Acredita que, mesmo assim, me mandaram embora? O nico que me defendeu foi Euzbio Fernandes. Disse que 
todos merecem uma segunda oportunidade. No adiantou nada. Apesar das circunstncias, no havia provas maiores da participao de Maximilien nos assassinatos. Machado 
ficaria atento s atividades dele, mas, naquele momento, deu por encerrada a entrevista. - Obrigado pelo seu tempo. S lhe peo que no se afaste do Rio, porque 
 provvel que voltemos a conversar. - Com prazer, commissaire, mas pode ter certeza de que no tenho nada a ver com esses crimes. O veneno  a arma dos covardes. 
Eu prefiro lidar com meus desafetos frente a frente, olho no olho, de espada na mo, como meus antepassados - vangloriou-se Max. - Os duelos esto proibidos desde 
o sculo xix. - Talvez, mas dois cavalheiros sempre encontram lugares escondidos onde podem lavar sua honra ao amanhecer - declarou, enigmtico, Muchenot. O comissrio 
decidiu testar a bravata do francs: - Quer dizer que voc sabe esgrimar? - Espada, sabre, florete: pode escolher, commisCansado de treinar com os mesmos adversrios, 
o policial resolveu convid-lo para um encontro na sala D'armas do mestre Ruggiero Buonaventi. O crupi entusiasmou-se:

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- timo, no sabia que o senhor era um aficionado! Agora, se me d licena, preciso voltar  roleta. Antes de desaparecer pela porta do salo, bradou: - Au revoir, 
commissaire, e at a prxima estocada! O ESTOJO DA JIA O comissrio Machado Machado tentara aprender a guiar automveis, mas no conseguira se acostumar  mudana 
de marchas. A engrenagem dos carros era uma intrincada estrovenga criada para lev-lo  loucura. Essa inaptido acabou propiciando ao detetive um encontro to imprevisto 
como auspicioso. Enquanto esperava um txi na entrada do Copacabana Palace, tendo visitado o hotel e o cassino, viu chegar uma limusine Rolls-Royce Silver Ghost. 
O motorista, um oriental fardado, saltou do carro e sinalizou discretamente ao porteiro, que, por sua vez, acenou de forma quase indistinguvel para o hall. Segundos 
depois, uma figura esguia, envolta num vestido longo de cetim verde, dirigiu-se para o carro com passadas lnguidas. Seu andar lembrava a leveza dos felinos antes 
do bote. A brisa fresca da praia agitava-lhe os cabelos negros, cacheados, e a maciez do tecido moldava as curvas de um corpo que se anunciava perfeito. Machado 
concluiu jamais ter visto mulher to esplendorosa. Era essa a impresso que causava nos homens a bela e sensual embaixatriz Manuela Pontes-Craveiro. Machado Machado, 
cuja perseverana rivalizava com a audcia, aproximou-se, afastou o motorista com o cotovelo e, antes que o oriental, surpreso, pudesse reagir, ps-se na sua frente, 
abrindo a porta traseira do automvel. Numa reverncia exagerada, usando a palheta como se fosse o chapu emplumado de um mosqueteiro curvando-se diante da rainha, 
exclamou: - Se a embaixatriz Pontes-Craveiro me permite... Os olhos cintilantes da pantera percorreram o atrevido e aprovaram seu jeito displicente. Manuela sorriu, 
divertida. - Valha-me Deus! O D'Artagnan dos trpicos! - Na verdade, madame, hoje estou aqui na condio de Fouch respondeu o detetive, referindose ao temvel chefe 
de polcia da Revoluo Francesa. - Tenho que lhe fazer umas perguntas sobre o caso que estou investigando. Sou o comissrio Machado Machado. - No precisa repetir.

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- No repeti, madame- explicou o policial, fingindo-se contrafeito. - E assim mesmo. Nome: Machado, sobrenome: Machado. Culpa do meu pai, que idolatrava Machado 
de Assis. Manuela Pontes-Craveiro riu-se da prpria gafe. Seu riso era dionisaco, devastador. - Perdo, comissrio. - Entrou no carro e sugeriu: - Vou a uma recepo 
na embaixada britnica, em Botafogo, representando meu marido. O pobrezinho est de cama, com uma crise de gota. Se quiser, pode me acompanhar at l. Nunca fui 
interrogada pela polcia, estou achando muito excitante. O Coruja entrou no suntuoso veculo, e a embaixatriz acionou uma manivela, levantando o vidro escurecido 
que isolava o compartimento de passageiros. Pegou, ento, no pequeno fone por meio do qual se podia falar com o chofer e recomendou: - Yamamoto, no temos pressa. 
Dirija bem devagar. - E virou-se para Machado, explicando: -  meu criado de confiana. Conheci no Japo, quando meu marido foi embaixador em Tquio. Ao contrrio 
do que geralmente se diz,  um excelente motorista. Manuela inclinou-se para pronunciar a ltima frase bem no ouvido do policial, deixando entrever, pelo generoso 
decote, a comissura dos seios. - Ento? Sou suspeita de algum crime pavoroso? - perguntou, provocativa. - A embaixatriz s conseguiria matar algum de paixo - respondeu 
Machado, sedutor. E acrescentou: - Ou levando ao suicdio algum pobre infeliz por um amor no correspondido. Manuela suplicou, sorrindo: - Vamos deixar a embaixatriz 
de lado, me chame de Manuela. O que  que esta humilde criatura pode fazer pela polcia? Machado tomou coragem e disse, circunspecto: - Soube da sua amizade pelo 
senador Belizrio Bezerra, morto em circunstncias trgicas. - Trgicas? Eu diria tragicmicas. - Deu uma gargalhada: - Morrer entufado naquela fantasia... Machado 
Machado queria chocar-se com o comentrio, mas a beleza daquela mulher estupenda apagou qualquer cerimnia, e ele riu com ela. Viu que no conseguiria levar adiante 
a conversa por muito tempo. - Por acaso j ouviu falar em Brs Duarte? - Brs Duarte? No. E tenho certeza de que o Gaio tambm no. Por dever profissional, o Coruja 
ainda tentou:

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- Sabe de algum motivo que pudesse levar ao assassinato do senador? Manuela aproximou-se mais, o rosto quase colado no ouvido dele, e segredou: - Sei. Um motivo 
srio. Belurio era pssimo amante. Eu adoraria saber se voc corre risco de vida pela mesma razo... Machado deu por encerrado o interrogatrio. Beijou a embaixatriz, 
sorvendo-lhe os lbios midos e macios, enquanto fazia deslizar o cetim do vestido. Manuela retribua, a lngua quente provocando-lhe o desejo, nessa altura, incontrolvel. 
No usava nada por baixo. O detetive arrancou o palet, tirou o incmodo coldre de ombro que aninhava o inseparvel Colt, deitou fora as algemas no cho do carro, 
livrouse do que restava de suas roupas, e em menos de um minuto os dois faziam amor, entrelaados sobre o extenso banco de couro. Manuela gemia de prazer, e Machado 
prolongava-lhe a lascvia, sugando, com a boca trmula de gozo, cada centmetro daquele corpo magnfico. Finalmente saciados, vestiram-se depressa e em silncio, 
pois o carro aproximava-se do seu destino. Pelo fone, a embaixatriz pediu que Yamamoto encostasse a limusine para o Coruja descer. No convinha que ele saltasse 
em frente  embaixada britnica. Manuela baixou o vidro e deu-lhe um ltimo beijo, fugaz, pela janela. Quando terminava de ajustar o vestido no corpo suado, percebeu 
que, durante o sexo selvagem, o famoso rubi, prmio sensual que lhe enaltecia o ventre, desaparecera do seu umbigo. Procurou, sem sucesso, a pedra preciosa no assoalho 
do automvel. Perguntou ao policial, enquanto o RollsRoyce prateado se afastava: - Machado, o rubi! Voc viu o rubi? No consigo achar! O comissrio Machado Machado 
gritou de volta, encabulado: - Perdo, amor. Acho que engoli. QUINTA-FEIRA, 17 DE ABRIL DE 1924 MACHADO MACHADO NA CASA DE MACHADO O comissrio pensou na emoo 
que seu pai, o modesto escrivo Rubino Machado, sentiria ao v-lo entrar na Casa de Machado de Assis. Mesmo que ali entrasse, no como imortal, mas como detetive. 
A admirao de Rubino pelo escritor beirava o fanatismo. Ao policial no incomodava que o alumbramento paterno tivesse convergido para a pia batismal. Seria eternamente 
grato ao pai por ter lhe suscitado 0 gosto pela leitura.
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Machado telefonara comunicando a visita, e foi recebido, ao chegar na hora do ch, pelo simptico escritor Leonardo Feij, por ser ele, aos sessenta anos, o benjamim 
da Academia. Alm disso, constava da sua obra uma brochura sobre o famoso Crime da Mala, ocorrido em So Paulo, em 1908, quando Miguel Traad, um imigrante rabe 
de Beirute, estrangulou e esquartejou o patro, colocando o corpo retalhado numa mala forrada de zinco, com a inteno de lan-lo ao mar. Na opinio dos colegas 
de Feij, o livro aproximava-o do comissrio. Leonardo vestiase com apuro, permitindo-se apenas contrastar o sbrio terno preto com um colete de brocado lils. Ele 
estendeu a mo, saudando o detetive: - Ora, viva! Ento, temos Sherlock Holmes no Petit Trianon! Conceda-me o privilgio de atuar como doutor Watson. - Quem dera 
o verdadeiro Sherlock tivesse contado com um Watson to talentoso. Seu trabalho sobre o Crime da Mala  um dos meus livros de cabeceira - mentiu Machado, para quem 
a obra no era desconhecida. - Bondade sua... - agradeceu o escritor, ruborizando. - E que sorte nos calhar um policial que sabe ler. - Perdo? - Digo, que gosta 
de ler... pra investigar esses crimes - Feij completou, corrigindo o deslize. Mordido pela gafe, Machado deu o troco: - Sou obrigado a confessar esse vcio medonho. 
Leio tudo o que me cai nas mos, do patrono desta Casa ao pessoal da Semana de Arte Moderna. Meu gosto  bastante ecltico: adoro Ea e Lima Barreto, Augusto dos 
Anjos e Oswald de Andrade. Tambm no perco as aventuras de Reco-Reco, Bolo e Azeitona na revista O Tico-Tico. - Nem eu, nem eu. A revistinha  tima! traiu-se 
o acadmico. -Ando empolgado com um jovem portugus chamado Fernando Pessoa. No  um poeta formidvel? Feij, que nunca ouvira aquele nome, aquiesceu e conduziu 
o comissrio pelo brao. A medida que atravessavam o saguo com piso de Garrara, ele ia apontando o lustre de cristal francs e destacando as peas raras de porcelana 
de Svres, como um guia de museu. Ao passarem pelo Salo Francs, Leonardo, o bom cicerone, explicou: - Aqui, antes da posse, o eleito fica sozinho, recolhido num 
momento de reflexo. Nessa hora ele avalia toda a sua existncia. O Coruja presumiu que para certos acadmicos aquilo teria que ser um ato de contrio.
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Quando chegaram ao salo de ch, Leonardo apresentou-o com uma tirada, no mnimo, de mau gosto: - Comissrio Machado Machado, aqui esto alguns imortais que ainda 
no morreram. Uma sensao de desconforto perpassou pelo recinto. O detetive jamais sonhara um dia encontrar igual aglomerado de notveis. Coelho Netto, Ataulfo 
de Paiva, Antnio Austregsilo, Carlos de Laet, Miguel Couto, Graa Aranha e Rodrigo Octavio cochichavam a seu respeito em tom conspiratrio, atarefados em volta 
das guloseimas. Um pouco afastado, Flix Pacheco conversava em francs com Paul Lapin, imortal da Academia Francesa em visita ao Rio. Lapin tornara-se clebre escrevendo 
sobre esoterismo, e garantia a Pacheco, que era diretor do Gabinete de Identificao, ter conhecido o conde Saint Germain pessoalmente, em Paris. Tratava-se de um 
alquimista que pertencera ao crculo ntimo do rei Lus xv, da Frana. Paul afirmava que o conde alcanara a imortalidade, no a literria mas a verdadeira, por 
meio da Pedra Filosofal. Segundo ele, Saint-Germain completaria duzentos e catorze anos em agosto. O poeta concedia-lhe ouvidos cticos. - Pois . Pena que na poca 
ainda no existisse a datiloscopia... Machado notou que o poeta pernambucano Euzbio Fernandes, protetor de Belizrio, e Lauriano Lamaison, com quem pretendia conversar, 
no estavam presentes. Pouco a pouco, apresentando desculpas distintas, os acadmicos foram deixando o salo. A visita do Coruja causava desconforto. Finalmente, 
ficaram ali apenas Machado e Leonardo Feij, bebericando 0 ch, e, na mesa ao lado, os historiadores Alfredo Olvio e Emengardo Villela, discutindo entre os petiscos. 
O policial no pde deixar de ouvir um trecho da conversa: - Ento negas o talento dele? Negas? - Pra mim, quem tinha razo era Emlio de Menezes. O Emlio dizia 
que o Medeiros era como prdio de avenida: muita frente e pouco fundo - declarou Alfredo Olvio, citando o poeta satrico. - Balela! - Balela nada! Essas estrofes 
do hino so estrambticas, chegam a ser ridculas. Por isso  que dizem que o Brasil no tem memria! quase gritou Alfredo Olvio. Pelo pouco que escutou, o comissrio 
deduziu que os grandes mestres divergiam a respeito do Hino da Proclamao da Repblica, composto por Medeiros e Albuquerque, um dos fundadores da Academia. Leonardo 
entrou no assunto sem pedir licena:
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- Vocs continuam falando da letra do hino? - Eu continuo, porque no entendo como um historiador no perceba o absurdo dos versos - teimou Alfredo Olvio, irredutvel. 
Leonardo Feij adorava se divertir com a arenga daqueles velhinhos. Ambos com oitenta e oito anos, eram os mais idosos da Ilustre Companhia, e a vitalidade que demonstravam 
levava a crer que seriam, de fato, imortais. Inseparveis, provavam que os opostos se atraem: Emengardo Villela, magro e longilneo, nariz adunco, vasta cabeleira 
aprumada sobre a testa larga; Alfredo Olvio, baixo e rolio. Pareciam a reproduo de Mutt e Jeff, uma dupla muito popular que aparecia nas tiras em quadrinhos 
dos jornais. Sem o saber, logo ganharam o apelido no Petit Trianon. Villela era o Mutt, e Olvio, o Jef Por princpio, os dois historiadores sempre tinham opinies 
discordantes. Quando Emengardo Villela lanou o livro Calabar, traidor de duas ptrias, Alfredo Olvio rebateu, um ms depois, com Calabar, o libertrio injustiado. 
Leonardo resolveu estimular a rixa entre os longevos e sugeriu, muito srio: - Vamos deixar o nosso comissrio Machado decidir quem est certo? Os vetustos concordaram, 
mais por cerimnia em relao ao visitante do que por convico. Villela falou primeiro. - Eu argumentava que os versos do Hino da Proclamao da Repblica so de 
uma beleza sublime. E destacava a altissonante estrofe do Medeiros: Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre ns! Das lutas, na tempestade D que ouamos tua voz. 
Depois da declamao entusiasmada do confrade, Alfredo Olvio revidou, irnico: - Em primeiro lugar, no estou criticando a poesia. Quem sou eu pra fazer crticas 
ao grande Medeiros e Albuquerque - sorriu -,ainda que no consiga visualizar a Liberdade dando sua voz a ouvir? Feij tossiu para esconder o riso. Olvio continuou: 
-Agora, como historiador, o que me d vontade de rir so os versos seguintes: Ns nem cremos que escravos outrora Tenha havido em to nobre pas...

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- Outrora!? Que ridculo! Como "outrora", se a Repblica foi proclamada em 1889 e a escravido s acabou um ano antes? Nunca ouvi falar que um ano antes fosse "outrora". 
Ha! Ha! "Ns nem cremos que escravos outrora tenha havido em to nobre pas"? Cremos, sim! Ah, se cremos! E como cremos! Pelo menos eu creio, porque no sou um historiador 
gag e dtraqu... - finalizou o professor, afastando-se s gargalhadas. Como se obedecesse a uma marcao teatral, Villela saiu bufando pelo lado oposto. No esperaram 
para saber o parecer do detetive. O anfitrio tranqilizou Machado, rindo: - No se preocupe. Daqui a pouco, Mutt e Jeff estaro s turras por outro motivo qualquer. 
- E verdade que, uma vez, quase chegaram s vias de fato na casa do presidente da Academia? - perguntou o comissrio. Leonardo riu, recordando o episdio: - E verdade, 
mas faz tempo. O Renan Vieira convidou os dois pro seu aniversrio. Aconteceu um esbarro entre eles, o Olvio tomou como ofensa e atirou um copo desse tal guaran 
Champagne no rosto do Villela. Foi a maior confuso. A briga vinha de longe, desde que Emengardo declarou que o Alfredo era um historiador secundrio. Olvio respondeu 
dizendo que, se ele era secundrio, o Villela era primrio. Depois, a muito custo, fizeram as pazes, mas a pendenga recomea sempre que se encontram. Feij deitou 
novamente ch nas duas xcaras. Lendo uma certa decepo nos olhos fundos do Coruja, indagou, solcito: - Ser que consigo lhe ajudar de alguma forma? - Na verdade, 
eu procurava pelo Euzbio Fernandes e por Lauriano Lamaison. - Infelizmente, nenhum dos dois passou por aqui hoje. Euzbio nem sai de casa. Anda muito abatido pela 
morte do Belizrio Bezerra. O coitado fez um esforo enorme pra conseguir eleger o amigo conterrneo, e deu no que deu. Longe de mim falar mal de um colega, mas 
ali havia convenincias que iam muito alm da literatura. O poder poltico e financeiro do Belizrio era enorme. Em Pernambuco, ento, mandava e desmandava. - Quer 
dizer que o interesse de Euzbio Fernandes nesse pleito ia alm da literatura? - Claro! O pobre do Euzbio anda  mngua. Mesmo sendo vivo, o estipndio que recebe 
como funcionrio da Light mal d pro sustento dele e da filha. O Belurio prometeu-lhe uma sinecura como representante de Pernambuco, aqui no Rio.
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- Da o empenho - concluiu Machado. - No me interprete mal. Euzbio  um homem de bem. - Sorriu, lembrando-se de um fato divertido: - Por causa dessas mortes, ele 
anda atormentado por um pesadelo. Tudo em funo do enterro. - Enterro de quem? - Dele mesmo. O Euzbio engordou muito. - No estou entendendo - disse o detetive, 
intrigado. - H alguns anos tivemos uma complicao devido  obesidade de um acadmico, o romancista Aparcio Coimbra. Lembra-se dele? - Claro que sim - respondeu 
o Coruja, que lera O mel das mariposas, uma novela enfadonha a respeito do romance de um marinheiro dinamarqus com uma ndia patax. Uma parte do livro fora escrita 
em tupi. Era a parte mais compreensvel. De to gordo, apelidaram Coimbra de Moby Dick, a Baleia Branca. Completando o visual exuberante, Moby ocultava sua calvcie 
com uma cintilante peruca cor de azeviche. Leonardo continuou: - Pois bem. Primeiro houve o imprevisto da peruca, que se recusava a permanecer no topo da cabea. 
Aparcio era vaidoso demais, no ia querer ser enterrado careca. Felizmente, o agente funerrio, muito engenhoso, nos livrou da enrascada fixando o chin no cocuruto 
com uma tachinha. Mas foi na hora de vestir-lhe o fardo que surgiu mesmo a dificuldade. Coimbra tinha engordado trinta quilos nos ltimos dois anos. Nem o empenho 
de quatro papadefuntos conseguiu resolver o impasse. Machado partiu para a soluo simplista: - Enterraram ele de terno? - No. Algum teve a brilhante idia de 
chamar o nosso inventivo alfaiate Camilo Rapozo, que acabou com o problema num instante. Ele usou a tesoura com o talento de sempre: abriu de cima a baixo a parte 
de trs da roupa. A, foi s vestir a frente e enfiar o resto por baixo do corpo, como se faz com o lenol num colcho. Foi fantstico! Nunca vi um fardo to bem 
esticado. Se pudesse ter se visto, o Moby descansaria orgulhoso. Ficou nos trinques. O policial riu, visualizando a cena. - E Euzbio Fernandes tem medo de que lhe 
acontea a mesma coisa. - Ns brincamos muito por causa disso. Leonardo mudou de tom: Euzbio  uma unanimidade na Academia. Todos gostam dele, como poeta e como 
pessoa. A verdade  que, apesar do prestgio e poder poltico do Bezerra, se no fosse a cabala do Euzbio, ele no se elegeria. Provavelmente ainda estaria vivo 
- completou.
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- O senhor est sugerindo que o assassinato tem a ver com a Academia? - Eu no estou sugerindo nada, comissrio. Estou pensando em voz alta. - E quanto ao Lauriano 
Lamaison? - Est em So Paulo, cuidando de negcios, sabe-se l de que tipo de negcios. Viajou logo depois dos enterros, mas volta pra recepo que vai haver no 
Hotel das Paineiras. - Recepo? - Ento no sabe?  a festa de lanamento do concurso de projetos pra construo do monumento ao Cristo Redentor que vo erigir 
no Corcovado. Uma tarefa herclea. Os pessimistas dizem que  impossvel. - Fez uma pausa e comentou, sardnico: - O Lauriano foi convidado pra discursar, na ocasio, 
sobre as aves que l gorjeiam... Espero que tenha contratado algum que entenda do assunto pra escrever o discurso. - Pensei que ele fosse especialista. No foi 
com um livro sobre pssaros que entrou pra Academia? Machado e Feij achavam-se sozinhos no salo. Mesmo assim, o escritor baixou a voz, temendo os ouvidos das paredes: 
-  a verso oficial, mas o que se comenta nos bastidores  que o autor de Tratado ornitolgzco sobre a fauna alada do Brasil  um escritor de aluguel. Dizem que 
o Lamaison no consegue distinguir um pardal de um cuco de relgio. - Falando em pssaros, o senhor tem idia do que isto significa? - O detetive mostrou-lhe o bilhete 
cifrado. - No fao a menor idia. No sei que passarinho  esse, e nunca ouvi falar em Brs Duarte - declarou, intrigado, o acadmico. O Coruja guardou a mensagem 
no bolso e acendeu um cigarro, o que levou Leonardo Feij a exibir seu belo cachimbo Dunhill. Enquanto socava o fumo no fornilho, avisou discretamente: - Se  por 
causa do pssaro que est interessado no Lamaison, garanto que  tempo perdido. - No  por isso.  que descobri que, sem ele, o doutor Aloysio Varejeira no estaria 
na Academia. Muito menos como candidato nico. - Ningum se atreveria a contrariar o Baro Amarelo. Aquele chantagista tem arquivos detalhados contendo os podres 
de todo mundo. Usa qualquer coisa: da infmia e da calnia aos pecadilhos de infncia, no colgio. - Leonardo pareceu pouco  vontade, como se
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recordasse os tempos passados no internato. - At eu, que sempre achei o Varejeira uma figura detestvel, votei nele. Aqui entre ns, confesso que foi o nico voto 
de que me envergonho. Aquele mo-devaca desprezvel no merecia entrar no Petit Trianon. Ainda bem que entrou por uma porta e saiu pela outra... - acrescentou, sem 
resistir  maldade. A sinceridade do escritor agradou ao detetive. - Quer dizer que, alm de ser ele o nico candidato, a votao foi unnime? - No, comissrio. 
Houve uma voz contrria, sim, o que deixou Lamaison exasperado. Quase no conseguia esconder sua raiva. Pior que uma absteno, teve um voto em branco. Um voto em 
branco que lavou a nossa alma. Lauriano considerou aquilo uma ofensa pessoal, mas foi obrigado a disfarar e engolir o desaforo. - Quem cometeu essa audcia de lesa-majestade 
contra o Baro? ironizou o policial. - O padre Ignacio de Villaforte. Mesmo que Lauriano saiba qualquer detalhe escuso sobre a vida do padre, ele  covarde; no 
tem coragem de investir contra a proteo da batina. Machado Machado ouvira falar do padre Ignacio. Era um homem influente, pois sua parquia reunia a nata da sociedade 
carioca. Conhecia alguns trabalhos de De Villaforte, que, alm de escrever monografias extensas sobre a arte sacra barroca do sculo xvn, dedicava-se  poesia romntica. 
Os versos eram de uma ousadia sensual e, muitas vezes, perturbadora; por certo desgostariam o clero conservador. Resguardando-se da censura cannica, ele assinava 
os sonetos com um pseudnimo que homenageava um personagem de Oscar Wilde. Essa precauo de convenincia servia apenas para evitar atritos com a Cria, que fingia 
desconhecer o lado mais voluptuoso da obra do padre, porm todos sabiam que Ignacio de Villaforte se escondia sob o nom de Alume de Dorian Gray. - O padre esteve 
aqui hoje? - Que nada. Claro que, sendo da Casa,  ele quem vai rezar a missa de trigsimo dia. Anda muito atarefado com os preparativos. - Mas faltam mais de duas 
semanas... - Bem se v que o senhor no sabe o trabalho que d uma missa solene pra despachar dois imortais. O padre Ignacio de Villaforte gosta de cuidar pessoalmente 
de todos os detalhes. - Vou fazer uma visita ao padre - resolveu o detetive. Leonardo Feij no pde deixar de rir. - Comissrio, desse jeito, visitando tantos acadmicos, 
vou comear a desconfiar que o senhor  candidato  Academia...
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ALFAIATARIA DEDAL DE OURO PROVA E PROVAO O segredo mais bem guardado do padre Ignacio de Villaforte, o oprbrio que o atormentava, a revelao que ele apenas rumorejava 
constrito, em confisso, era o capitalssimo pecado da luxria. Na alma daquele corpo alto, adelgaado, de figura asctica, travavase constante batalha entre a castidade 
e a concupiscncia. Seus sonhos, interrompidos por polues noturnas, eram povoados de scubos e ncubos, demnios mitolgicos que o subjugavam, levando Ignacio 
a orgasmos infindveis em conjunes pecaminosas. No dia seguinte, quando acordava banhado em suor, ajoelhava-se, orando em latim, e, como penitncia, fustigava 
as costas nuas com um ltego de couro cru, pedindo perdo pela culpa que no tinha. Ignacio pagava pela conseqncia irreprimvel da sua natureza. Cnscio de quo 
perigoso seria expor-se a essas tentaes, De Villaforte permanecia casto. Exorcizava os devaneios que lhe aulavam o esprito na potica rica em erotismo que assinava 
como Dorian Gray. Entretanto, vulnervel como todos s fraquezas da carne, administrava pequenos toques sutis e disfarados, com suas mos longas, a qualquer criatura 
que lhe atiasse a libido. Os dedos finos, alvos como mrmore, esquadrinhavam a pele do objeto de seu desejo, numa carcia lbrica travestida em afago inocente. 
Apesar desse zelo em mascarar a volpia que o consumia, ele era vtima de uma perverso que ocultava at das oias do seu confessor: o padre Ignacio de Villaforte 
sentia uma atrao incoercvel por anes. Esse fascnio incontrolvel transformava em tortura todas as visitas que fazia ao alfaiate Camilo Rapozo. Tortura esta 
compartilhada pelo Gnomo da Tesoura, como Ignacio gostava de cham-lo com carinho. Cada ida ao provador se transformava numa peleja de gato e rato. Padre De Villaforte 
no ataque, e Camilo esquivando-se do assdio camuflado. A favor do padre, h de se reconhecer que Camilo Rapozo era um ano de beleza excepcional. Descalo, media 
um metro e vinte e nove centmetros exatos, todavia seu corpo harmonioso, proporcional e de msculos bem torneados, primor de anatomia diminuta, j despertara paixes 
fulminantes em vrias mulheres. Os ombros largos, o crnio raspado, os olhos puxados de oriental, a pele

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morena, tpica dos meridionais, e a voz aveludada de bartono faziam lembrar o gnio da lmpada de Aladim em miniatura. Diversos eram os subterfgios que o padre 
Ignacio de Villaforte inventava para freqentar a alfaiataria - subir a bainha, descer as mangas de uma batina, afrouxar a cintura -, contudo, nessa sextafeira, 
a visita tinha um propsito inadivel. Seria a ltima prova das vestes sacerdotais que o padre usaria na missa solene dedicada a Belizrio Bezerra e Aloysio Varejeira. 
Trajando a tnica de seda branca presa  cintura pelo cngulo, a casula roxa e a estola prpura bordada minuciosamente em fios de prata, trabalho que recordava a 
laboriosidade de um ourives, o padre Ignacio de Villaforte mirava-se, altaneiro, no espelho da cabine de prova. "Modesto proco, sem dvida, mas com porte de cardeal", 
pensou, satisfeito, cometendo o pecado da soberba. - Sem falsa modstia, Vossa Reverendssima lembra Richelieu ou Mazarin - declarou Camilo Rapozo, exagerando no 
tratamento. - Achas mesmo? O colarinho no est alto demais, meu caro Gnomo da Tesoura? Como de hbito, o alfaiate fingiu ignorar o apelido que detestava. - De modo 
algum. O pescoo de Vossa Reverendssima  comprido, e o colarinho alto reala seus traos de fidalgo. - Tens razo, meu querido Camilo. Incomoda um pouco, mas ofereo 
esse pequeno sacrifcio pra me apresentar mais belo aos olhos do Senhor. Logo que o padre comeou a se desvencilhar dos paramentos para vestir a batina regular, 
Rapozo afastou-se do provador. De Villaforte interpelou-o: -Aonde vais? A cabine  muito estreita. No me ajudas a mudar de roupa? No sejas pudico; se ests com 
vergonha, eu te absolvo. Ego te absolvo... Era esse o momento temido pelo ano. Durante a troca, sob o pretexto da exigidade do espao, De Villaforte sempre conseguia 
apalpar-lhe sub-repticiamente as partes pudendas. Fazia-o com percia, de forma to dissimulada, que a menor queixa do alfaiate provocaria uma reao indignada de 
Ignacio. "Antema!", gritaria o padre, colrico. Restava a Rapozo esquivar-se da melhor maneira possvel. Terminada a prova e a provao, Camilo acompanhou, exausto, 
o padre Ignacio de Villaforte at a sada, esclarecendo: - Mando entregar amanh sem falta. Ser que Vossa Reverendssima poderia acertar o pagamento agora? Estou 
meio curto de dinheiro... revelou, sem jeito.
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- Meu amado Gnomo, nada me daria mais prazer! S que eu jamais encomendaria essas vestimentas carssimas. Tudo isso foi feito pra missa solene dos imortais. Ento 
no sabias? A conta vai pra Academia e da Academia vai pro estado. Assim dizendo, De Villaforte abriu a porta da alfaiataria. Aproveitando-se do momento de estupor 
do ano, girou nos calcanhares e estendeu a mo vida num gesto rpido. - E pra dar sorte... - desculpou-se o reverendo, dedilhando-lhe a virilha. Ao voltar, acabrunhado, 
ao centro da loja, Camilo Rapozo achou um envelope dobrado que o padre Ignacio deixara cair propositadamente do bolso da batina. O sobrescrito informava numa caligrafia 
rebuscada: Para meu adorado Camilo de Dorian Gray O alfaiate abriu o envelope e leu o contedo, que o deixou atnito: Utopia Inexeqivel Ao ver-te pequerrucho entre 
os gigantes Da nossa Immortal literatura, Olvido a ecclesistica postura, E assolam-me chimeras delirantes Teu Dardo ptreo  arma esplendorosa ! -, Armazenado em 
corpo to pequeno Repousa, acalentado, enorme e pleno, A espera de uma noite dadivosa. Ai doce Apollo Liliputiano ! Desperto como um fauno combalido, Purgado o gzo 
luciferiano. Pois meu clamor; cerrado num gemido, Confessa-te o pecado pubiano: Meu sonho  com teu phallo intumescido! Dorian Gray

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Havia mais de meia hora que o padre Ignacio de Villaforte deixara a Alfaiataria Dedal de Ouro, e o almejado ano Camilo Rapozo, muso inconfesso, continuava aturdido. 
Lera e relera o soneto galante, de mtrica impecvel, e no sabia se o rasgava ou queimava. Guardou o papel numa gaveta da escrivaninha. O poema subsistiria apenas 
como souvenir, j que, oficialmente, ningum conhecia a identidade de Dorian Gray. Camilo sabia que s poderia queixar-se ao bispo no sentido metafrico. Alm disso, 
embora no 0 reconhecesse, ficara um tanto envaidecido por acirrar tamanha paixo. Acabava de fechar a gaveta quando a sineta da porta tocou avisando que o comissrio 
Machado Machado entrava na alfaiataria. Ao avist-lo, a primeira coisa que Camilo Rapozo, excelente profissional que era, logo reparou foi o corte de carregao 
do terno amarfanhado, comprado feito. Ignorando a repulsa que a roupa causava ao seu senso esttico, o ano correu para receber o detetive. - Desculpe, mas o senhor 
no  o famoso comissrio Machado Machado? - Sou to pouco famoso que nem sei como o senhor me reconheceu. - No seja modesto, comissrio. Por causa dos Crimes do 
Penacho, o senhor apareceu em todos os jornais. A propsito, no tome como ofensa, mas a algum to bem-apessoado calhava um traje melhor. Quando vi sua foto com 
esse terno, pensei que o meu jornal  que estava amarrotado. Machado riu da chacota e rebateu: - Meu salrio de policial no permite que eu me vista no grande Camilo 
Rapozo. Tambm no se ofenda se digo grande. Estou me referindo ao seu talento. O alfaiate fingiu no acusar o golpe. - Ento me permita a cortesia de lhe oferecer 
os meus prstimos. O comissrio tentou protestar, mas Camilo no aceitava recusas. Correu atarefado para as prateleiras e comeou a abrir peas do melhor tropical 
ingls. - Acho que um azul-marinho  o que mais lhe convm. Nem muito claro nem muito escuro. Serve pra qualquer hora do dia e da noite. Empurrou Machado para a 
frente do espelho e jogou um pedao do pano desenrolado sobre o ombro do detetive. Com a longa unha do dedo mnimo, marcava sulcos no tecido, delineando a posio 
de uma futura lapela. - Olha que maravilha! Combina inclusive com a palidez do seu rosto. - Seu Rapozo, no posso aceitar, porque no tenho condies de retribuir 
um gesto to generoso. Vai ficar...
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Camilo interrompeu o embarao do comissrio: - No adianta discutir, j est resolvido. O senhor no conhece a obstinao dos Rapozo. Nosso lema : "Midos, porm 
testudos" anunciou, e saiu correndo em busca da plataforma sobre rodas, de trinta centmetros de altura, especialmente confeccionada para que ele pudesse tirar as 
medidas dos clientes. O Coruja impressionou-se com a agilidade e a fora do homenzinho. Carregava os pesados rolos de fazenda sem demonstrar o menor esforo. A fita 
mtrica, longa demais para o seu tamanho, pendia-lhe do pescoo, lembrando uma cobra morta. Voltou para junto de Machado usando a plataforma mvel como uma patinete, 
com destreza juvenil. O policial ainda fez mais uma tentativa para rejeitar o presente: - Seu Camilo, eu vim aqui pra me informar sobre os escritores assassinados, 
estou no meio de uma investigao importantssima. No vou ter tempo pra fazer provas de roupa. - E quem disse que vai precisar de provas? Com esse corpo de manequim, 
garanto que fao o terno sem precisar de ajuste nenhum. O senhor no conhece a minha mestria.  fazer e entregar. Enquanto o ano se esmerava em tirar as medidas 
de Machado, anotando cada uma na caderneta que trazia no bolso do colete, o detetive indagou sobre os imortais. - O senhor  o famoso alfaiate dos fardes. Esses 
seus clientes, to especiais...  muito difcil tratar com eles? -De jeito nenhum, comissrio. So como crianas grandes. Basta ter pacincia - refletiu Camilo. 
S me incomoda um pouco a mania que eles tm. - Que mania? - Tanto aqui, como quando vou fazer uma entrega no Petit Trianon, todos passam a mo na minha cabea. 
Dizem que  pra dar sorte. Uma superstio tola vinda do tempo dos bobos da corte. Na Academia, j virou tradio: basta eu aparecer que comeam com a brincadeira. 
Parece que  de bom augrio tocar numa pessoa como eu, que possui, digamos, uma imagem corporal singular... Machado Machado apreciou a metfora mimosa do simptico 
ano. - E quanto aos que morreram? - Infelizmente, sou obrigado a declinar de fornecer qualquer informao sobre os falecidos. Espero que o comissrio no se aborrea. 
Sigilo profissional, entende? Nunca ouvi nada que pudesse ajud-lo. S pequenas vaidades, prprias dos cavalheiros idosos. Depois, o que se diz num provador de alfaiataria 
 to secreto quanto o que  proferido num confessionrio. Meu tatarav, Antnio Gomes
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Rapozo, nem sob a tortura da Inquisio revelou qual era o tecido das ceroulas do marqus de Pombal - respondeu, exaltado, o orgulhoso artfice. Foi tamanha a determinao 
de Camilo Rapozo que o Coruja desistiu da inquirio. A bem da verdade, diga-se que pouco se lhe dava descobrir a cor das cuecas dos imortais. - Tem algum cliente 
chamado Brs Duarte? disparou,  queimaroupa. - No, comissrio. Nem sei quem  - informou o ano, agastado pela teimosia do detetive. Machado avaliou que nada do 
que o alfaiate desvelasse valeria a insistncia. Fez apenas um ltimo comentrio, no momento exato em que Camilo media a distncia entre o cs e o final da braguilha: 
- O padre Ignacio de Villaforte  cliente seu? Num movimento involuntrio, o ano afastou depressa as pequenas mos, que percorriam, com a fita mtrica, aquela rea 
sensvel. - Quem? - perguntou Camilo, ganhando tempo. - Padre Ignacio de Villaforte, da Academia. As vezes, se assina Dorian Gray, quando escreve textos picantes, 
que o clero condenaria sorriu. - Uma cautela intil, porque todo mundo sabe que Dorian Gray  ele. - Fao as batinas do padre Ignacio, sim. Estou at terminando 
os paramentos que ele vai usar na missa solene em inteno dos imortais. Alis, veja que coincidncia, o padre esteve aqui hoje, provando as roupas. Quase que os 
senhores se cruzam. Mas eu nunca soube que ele usava pseudnimo. Dorian Gray? Nunca ouvi falar - mentiu o alfaiate, quase enrolando a lngua. Machado notou o desconforto 
causado pelo nome de guerra do padre De Villaforte e deduziu, erradamente, que o acanhamento nada mais era do que um exerccio de discrio de Camilo Rapozo sobre 
o cliente eclesistico. O ano guardou seus apetrechos de corte e costura, dando a conversa por encerrada. Guardou a caderneta com as anotaes. - Pronto. Tenho 
tudo o que  necessrio pra lhe fazer um terno de dar inveja ao prncipe de Gales. Jaqueto. Um homem da sua estatura merece um jaqueto. - E, apontando para a caderneta, 
brincou, usando o jargo policial: - Trago no meu bolso o comissrio Machado Machado medido e fichado. O detetive deu-lhe um carto com os telefones. - Se, por acaso, 
se lembrar de algum incidente que possa me ajudar, claro que respeitando inconfidncias inteis, que o incomodem, por favor, me ligue, a qualquer hora do dia ou 
da noite.
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- O doutor pode contar comigo. Sempre respeitei as autoridades policiais. Pelo tom untuoso do alfaiate, o Coruja no tinha esperanas de receber ligao alguma. 
Sem prvio aviso, Camilo forou o detetive a subir na plataforma sobre rodas. Abaixou-se e, retirando da lateral do objeto uma ala embutida presa a uma corda, transformou 
a plataforma num carrinho. Antes que Machado pudesse tentar descer, saiu correndo em direo  porta, puxando o veculo improvisado com o policial em cima. - Se 
me permite, vou lhe proporcionar uma deferncia que reservo somente aos meus visitantes insignes: uma sada triunfal! Talvez nem houvesse inteno de zombaria na 
duvidosa homenagem prestada pelo sagaz ano-alfaiate Camilo Rapozo. No obstante, o comissrio Machado Machado, que odiava Carnaval, sentiu-se desfilando num carro 
alegrico dos Tenentes do Diabo. SEGUNDA-FEIRA, 21 DE ABRIL DE 1924 QUEM  VIVO SEMPRE APARE S VEZES MORTO Era difcil associar a beleza das imagens que enfeitavam 
os tmulos do So Joo Batista com choros e ranger de dentes. As alamedas, traando quadras com exatido, criavam uma atmosfera de reflexo e serenidade. As onze 
horas dessa noite quente de Botafogo, a lua cheia banhava as esttuas sobre os jazigos, dandolhes um plano de mistrio. Dentre as mais belas esculturas, destacava-se 
a rplica do monumento de SaintCloud. O caro alando vo, de braos abertos, fora oferecido pelo governo francs ao Pai da Aviao. Santos Dumont colocara-o na 
entrada do mausolu da sua famlia. A uma quadra desse sepulcro, em frente  campa de Belurio Bezerra, um homenzarro ajoelhado quebrava a harmonia. O colosso de 
homem que invadira o campo-santo se debulhava em lgrimas, aoitado pelo remorso. - Perdo, meu padim Belurio, perdo! A culpa  minha! Se eu tivesse chegado antes, 
no deixava essa desgraa acontecer! lamentava-se, batendo a cabeorra contra o mrmore do tmulo. Meu padim deixou tudo acertado pra eu pegar o tal do aeroplano, 
mas quem disse que eu tinha coragem? Vim mesmo  de navio, padim. No sabia que ia acontecer essa misria.

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O capanga aguardado por Belizrio, Pedro Menelau, um cafuzo de um metro e noventa, de arcabouo assustador, chorava como criana. Usando suas ligaes e o vasto 
poder que exercia em Pernambuco, o senador Belizrio Bezerra comprara, a peso de ouro, um lugar no Couzinet 70, um avio trimotor da empresa Latcore, que comeava 
a operar um servio de correio areo entre Natal e Buenos Aires e no levava passageiros. Mediante um generoso pagamento, no foi tarefa das mais complicadas convencer 
o piloto, um francs com esprito de aventura, a transportar um viajante escondido entre as malas postais. S que Bezerra no contara com o pavor que se apossou 
de Pedro Menelau diante da empreitada. Pedro daria a vida pelo senador, que, anos antes, livrara-o do tiro mortal de um coronel de engenho prestes a vingar o filho 
assassinado numa desavena banal. O cafuzo transformara-se em seu anjo da guarda e obedecia-lhe cegamente. At deparar-se com aquele descomunal pssaro metlico. 
Os trs motores do aparelho j atroavam na pequena pista de terra batida. Pedro sentiu que nada neste mundo de Deus o faria botar os ps no monoplano. - Moo, se 
essa estrovenga voa,  porque  arte do tinhoso. Vou no. Pego o navio. Tem um ita saindo amanh cedo. Meu padim h de entender. O francs, remunerado com antecedncia, 
nem insistiu. Alou vo, arrancando do cho o pujante Couzinet com sua carga epistolar. Era esse o motivo que levava ao desespero Pedro Menelau. Convencido de que, 
se tivesse chegado a tempo, teria evitado a morte do protetor, ele soluava, gemendo numa lamria pungente. O gigantesco capanga estava to absorto em penitenciar-se 
pela morte inevitvel que no notou o vulto a se esgueirar entre os tmulos s suas costas. Caso o fizesse, estranharia o chapu enfiado fundo na cabea e o longo 
sobretudo preto que o sinistro personagem vestia apesar do calor da noite sem brisa. Aquela figura ameaadora mantinha a gola do sobretudo alta, como se quisesse 
esconder o rosto. No contava com a presena de Menelau: viera em busca de outras lureas. Agora os olhos dele no desgrudavam da nuca de Pedro, ajoelhado no jazigo. 
Era alto e forte, mas sua envergadura nem de longe se comparava  de Menelau. Todavia, o pobre e fiel guarda-costas no pde sequer esboar a menor reao. O homem 
aproximou-se lentamente, sem fazer rudo, e saltou sobre a vtima indefesa. Houve apenas um breve cintilar, quando o brilho da lua incidiu no objeto metlico e cortante 
na mo do agressor.
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Num gesto rpido, o assassino dilacerou a cartida de Pedro Menelau, convertendo-lhe a garganta em chafariz de sangue. O comissrio Machado Machado chegou ao cemitrio 
logo de manh cedo e, por um instante, pensou presenciar a ressurreio de algum hspede do So Joo Batista. A primeira coisa que viu foi um homem de costas levantando-se 
de uma cova. O homem virouse para ele, e Machado percebeu que a verso moderna de Lzaro era o legista Penna-Monteiro. Todo um peloto de guardas cercava a rea, 
na rua General Polidoro. O local fora interditado. Decerto os defuntos no se incomodaram. Entre dois tmulos profanados, de lousas abertas, via-se o corpo exangue 
de Pedro Menelau. Continuava ajoelhado, em rigor mortis, e o corte que lhe esfrangalhara a garganta criava a bizarra iluso de uma grgula humana. Da fenda sanguinolenta 
saa o mesmo bilhete enigmtico, com um pssaro empoleirado no nome Brs Duarte. Em torno da cabea de Menelau, o sangue escuro, coagulado sobre a camisa, formava 
um macabro babador. - Bela maneira de se comemorar o Descobrimento do Brasil ironizou Gilberto de Penna-Monteiro, enquanto sacudia da roupa a terra mida da cova. 
- Ento, Gilberto, j se sabe quem ? - indagou o detetive, apontando o genuflexo. - Pelos documentos que trazia no bolso, se chamava Pedro Menelau. Solteiro, de 
pai desconhecido, nascido em Cameleira, na Zona da Mata, em Pernambuco. Ao que tudo indica, era o capanga que o Bezerra aguardava. Infelizmente, chegou tarde. Acharam 
o sujeito assim, morto de joelhos. Foi surpreendido, de costas, enquanto rezava pela alma do seu amado co- De costas? - Claro. Viu o tamanho dele? No ia morrer 
sem reagir, e no h nenhum sinal de luta. Duvido que ele tivesse evitado o envenenamento do Belurio, mas o coitado devia estar to cheio de remorsos que nem teve 
tempo de puxar a peixeira da cintura explicou Penna-Monteiro, apontando a temida arma branca embainhada que pendia do cinturo de Pedro Menelau. - Pela rigidez do 
corpo, ele foi atacado por volta da meia-noite. O Coruja mudou de assunto: - E essas campas abertas? O que  que voc fazia dentro da sepultura? - Guardei o melhor 
pro final, Machadinho. A morte desse infeliz foi um acidente. Morreu porque estava no lugar errado, na hora errada. O assassino no estava atrs dele. Veio aqui 
por outro motivo.
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Machado impacientou-se: - Que motivo, homem de Deus?! - Veio roubar os fardes dos acadmicos. O detetive aproximou-se das covas e deparou-se com uma viso que ficaria 
indelvel em sua memria. Desprovidos das galas majestosas, imortais transmutados em festim de larvas, Belurio Bezerra e Aloysio Varejeira estavam totalmente nus. 
Havia algo de obsceno e lgubre naqueles dois cadveres descarnados, despidos de suas pompas literrias. Devido ao feriado, Machado Machado s pde prestar contas 
ao chefe de polcia na quarta-feira. Para usar uma expresso corrente, o general Floresta estava fulo de raiva. Andava de um lado a outro da sua sala, repetindo 
uma frase de difcil compreenso para quem no tivesse conhecimento do caso: - Era s o que faltava! Era s o que faltava! Era s o que faltava! Fazia uma pequena 
pausa e tornava a dizer: - Era s o que faltava! Era s o que faltava! Era s o que faltava! Machado tentou apazigu-lo: - Calma, general. Assim o senhor vai acabar 
tendo uma sncope... - Calma, merda nenhuma! - replicou Floresta, perdendo a compostura. - Que explicaes eu vou dar  populao? E  Academia? Mais um defunto! 
E, at agora, o senhor no descobriu nada! O Coruja sabia que, quando o general o chamava de senhor, era porque estava deveras aborrecido. - Estamos progredindo. 
Com o auxlio do doutor Gilberto de PennaMonteiro, tenho certeza de que... Floresta interrompeu, explodindo: - Esse  outro! Esse  outro! Nem me d satisfaes. 
Tambm, a culpa  minha. Como  que eu fui confiar num mdico que s trata do paciente depois de morto!? O comissrio tentou ser espirituoso: - A culpa no  dele, 
 dos pacientes... O chefe de polcia fuzilou o subalterno com o olhar. Machado usou de seus poderes especiais, dados por Floresta, para proibir qualquer revelao 
sobre Brs Duarte e os fardes roubados. Temia que a histria sasse nos jornais do dia seguinte, atrapalhando uma investigao bastante complicada. Ningum se atreveria 
a desobedecer-lhe. No entanto, precisava fornecer alguma pista que acalmasse o superior. Por sorte, ao chegar  chefatura, havia uma boa notcia  espera dele.

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- A coisa est melhorando, general. Dois guardas que faziam a ronda em Botafogo, ontem  noite, prenderam um homem pulando a gradaria do cemitrio. Est esperando 
pra ser interrogado. A boa-nova aplacou a irritao do chefe. - Ainda bem. Se eu no cobro, ningum faz nada. V l, v l! ordenou, enxotando o Coruja do escritrio. 
O ESPECIALISTA O suspeito preso pelos policiais ao fugir do So Joo Batista encontrava-se sentado  mesa de uma sala de paredes descascadas, no fundo da delegacia. 
Trajava um imaculado terno branco, apesar de ter passado por cima das grades do cemitrio e de ter oposto ligeira resistncia  priso. Nem a noite em claro lhe 
desalinhara os cabelos bem aparados ou abatera seu semblante. Tinha bigodes finos, como os gals de cinema, e as unhas bem manicuradas. Quando Machado Machado e 
Penna-Monteiro entraram no recinto, o personagem consumia, sem pressa, uma mdia com po e manteiga. Sentia-se  vontade, transformando aquele ambiente inspito 
e mofado no salo do seu botequim favorito. Como bom anfitrio, levantou-se para receb-los e indicou duas outras cadeiras em frente  mesa de pernas tortas. - Por 
favor, sentem-se. Estava terminando meu breakfast. Os ingleses afirmam que  a refeio mais importante do dia. Esto servidos? Os amigos entreolharam-se, estupefatos. 
Antes que se recobrassem do espanto, o cidado continuou: - Perdo por ter oferecido uma pequena propina ao carcereiro pra que ele providenciasse o desjejum. Espero 
no ter quebrado o regulamento. - Limpou os lbios e a ponta dos dedos num leno de linho. - Permitam que me apresente: Heroldo Capanema. O que desejam? Machado 
recuperou-se: - O regulamento voc quebrou foi na noite de ontem. O que  que estava fazendo no cemitrio numa hora daquelas? - Perdo, doutor, sei que estamos vivendo 
sob estado de stio, mas a Constituio de 1891 me garante o direito de ir-e vir. O detetive e o legista no acreditavam no que acabavam de ouvir. - No sei se isso 
inclui ir e vir de um cemitrio quela hora. Machado repetiu a pergunta: - Estava l fazendo o qu? - Exercendo a minha profisso. - Que seria?
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- Arquelogo contemporneo. O comissrio percebeu com quem falava. Heroldo Capanema no tinha o perfil do assassino que procuravam. - Sei. Ladro de tmulos - concluiu 
o policial. - Pronto. Comeou o preconceito. Invadir as tumbas dos faras em busca de tesouros, como fizeram com Tutancmon,  cincia. Agora, fazer o mesmo, hoje 
em dia,  roubo. Penna-Monteiro irritou-se com o sofisma impecvel do gatuno necropolar. - E diferente. Voc vive s custas dos mortos! - Como os legistas... O Coruja 
teve que fazer um esforo para manter a seriedade do interrogatrio e segurar o amigo, que ameaava partir para a agresso fsica. Acendeu um cigarro, ofereceu o 
mao a Heroldo, que recusou, numa forma original de cortesia: - Merci. Tenho nojo. Machado continuou, depois de uma tragada: - Bom, vou fazer um trato com voc: 
se me contar tudo o que viu a noite passada, no So Joo Batista, desta vez eu deixo voc ir embora. Penna-Monteiro, ainda enraivecido pela comparao do larpio, 
chocou-se com a proposta: - O qu!? Vai soltar esse sanguessuga safado? - De novo o vituprio. Que mal fao eu  sociedade? Minhas buscas atingem apenas quem j 
se desprendeu dos bens terrenos. Sou uma espcie de Robin Hood metafsico: tiro dos mortos pra dar aos vivos. Tanta filosofia barata comeava a cansar o detetive: 
- Estou perdendo a pacincia. Daqui a pouco cancelo o acordo. - Bem, doutor, devo confessar que no presenciei nada de muito relevante. Quando cheguei ao stio das 
escavaes, o matador j tinha executado sua tarefa. Por sorte, no me viu. As sombras das esttuas dos anjos me protegeram. Passou bem rente a mim, de chapu e 
sobretudo com a gola pra cima. Parecia forte e era mais alto que eu. No quis olhar muito, com medo de que ele me visse. O canalha levou embora os fardes e os espadins 
dos acadmicos. Um esplio que era meu - resmungou, indignado. Penna-Monteiro revoltou-se: - Seu, coisa nenhuma! Vampiro de cemitrio! - Vampiro? Eu? No, sou um 
mero negociante de mercadorias pstumas. Digo mais: os tempos so de crise. No est fcil exercer a arqueologia contempornea. Permaneo na ativa por amor  arte. 
Machado admirava o cinismo do marginal.
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- O que mudou? As pessoas continuam morrendo. - Mudaram as famlias, doutor. Antes, os entes queridos eram sepultados com suas jias, seus relgios, suas roupas 
mais caras. Hoje, quase enterram nus os coitados dos falecidos. Os belchiores no do nada pelos trajes. E, quando temos a oportunidade de explorar uma escavao 
proveitosa, somos alijados por um criminoso cruel e oportunista. O assassino roubou o po da boca dos meus filhos. Agora, me resta rezar pelo auxlio da Divina Providncia. 
At Penna-Monteiro ficou curioso: - Voc reza? - S em circunstncias extremas. Sou um homem de f, ento peo a Deus que se compadea de algum cardeal enfermo e 
o chame pra junto de si. Um cardeal cobre as minhas despesas por dois anos. Levo uma vida modesta. Como se adivinhasse o pensamento de ambos, HeroMdo detalhou o 
inventrio: - O bculo cravejado, a mitra com aplicaes douradas, a cruz de ouro com pedras preciosas, o anel valiosssimo, os escarpins com fivelas de prata. At 
as luvas brancas e as meias prpura rendem um bom dinheiro. Concluindo, senhores, o cardinalato  uma bno incomparvel. Um bom cardeal  como uma vaca: s no 
se aproveita o berro. Cumprindo o acordo, o comissrio Machado Machado permitiu que Capanema corresse da delegacia, evitando, assim, que PennaMonteiro transformasse 
o perpetrador em vtima. SEXTA-FEIRA, 25 DE ABRIL DE 1924 ESPREITANDO DE PALHETA Havia apenas um Delage, tipo GL - Grand Luxe -,circulando pelo Rio de Janeiro. O 
veculo, feito por encomenda, viera, no comeo do ano, como bagagem especial anunciada com grande estardalhao. A fotografia do orgulhoso proprietrio com a esposa 
ao lado do carro fora capa da revista Fon Fon!. O comissrio Machado perguntou-se o que estava fazendo a famosa limusine, parada na rua Constante Ramos, em frente 
 casa da atriz Monique Margot. Resolvera procurar a francesa, em desespero de causa, na esperana de que ela conhecesse o Brs Duarte do bilhete. No Teatro So 
Jos, soube que Monique sara de licena, alegando um mal-estar.

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O detetive puxou o chapu-palheta, protegendo o rosto dos indiscretos, e escondeu-se na atia do prdio ao lado do sobrado da corista, justo quando um cavalheiro 
de casaca saa furtivamente da casa e se enfurnava no interior do luxuoso automvel. Como ele calculara, o malaise que acometera Monique Margot se chamava embaixador 
Caio Pontes-Craveiro. Machado refletiu com cnica sabedoria: "Manuela e Caio PontesCraveiro: enfim um casal unido pela infidelidade...". Estava assombrado diante 
da vitalidade do homem. Aos setenta anos, com duas mulheres fogosas como Monique e Manuela, no devia lhe sobrar muito vigor para os assuntos diplomticos. Acendeu 
um cigarro pensando na possibilidade do embaixador ter algum envolvimento nos crimes, mas logo ps a idia de lado. O caso transformava-se em obsesso, tanto para 
ele como para Penna-Monteiro. Por mais que tentassem, no conseguiam nem ao menos decifrar o estranho bilhete. Tambm queria discutir com Margot sobre o assassinato 
do capanga de Belurio, Pedro Menelau, buscando indcios que pudessem ajudar a investigao. "De qualquer forma, deixa ver o que  que eu arranco dessa moa", decidiu, 
lanando longe o Cairo e dirigindo-se para a casa da vedete. Monique abriu a porta de calcinha, suti e cintaliga, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Olhou 
o visitante de cima a baixo. - Quelle surprise! S aparece aqui depois de quase duas semanas... No sei se devo perdoar tanta indiferena - fingiu reclamar, colando 
seu corpo quente ao de Machado. O comissrio lembrou-se do ciumento Maximilien Muchenot e resolveu que no precisava de outras complicaes. Dominando o desejo, 
afastou com delicadeza a moa seminua. - Vim  sua casa porque, no teatro, me disseram que hoje voc no ia trabalhar. -  verdade. Estava um pouco febril, mas j 
passou - mentiu a atriz, procurando beijar os lbios do policial. Machado esquivou-se do beijo, disfarando: - Essa febre tem a ver com a visita do embaixador Pontes-Craveiro? 
Irritada, Margot saiu de perto dele. - E se tivesse? - Quando cheguei, o embaixador estava saindo daqui - explicou Machado. - Nunca vi um remdio com um carro to 
bonito... - Voc parece o Max. Ele viveu uma pequena aventure com a embaixatriz, mas acha que eu no posso ter um affaire com o embaixador. Caio  um bon ami, que 
me ajuda muito, e no dou

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satisfaes da minha vida particular a ningum. Quem conhece as minhas necessidades sou eu - respondeu a francesa, friamente. - Manuela com Maximilien Muchenot!? 
- Por que no? Se quer saber, eu tambm j fui pra cama com ela. Muito en passam, claro, como experincia. O Caio quis ficar assistindo. O Coruja no sabia se a 
inteno de Monique era choc-lo ou se ela falava a verdade, mas, imaginando as duas mulheres lindas, nuas, na cama, admirou a iniciativa do velho e experiente embaixador. 
E, mais uma vez, disfarou, procurando manter o tom educado: - Estou aqui fazendo o meu trabalho. Voc me contou que o Bezerra estava esperando um guarda-costas 
que vinha de Pernambuco. O homem veio, chegou e morreu. - Eu li no jornal. - Eu queria saber se, por acaso, ele procurou voc antes de ir ao cemitrio. Ainda agastada 
pela intruso inoportuna de Machado, Monique foi lacnica: - No. - Obrigado. - S telefonou. - Telefonou? Por que no disse logo?! - Porque voc no perguntou. 
Depois, que importncia tem? Estava ligando do cais do porto, procurando o amado patro. Primeiro, ligou pro hotel; na portaria falaram do assassinato. O coitado 
no acreditou e chamou o meu nmero, que Belizrio tinha deixado pra qualquer emergncia. Voil, c'est toutinformou Monique. Machado Machado procurou amenizar a 
situao. Correu os dedos pelo rosto dela, num gesto carinhoso. - No fica zangada, no  falta de ateno.  que esse caso est tomando todo o meu tempo. Mas juro 
que pertencer a um clube de admiradores do nvel do galante Belurio e do provecto embaixador  motivo de orgulho pra mim. Pensando que o domnio insuficiente da 
lngua portuguesa no permitiria a Margot entender que a frase ficava entre a ironia e o elogio, Machado aproveitou para lhe mostrar o enigma: - Por acaso conhece 
isto? A curiosidade foi mais forte que o azedume, e Mopique examinou atentamente a mensagem cifrada. Ficou to intrigada quanto todos que viam o bilhete.
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- Nunca vi. Que passarinho  esse? - E o que estou tentando descobrir - disse o detetive, embolsando o papel. - E do assassino? Machado exerceu o hbito irritante 
dos policiais, de sempre responder uma pergunta com outra: - Quem  Brs Duarte? Para Monique, foi a gota d'gua. Fuzilou o policial com os belos olhos verde-esmeralda 
e abriu a porta de supeto para ele enquanto berrava: - Pensou o qu!? Que fosse um dos meus amantes? Claro! Faz parte das centenas de homens com quem eu vou pra 
cama! Do club! No foi isso que voc disse? Do club! Adieu!- esbravejou, enxotando 0 detetive. O comissrio Machado Machado saiu da casa e apressou o passo, acossado 
pelos gritos da vedete: - Voc foi expulso do club! Canaille! Preocupado com a gritaria, ele nem percebeu o vulto encoberto pelas rvores que o observava do outro 
lado da rua. SBADO, 26 DE ABRIL DE 1924 EN GARDE! A sala D'armas do mestre Ruggiero Buonaventi, no largo da Carioca, era ampla e despojada. Havia apenas o essencial 
para transformar o enorme salo numa academia onde se ensinava o manejo do sabre, do florete e da espada. Um espelho ocupava toda uma parede lateral, e os diplomas 
e medalhas do velho italiano cobriam parte de outra, junto a antigas ilustraes, mostrando os cinco golpes bsicos: Balestra: quando o esgrimista executa um salto 
curto num ataque ao adversrio; Estocada: golpe desferido com a ponta da arma; Flecha: uma corrida curta e rpida pressionando o adversrio; Reprise:  efetuado 
depois do lutador estender a perna dianteira com um golpe  frente; Resposta: ofensiva em reao a um bloqueio de ataque do adversrio. Com esses cinco golpes, doze 
mil variaes podem ser executadas. A maioria dos freqentadores pertencia ao Exrcito, uma vez que a esgrima era um esporte pouco difundido, geralmente apenas praticado 
nos quartis, pelos oficiais militares. Isso no abalava a convico do mestre-D'armas, na certeza de que seu pioneirismo
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daria bons frutos. Plantado no meio da sala, gritava para os alunos em posio de combate expresses compreendidas apenas pelos iniciados: "Parada em quarta! Redobrar 
sobre o brao! Atacarem primeira! Segunda por fora! Ataque ao flanco!". Como em todos os sbados, Machado estava entre os pupilos. Era a nica prtica que o fazia 
esquecer o trabalho. Enquanto suava, aprimorando cada gesto com o florete, sua arma preferida, desligavase dos Crimes do Penacho. No entanto, nessa manh, um visitante 
trouxe-o de volta  realidade. Maximilien Casimire Felisbert Anglois de Muchenot acabava de adentrar a sala D'armas. Buonaventi interrompeu o treino para receber 
o desconhecido: - Pois no? - Vim me inscrever como aluno, monsieur. Quem me recomendou a academia foi o comissrio Machado Machado. O detetive lembrou-se do convite 
feito por ocasio da visita ao cassino do Copacabana. - E verdade, don Ruggiero. Deixe que eu lhe apresente Maximilien Muchenot. Disse que era bom espadachim, e 
o convidei pra conferir. Machado no conseguia atinar por que o francs olhava para ele com uma profunda expresso de dio. Buonaventi continuou: - Os bons esgrimistas 
so sempre bem-vindos. Resta saber se so de fato bons. Cuidado, porque o comissrio  o meu melhor aluno. Max respondeu sem tirar os olhos de Machado: - As espadas 
esto no meu sangue desde a Idade Mdia. Um dos meus antepassados foi o pupilo preferido de Labouissire - afirmou, com desprezo, citando um grande mestre francs. 
O italiano retrucou sem sutileza: - Veremos. A esgrima no  hereditria como a sfilis. O mestre-D'armas afastou-se, deixando os dois homens a ss. - Ser que estou 
detectando uma certa raiva no seu tom? - No, commissaire. O que o senhor est detectando  uma raiva certa. - No entendo por qu. - No entende? J lhe disse que 
sou um homem passional. s vezes, o cime nos obriga a fazer papis ridculos. Ontem  noite eu estava escondido entre as rvores, em frente  casa de Monique, na 
rua Constante Ramos. Por que, quando o senhor me viu no cassino, no disse que conhecia a minha mulher? perguntou, quase sibilando. Machado admirou-se do descontrole 
do homem. Respondeu com uma meia verdade:

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- Primeiro, porque os meus encontros com essa senhora foram estritamente profissionais e, segundo, porque ela nem  sua mulher. - No interessa! Pra mim,  como 
se fosse! O Coruja condoeu-se do crupi martirizado, que no se conformava com as atividades extracurriculares da vedete. -  melhor se acalmar, Maximilien. - Lembra 
que eu lhe disse que um duelo  a melhor maneira de dois cavalheiros resolverem suas diferenas? - Lembro, e tambm lembro que os duelos no so permitidos desde 
o sculo passado. Maximilien retirou dois floretes de um armeiro colado a uma das paredes. - Mas no aqui, com as pontas protegidas. Atirou uma das lminas para 
Machado. O mestre-D'armas interrompeu a aula e, com os alunos, formou um crculo em volta dos contendores. Jogou-lhes as mscaras protetoras de tela metlica. Muchenot 
dispensou a sua, chutando-a longe. A contragosto, o comissrio imitou-lhe a fanfarrice. Ruggiero Buonaventi quis impedir aquela bravata perigosa, ameaando: - Sem 
as mscaras, no! E proibido! Machado Machado sorriu com sarcasmo. - E o caro mestre Buonaventi vai fazer o qu? Chamar a polcia? Maximilien provocou mais ainda 
o detetive: - Claro que no, monsieur le commissaire no pode passar por covarde... - fustigou, ao mesmo tempo que retirava a cpsula protetora do florete e avanava 
para o primeiro golpe, executando uma balestra. Machado mal teve tempo de se esquivar e tambm arrancar a capa que cobria a extremidade da sua lmina. Na sala D'armas 
do largo da Carioca, sob o olhar apreensivo do velho mestre, os ferros de ponta esmerilada ressoaram despidos de qualquer segurana, num autntico duelo do sculo 
passado. Era visvel a excitao causada pelo embate entre os alunos. Muchenot soltava gritos assustadores a cada investida, como um samurai enlouquecido. Mestre 
Ruggiero foi obrigado a reconhecer a excepcional destreza do esgrimista francs. Por sorte, seu pupilo estava bem preparado. Max estendeu a perna direita com um 
golpe  frente, numa clssica reprise, tentando a estocada letal. Para espanto de Muchenot, Machado esquivou-se, no ltimo momento, da lmina que vinha na direo 
do seu rosto e respondeu de forma inesperada: girou o corpo

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num movimento rpido e imprensou o adversrio contra o espelho da sala, arrancando-lhe o florete da mo. Ruggiero Buonaventi respirou aliviado e disse a Muchenot: 
- Voc  bom, muito bom, ma, grazie a Dio, no to bom quanto Machado. Maximilien retrucou, como se tudo no passasse de uma brincadeira inofensiva: - Monsieur le 
commissaire no seguiu as regras do jogo... -  verdade, se fosse seguir as regras do jogo, ia ter que jogar voc no xadrez. V-se embora antes que eu me arrependa 
- sentenciou o detetive, no fundo lastimando o cime doentio do francs. Ningum merecia aquele sofrimento intil. - Fuori! Vai via! - ordenou o mestre-D'armas Ruggiero 
Buonaventi, apontando a porta. Antes que ele sasse, Machado lembrou-se de perguntar, jogando verde: - Tem visto o Brs Duarte? - No conheo nenhum Brs Duarte, 
commissaire. Alis,  um nome totalmente destitudo de nobreza. Quelle horreur!- lanou, com desprezo, por cima dos ombros, Maximilien Casimire Felisbert Anglois 
de Muchenot, ltimo baronete falido de Vauvray.

O PAIZ RIO DE JANEIRO, SEGUNDA-FEIRA, 28 DE ABRIL DE 1924 CHRNICA POLICIAL Mystrio prolongado Malgrado as renovadas declaraes optimistas do chefe de polcia, 
general Floresta, continuam infructferas as investigaes sobre os "Crimes do Penacho". Aggravando a situao actual, outro homicdio foi commettido no cemitrio 
S. Joo Baptista. O crime estaria relacionado  morte dos acadmicos, pois a victima, Pedro Menelau, teve seu pescoo decepado sobre o sepulcro do senador Belizrio 
Bezerra. Segundo fontes officiosas, Pedro Menelau, cidado pernambucano, acabara de desembarcar do Recife e era dilecto funccionrio do pranteado belletrista.

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Seu assassinato torna mais mysterioso o caso dos Immortais recentemente fallecidos.

VIDA SOCIAL A ereco do Chisto Redemptor Continuando o apello iniciado em setembro do armo passado, com a campanha de arrecadao de fundos para a ereco de uma 
esttua do Christo Redemptor em um dos mais altos cumes do Rio, o Corcovado, ser offerecido amanh um opparo banquete beneficente, no Hotel das Paineiras. A creao 
da colossal esttua, para a commemorao do centenrio, era indispensvel para demonstrar o esprito cathlico to arraigado em nossa terra, que se confunde com 
a augusta celebrao patritica. Na ocasio, a iniciativa inspirou vrios dos nossos mais eminentes vates. Cabe destacar o belssimo poema "Effigie em excelso throno", 
da lavra do insigne acadmico padre Ignacio de Villaforte, cuja derradeira estrofe publicamos:  ephmera pergunta: resistir, quem h-de? Pois mesmo a nobre esttua, 
em sua transcendncia, Expulsa desta terra a torpe iniqidade E afasta para sempre toda violncia! Projectado em duas partes, o Christo Redemptor compe-se de pedestal 
e esttua. O pedestal com 12 metros e a esttua com 35 metros de altura, permittindo a permanente visibilidade do monumento. A no ser, cela va sans dire, em dias 
de neblina. A comparecncia ao apparatoso festim, encommendado  Casa Paschoal, da "chie" rua do Ouvidor, exigir trajes de gala e, em um gesto generoso, foi offerecido 
pelo benemrito e illustre membro da Academia Brasileira de Letras, o jornalista Lauriano Lamaison. Na oportunidade, ser mostrada a maqueta do projeto escolhido, 
e Lauriano Lamaison offerecer um vultoso prmio de dz mil contos de ris ao engenheiro Heitor da Silva Costa, vencedor do concurso realizado para a construco 
da obra.

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Ao cair da tarde, no Caf Papagaio, na rua Gonalves Dias, o comissrio Machado Machado fechou o jornal depois de ler as duas notcias, acendeu mais um cigarro e 
pediu ao garom que lhe trouxesse outra cerveja. Dizia a histria que o nome do caf se devia a um papagaio de apelido Bocage, assim chamado porque do seu bico brotavam 
palavres e versos pornogrficos. Os bomios que freqentavam a casa lhe ensinavam o repertrio. Constava da lenda que, quando proferiu uma dessas quadrinhas diante 
de uma senhora, Bocage foi preso por um guarda, em nome da moral e dos bons costumes. O lugar era um dos preferidos pelos intelectuais e pela turma do teatro. Numa 
mesa ao lado da ocupada pelo detetive, o veterano ator Leopoldo Fres apresentava ao novato Jayme Costa uma atriz muito jovem, que lanaria em breve, chamada Dulcina 
de Morais. Na mesa mais ao fundo, os desenhistas Kalixto e J. Carlos, da revista D. Quixote, conversavam com outro artista, o elegante Procpio Ferreira, que comeava 
a rivalizar com Fres. Kalixto rabiscou rapidamente, na toalha, os traos marcantes de Procpio, criando uma caricatura perfeita. Machado passara parte da manh 
procurando, sem sucesso, descobrir o misterioso passarinho do bilhete no insosso Tratado ornitolgzco sobre a fauna alada do Brasil, de Lauriano Lamaison. Depois, 
percorrera a feira do largo do Capim e da praa do Mercado, mostrando aos maiores passarinheiros da cidade o desenho da ave acima do nome Brs Duarte na mensagem 
do assassino. Nada conseguiu, alm de palpites controversos e de discusses exacerbadas entre os especialistas. Chegou  concluso de que talvez o pssaro desenhado 
fosse uma artimanha do louco para confundir as investigaes e no pensou mais no assunto. O garom vinha equilibrando a cerveja, em meio aos fregueses que lotavam 
o caf, quando Gilberto de Penna-Monteiro chegou. O legista instalou-se e tambm pediu cerveja. - Leu o jornal de hoje? O Floresta deve estar enfurecido. No procurou 
voc? - Procurou, porm no me fiz encontradio... declarou, pernstico, Machado, sorvendo uma golada. - Achei mais interessante a matria da coluna social. - O 
negcio da ereo do Cristo Redentor? Que ttulo infeliz.

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- Sem dvida, mas o que me interessou mesmo foi saber do banquete. Enfim, vou poder ter uma conversa com o famoso Lauriano Lamaison. Desta vez, ele no me escapa. 
- Ficou doido, Machadinho? No leu que a recepo exige traje de gala? Voc, com jeito de poeta maldito, de palheta, com o terno todo esbandalhado e um cotoco desse 
cigarro fedido no canto da boca, como  que vai se apresentar? - E imitou um mordomo anunciando sua chegada: - Senhoras e senhores, comissrio Machado Machado: a 
polcia em farrapos! O Coruja riu da descrio do amigo. - No vou ao banquete. Pego o Lamaison no trem do Corcovado. Penna-Monteiro provou a bebida que o garom 
acabara de trazer. - Falando em Lamaison, desencavei uma informao inacreditvel. - Que informao? - Estive ontem em Petrpolis e soube qual  o segredo terrvel 
que permitiu ao Aloysio Varejeira chantagear o poderoso Lauriano Lamaison. - Como  que voc conseguiu? - Com muita dificuldade. Tive at que embebedar meu caseiro, 
o Arlindo. Sabe a histria do RollsRoyce da Manuela Pontes-Craveiro, que correu  boca pequena mas foi logo abafada? - Claro! Que volta e meia o carro era visto 
na casa de campo do Lauriano. - Pois . No era boato. Machado avaliou a informao: - Ento o malandro estava mesmo tendo um caso com a Manuela. Mas ser amante 
da Manuela no  razo pra chantagem,  motivo de orgulho. - Mas no  com a Manuela que o Lamaison est tendo um caso disse Gilberto. E revelou, triunfante: -  
com o motorista japons. O queixo do comissrio Machado Machado no caiu porque a mandbula estava bem encaixada nos eixos. - Ningum sabe, mas parece que ele  
doidinho pelo tal Yamamoto. Notvel, essa atrao irresistvel do Lauriano Lamaison pelo nipnico. Vai ver que no fundo ele gosta de ser chamado de Baro Amarelo. 
- Fantstico! E ningum soube a no ser os caseiros - concluiu o detetive, fazendo uma anotao mental para acrescentar a categoria  sua lista de informantes especiais, 
ao lado das manicures, garons e mensageiros de hotel. - O japons s usa o carro escondido, quando a Manuela viaja. Costuma ir de trem, ou Lamaison manda buscar 
de automvel. O
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caseiro dele contou pro Adindo que uma tarde o Varejeira chegou sem avisar e surpreendeu os dois. Foi um escndalo. - Quer dizer que o Aloysio descobriu essa brecha 
na fortaleza do Baro? - No esquea que o Varejeira tambm cuidava das transaes irregulares do Lamaison e era um advogado de pssima reputao. Por isso  que 
o todopoderoso Baro Amarelo, o homem mais temido do pas, ficava indefeso nas mos daquele chicaneiro. - Ficava, no fica mais. Seria motivo pros assassinatos? 
- Talvez, mas no justifica a morte dos outros, nem o veneno explicou Machado. - Lamaison deve dispor de mtodos menos complicados. De qualquer forma,  um bom argumento 
pra puxar assunto com ele, amanh, a caminho do Corcovado. Ambos terminaram a cerveja em silncio, absortos em pensamentos sobre a fragilidade humana. Penna-Monteiro 
pediu a conta e declarou, filosfico, enquanto saam do Caf Papagaio: - O que aconteceu com Lamaison serve pra comprovar literalmente o provrbio latino. - Que 
provrbio? - perguntou o detetive. - "Qui culum habet timorem tenet." Machado Machado concordou, traduzindo e cunhando para sempre o dito popular: - E verdade, meu 
amigo. "Quem tem cu tem medo." TERA-FEIRA, 29 DE ABRIL DE 1924 PIU PIU!! Veja, ilustre passageiro, O belo tipo faceiro Que o senhor tem a seu lado. 
E, no entanto, acredite, Quase morreu de bronquite, Salvou-o o Rhum Creosotado. Pela milsima vez na vida, o comissrio Machado Machado leu o famoso reclame atribudo 
ao poeta Bastos Tigre. Presentes em todos os bondes do pas e tambm afixados nos vages daquele trem, os versos anunciavam as qualidades de um xarope. Como carioca 
legtimo, Machado recusava-se a visitar os pontos de atrao turstica da cidade. No fosse por razo de ofcio,  provvel que jamais conhecesse a estrada de ferro, 
inaugurada por d. Pedro n,
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que ligava o Cosme Velho ao Corcovado, passando pelas Paineiras. Primeira ferrovia a ser eletrificada no Brasil, seu trem era o mais moderno meio de acesso ao Hotel 
das Paineiras, destino de Lauriano Lamaison. A procura do magnata, o Coruja percorreu o comboio recheado pelo grand monde do Rio, atraindo os olhares curiosos dos 
passageiros. Era o nico vestido com "displicncia". Penna-Monteiro chamaria aquela descontrao de desleixo, porm a verdade  que tal negligncia no vestir era 
estudada. Fazia parte do estilo de menino desprotegido adotado pelo detetive. Ele veio pelo corredor, seguro de si, de palheta, em meio aos chapus emplumados, fardas 
de gala e luvas de renda antiga. Lauriano Lamaison ocupava, sozinho, o ltimo carro. Machado Machado entrou sem pedir licena, enquanto o Baro Amarelo lia a pgina 
de histrias em quadrinhos de um dos seus jornais. O calor e o protocolo no o impediram de envergar o fardo da Academia Brasileira de Letras, que nem era adequado 
para a ocasio. Ria da leitura, um riso desproporcional, como se quisesse se convencer da graa das historietas. Lamaison divertia-se com: OS SOBRINHOS DO CAPITO 
As tiras dos Sobrinhos do Capito, criadas por Rudolph Dirks, eram traduzidas do KatzenjammerKids, cujos direitos Lauriano adquirira dos jornais de Hearst, nos Estados 
Unidos. Os "sobrinhos" eram dois meninos endiabrados, capazes das piores travessuras. As histrias retratavam com humor algumas maldades tpicas das crianas, e 
suas traquinagens eram sucesso mundial. Lamaison adorava ler as aventuras dos moleques, e acabara se transformando num especialista no assunto. O que mais o fascinava 
era a amoralidade dos dois, que lhe permitia fazer as maiores crueldades sem o menor sentimento de culpa. O Baro Amarelo identificava-se integralmente com o esprito 
daqueles personagens. Assim que Machado se aproximou, ele fechou o jornal muito contra a vontade e olhou com pouco-caso para o policial. - Este vago  particular. 
Antes que Lamaison retomasse a leitura, o Coruja identificou-se, mostrando os documentos. - timo. Ento vamos poder conversar sem ser molestados. Comissrio Machado 
Machado. Lauriano interessou-se:
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- Sei, o encarregado das investigaes dos Crimes do Penacho. Meus jornais tm lhe dado boa cobertura. Mesmo que no descubra o assassino, o senhor vai acabar mais 
famoso que artista de cinema... - declarou, com sarcasmo. - Estou mais preocupado com a sua fama... respondeu Machado, cheio de segundas intenes, vingando-se da 
ironia de Lamaison. O instinto agudo do Baro Amarelo logo o ps em estado de alerta. - No sei a que fama o senhor est se referindo. -Acho que sabe, sim. E no 
seja ingrato: no h por que se envergonhar da sua paixo pelo motorista oriental da embaixatriz Manuela Pontes-Craveiro. O amor  lindo, Baro... Se os olhos de 
Lamaison fossem revlveres, o policial teria cado fulminado. - Eu o aconselho a tomar muito cuidado com as infmias que disser. Sou amigo ntimo do general Floresta. 
Com um telefonema, posso destruir sua carreira. - Que pena... a vou ter mesmo que virar artista de cinema... rebateu Machado, com absoluta segurana. Vendo que 
a ameaa no surtira efeito, Lauriano optou pela conciliao. - Muito bem. Desde que o senhor no volte a tocar nessa calnia, estou pronto a lhe fornecer qualquer 
ajuda. - Quanto a isso, pode ficar tranqilo. Sou policial, no sou alcagete. As suas preferncias sexuais no me dizem respeito; mas quero que entenda que o fato 
de um homem perigoso como Aloysio Varejeira ter sabido desse caso pe o senhor na lista dos suspeitos. - Bobagem. Pra mim, a nica coisa perigosa no Varejeira era 
o hlito. Claro, ele fez presso pra que eu o colocasse na Academia, mas tambm o fiz por uma questo de vaidade pessoal. Queria mostrar meu poder queles velhinhos 
decrpitos. De resto, Aloysio dependia muito mais de mim que eu dele. Eu representava a maior parte do seu faturamento. No precisava matar tanta gente s pra me 
livrar do Varejeira. Machado concordava com Lamaison. Usara o affaire do Baro com Yamamoto apenas como instrumento para derrubar-lhe as defesas. Suavizou o tom 
da entrevista: - O senhor sabe de tudo o que se passa nesta repblica. Ento me diga: havia ligaes entre Aloysio Varejeira e Belurio Bezerra? - O nico elo era 
o fardo. Se houvesse outros vnculos, pode ter certeza de que eu saberia. - E o padre Ignacio de Villaforte? Por que foi o nico a votarem branco?
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- Aquele santarro? Por nada, por implicncia. Pra mostrar que tem independncia, escondido atrs da batina - resmungou Lauriano, quase com nojo. - Como  que o 
senhor conheceu o padre? - Faz algum tempo. No casamento do embaixador Caio PontesCraveiro. Ele celebrou a cerimnia, e eu fui um dos padrinhos. O comissrio ficou 
impressionado. - O Rio de janeiro  mesmo muito pequeno. Todo mundo conhece todo mundo... Foi assim que o senhor se encontrou com Yamam... Lamaison cortou-o abruptamente: 
-J lhe disse pra no se meter na minha vida pessoal! Machado reconhecia quando passava dos limites. - Tem razo, doutor Lamaison. Foi uma curiosidade descabida. 
Eu lhe peo desculpas. Lauriano virou o rosto num muxoxo magoado. O Coruja surpreendeu-se com aquele gesto feminino, que destoava da fama de homem brutal do Baro. 
O trem estava quase chegando  estao das Paineiras. O detetive deu-se por satisfeito, contudo queria conservar o acesso quela inesgotvel fonte de conhecimentos. 
Lamaison era um verdadeiro arquivo vivo. - Bem, agradeo a sua pacincia e gentileza. Se necessitar de mais alguma informao, eu espero poder contar com a sua ajuda. 
Lauriano demonstrou a habilidade que tinha para manter amigveis as relaes de seu interesse: - Sempre que for preciso, meu caro, sempre que for preciso. Afinal, 
a certos amigos no se pode negar nada. Machado Machado j ia saindo do vago quando se lembrou da missiva criptografada. - O assassino costuma registrar os crimes 
com esta mensagem mostrou. - Por acaso, o senhor sabe quem  Brs Duarte? Lauriano Lamaison desandou numa gargalhada desabrida. - Se eu sei quem  Brs Duarte? Claro 
que eu sei quem  Brs Duarte! Que idia genial! - exclamou, no mesmo casquinar contnuo. - E sei quem  o assassino, lgico!  to bvio! Lauriano suava, e ria 
tanto que comeou a se engasgar com o prprio riso. Machado perguntou, ansioso: - Quem  ele, doutor Lamaison? Por favor, diga quem !

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De repente, as gargalhadas converteram-se em gritos lancinantes, e o rosto arroxeado do Baro, porejando grossas gotas de suor, foi se alterando num esgar de dor. 
O detetive insistiu, em desespero: - Quem  Brs Duarte, Lauriano?! Fala! Quem  o assassino?! Lamaison puxou o policial pela lapela do palet amarfanhado e, num 
supremo esforo, murmurou em seu ouvido: - Brs Duarte  Olavo Bilac! Tentou continuar, porm uma golfada de espuma negra saiu de sua boca, e ele morreu nos braos 
de Machado, contorcendo-se de dor. Essa frase incongruente foi a ltima pronunciada pelo Baro Amarelo. O temerrio arquivo vivo transformara-se em arquivo morto. 
QUARTA-FEIRA, 30 DE ABRIL DE 1924 O PODER EXPOSTO A NU O anoitecer veio amainar a forte calidez, incomum naquela poca do ano. As luzes frias do Instituto Mdico-Legal 
iluminavam a carcaa aberta de Lamaison, esparramada numa das mesas. O fardo, arrancado sem cuidados, repousava em desalinho no espaldar de uma cadeira branca. 
Voltaria ao dono, depois da necropsia. Destitudo do seu imprio de intrigas e coeres, Lauriano era somente mais um defunto  merc da rotineira investigao policial. 
Se ele pudesse saber da estupefao e do terror que naquele momento seus despojos causavam a Penna-Monteiro e ao comissrio Machado Machado, ficaria envaidecido. 
O misterioso veneno devastara o cadver. Quando o legista apoiou o bisturi para praticar o tradicional corte em psilon, a pele rompeu-se de cima a baixo, revelando 
uma cratera escura. Apenas a epiderme segurava os restos mortais do ex-magnata. Era como se alguma coisa lhe tivesse devorado as entranhas, nas cavidades do trax 
e do abdmen. Pedaos ptridos de msculos rasgados pendiam do que sobrara das paredes do diafragma. Os frangalhos dos pulmes insistiam em se agarrar s costelas. 
O corao de Lauriano escapara ao horrendo festim. Ficara igual ao de Belizrio Bezerra e Aloysio Varejeira: engelhado e reduzido, negro como a lngua, que saltava 
da sua boca escancarada. Machado no conseguia tirar os olhos daquela runa. - Gilberto, que veneno consegue fazer essa destruio? - O veneno, eu no sei, Machadinho. 
Mas sei o que ele provocou. J ouviu falar em fascte necrotica?
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- Graas a Deus, nunca. -  uma doena causada por uma bactria comedora de carne. - O qu!? - Um tipo de estreptococo que destri os tecidos. Por isso a bactria 
foi apelidada de "comedora de carne". - Nunca imaginei que existisse uma coisa to pavorosa. - E como existe. H manifestaes semelhantes de bactrias comedoras 
de carne, como na gangrena de Fournier. - Pelo nome, j fico com medo de perguntar o que  - disse o detetive. Sem respeitar a relutncia do amigo, Pensa-Monteiro 
prosseguiu: - Trata-se de uma gangrena fulminante, espontnea, do pnis e do escroto.  causada por uma infeco estreptoccica na genitlia masculina. Quer ver 
algumas ilustraes? - No, muito obrigado. Gilberto continuou, perplexo: - O interessante  que, em geral, essas bactrias se "alimentam" de pele e da camada que 
envolve os msculos, a fscia. O veneno fez com que elas se disseminassem tambm por todo 0 organismo. No  engraado? - Muito. Eu s no dou risada por respeito 
ao falecido, mas por dentro estou gargalhando. O legista percebeu que o assunto no era apaixonaste para um leigo. - Perdo, Machadinho. A curiosidade cientfica 
falou mais alto desculpou-se, cobrindo com uma mortalha o que restara do Baro Amarelo. Tirou o avental manchado de sangue, vestiu o palet e, virando-se para Machado, 
convidou: - No h muito mais que fazer aqui. Vamos jantar? - Nem que fosse no Bife de Ouro - respondeu o policial, citando o nome do restaurante do Copacabana Palace, 
o mais caro e requintado do Rio. O Coruja no se chocava com facilidade, porm saiu do recinto antes que Pensa-Monteiro apagasse a luz. Ambos atravessaram, taciturnos, 
a praa XV, em direo  rua do Carmo. Uma figura espadada e longilnea observavaos, escondida atrs do chafariz da praa. Esperou que o detetive e o legista se 
afastassem e se aproximou, cautelosa, do muro lateral do Instituto. Levantando um p-de-cabra que trazia encoberto pelo longo sobretudo negro, arrombou uma das janelas 
e entrou no necrotrio. O luar estendia-se pelo vo da janela vazada, indicando-lhe o caminho. Seguiu o corredor e abriu a porta da morgue. Parou, contemplando satisfeita 
o
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resultado nefasto da sua predao. As arcaicas receitas secretas de antanho mantinham o poder destruidor. "Se esperarem muito, no vai haver o que enterrar", pensou, 
ao ver que os pequenos organismos vorazes continuavam a consumir o corpo inerte. O monge guerreiro Isidoro de Carcassonne, fundador da Veneficorum Secta, a seita 
dos envenenadores, sentiria orgulho desse fruto longnquo da sua rvore maligna. Veneficor contornou a mesa morturia e colheu da cadeira ao lado o butim que o levara 
a se arriscar naquela incurso noturna: o fardo de Lauriano Lamaison. Com passadas largas e rpidas, o Envenenador desapareceu silenciosamente dentro da noite, 
carregando o produto da pilhagem. Por onde ele passava, a luz dos lampies da rua projetava-lhe a sombra nas paredes brancas dos prdios, desenhando uma silhueta 
mais ttrica do que o local que acabara de deixar. QUINTA-FEIRA, 1 DE MAIO DE 1924 GOOOOL! AVANTE, TRICOLOR! A pesar da rivalidade entre os dois clubes, e da confuso 
causada por haver dois campeonatos no mesmo ano, Fluminense e Flamengo resolveram disputar uma partida extraordinria para comemorar o feriado do dia do trabalhador. 
O amistoso favorecia o clima de festa e confraternizao reinante entre os torcedores que lotavam a pequena arquibancada do estdio do Fluminense, nas Laranjeiras, 
prestigiando o clssico Fla x Flu. No instante em que o time da casa entrou em campo naquela tarde, uma nuvem branca encobriu o cu. Era o j tradicional p-de-arroz. 
A manifestao surgira dez anos antes, quando Carlos Alberto, um jogador mulato que viera do Amrica, preocupado com alguns tricolores preconceituosos, polvilhara 
o rosto de branco. Aos poucos, o suor foi sulcando sua pele, revelando o absurdo do recurso e deixando o atleta malhado como uma zebra. A torcida adversria ria 
e berrava: "P-de-arroz! Pde-arroz!". Ao invs do esperado, o Fluminense assumira a idia como um brado de guerra, e, sempre que o time entrava em campo, lanava 
uma verdadeira nuvem de talco sobre o estdio. Sentado em meio ao povo, encontrava-se o padre Ignacio de Villaforte, que era torcedor fantico do Fluminense. Vibrava 
com os lances geniais do Preguinho, para ele o maior craque da sua gerao e, por acrscimo, filho de Coelho Netto, colega de Ignacio na Academia Brasileira de Letras.
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Havia tambm um prazer secreto nessas idas do padre aos jogos. Ia ao campo sem roupas de baixo e, desapercebido, arregaava o lado posterior da sotaina, pousando 
as ndegas nuas sobre a laje fria da arquibancada. Comentara com seu confessor que no via gravidade nesse pecadilho. Era apenas uma maneira ttil de manter um contato 
indireto com o rebanho, por meio das centenas de traseiros que j tinham sentado no mesmo lugar. Nessa ocasio festiva, o padre Ignacio de Villaforte achava-se ansioso. 
No tinha ido ao campo especificamente para assistir ao jogo, e sim porque marcara, por telefone, um encontro com o comissrio Machado Machado. Estava alarmado com 
uma nota deixada em sua sacristia. Queria mostr-la ao detetive; porm, desde que soubera da morte de Lamaison, havia escolhido falar com Machado num local pblico, 
de grande movimento. Julgava que assim estaria mais protegido. O comissrio explicara que a precauo era intil, o veneno do assassino agia  distncia; contudo, 
nada demovera o padre dessa convico. O primeiro tempo terminara com vitria parcial do Fluminense por 1 x 0. Preguinho amortecera a bola no peito, na altura da 
linha intermediria, driblara Seabra e Candiota, dera um chapu em Vadinho e, com um shoot irreprochvel, executara um lanamento de trinta metros, deixando a pelota 
nos ps de Nilo, o center forzuard artilheiro do campeonato. Nilo enganara o right back Penaforte com um gil gingar dos quadris, e da sua shooteira sara o tiro 
indefensvel, desbaratando Afonso, o apalermado goalkeeper do Flamengo. Os jogadores rubro-negros alegaram, de balde, que Nilo estava offside: o referee e o linesman 
validaram a jogada. Ignacio mal conseguira apreciar o lance, aflito que estava com a demora do comissrio. Consultava o relgio de minuto em minuto, e seu olhar 
percorria as tribunas, procurando identificar algum com as caractersticas de um elemento da polcia. Machado Machado chegou cinco minutos aps o incio do intervalo. 
Avistou, de longe, o padre De Villaforte. A figura de batina imaculada distinguia-se em meio aos espectadores, a maioria em mangas de camisa. O detetive, que fugia 
a todos os padres das foras policiais, sentou-se a seu lado. - Padre Ignacio de Villaforte? O clrigo virou-se, receoso. - Pois no? - Comissrio Machado Machado. 
Padre Ignacio desconfiou do jovem de olheiras, chapu-palheta e terno sovado. Assemelhava-se mais com os poetas do final do sculo
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do que com um policial. Chegava a parecer incongruente o cabo do Colt .45, sua pistola semi-automtica que o palet aberto deixava entrever. A incoerncia maior 
era que, no fundo, o Coruja odiava armas. Por um momento, o padre esqueceu o motivo do encontro e no resistiu a uma observao, apontando o Colt: - Se me permite 
o comentrio, meu filho, esse objeto no combina com voc. Machado acendeu um cigarro e explicou: - Concordo, padre, tambm detesto usar essa "ferramenta de trabalho". 
Prefiro o sistema da Inglaterra, onde a polcia no anda armada. Mas presumo que no foi pra discutir sobre isso que o senhor quis me ver. O medo trouxe Ignacio 
de volta  realidade. - Tem razo, comissrio. Queria lhe mostrar o bilhete que achei na igreja. Abriu a mo, desdobrando um papel roto e manchado de suor que trazia 
na palma cerrada. No desgrudara dele, desde que o encontrara no cho da sacristia. Um detalhe diferenciava a mensagem das outras. Sob o nome Brs Duarte encimado 
pelo passarinho estava escrito numa garatuja: HOUVE OUTRA LOGO DEPOIS Os dois fizeram a mesma pergunta, ao mesmo tempo: - Sabe quem  Brs Duarte? A resposta tornou-se 
suprflua para ambos. Tendo em vista que o padre Ignacio de Villaforte poderia ser um dos prximos candidatos  loucura do manaco homicida, Machado resolveu mant-lo 
informado: - No quero assust-lo, reverendo, mas as mensagens tm relao com os crimes. E o assassino quem deixa os bilhetes e depois rouba os fardes das vtimas, 
no entendo com que propsito. - Bem, pelo menos quanto a isso, estou tranqilo, meu filho. Devido aos meus votos de obedincia, pobreza e castidade, no tenho fardo. 
Tomei posse de batina - explicou Ignacio, no sem uma ponta de orgulho. - Fico feliz de encontrar um padre que leva seus votos to a srio provocou o detetive. - 
Conheci um que praticava obedincia barganhada, pobreza de esprito e castidade relativa. - No  o meu caso - fulminou, rspido, o padre De Villaforte. - Claro 
que no, reverendo - sorriu o detetive, acalmando o Dorian Gray. - De qualquer modo, a nica pessoa que me falou desse Brs
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Duarte foi Lauriano Lamaison. S que morreu nos meus braos, sem conseguir explicar quem ele era. Ainda balbuciou uma frase que complica mais o mistrio. - Que frase? 
- Suas ltimas palavras foram: "Brs Duarte  Olavo Bilac". Uma centelha de dio aflorou aos olhos do padre Ignacio de Villaforte. - Tpico daquele difamador. Mesmo 
morrendo, quis profanar a memria do grande poeta. Deus que me perdoe, mas Lauriano Lamaison merecia o que lhe aconteceu. Era um homem sem moral. Machado encarou-o 
por alguns segundos e redargiu: - Perdo, reverendo, mas no foi Machado de Assis quem disse: "A moral  uma, os pecados so diferentes"? O alarido da torcida indicou 
que os times entravam em campo para o segundo tempo. O comissrio despediu-se, deixando o padre Ignacio de Villaforte boquiaberto, por ter ouvido um trecho das Memrias 
pstumas ser citado por um "tira" insignificante. SEXTA-FEIRA, 2 DE MAIO DE 1924 VAGAS PARA TRS CAVALHEIROS DE FINO TRATO Enquanto se dirigia  tarde, de bonde, 
para a casa do poeta Euzbio Fernandes, em Santa Tereza, o comissrio Machado Machado examinava o desenho que rabiscara tentando, em vo, entender o vnculo existente 
entre as pessoas envolvidas no caso. De uma maneira ou outra, todas estavam ligadas: Belurio conheceu Maximilien, que conheceu Monique, que conheceu Caio, que conheceu 
Manuela, que conheceu Yamamoto, que conheceu Lamaison, que conheceu padre Ignacio, que conheceu Caio, que conheceu Monique, que conheceu Manuela, que conheceu Lamaison, 
que conheceu Varejeira, que conheceu Belizrio. "Parece um texto da Bblia", pensou. "Nem sei se  um crculo vicioso ou viciado." Sentia-se perdido. Era raro que 
no atinasse rapidamente com a soluo de um crime. Desvendara assassinatos difceis, utilizando apenas sua intuio de detetive, porm, nesse caso, continuava intrigado 
com as pistas encontradas na trilha do criminoso. Guardou o papel no bolso e saltou em frente  casa de Euzbio Fernandes. O Coruja maravilhou-se com a beleza da 
moa que veio abrir a porta. Devia estar com cerca de trinta anos. Tinha os cabelos negros e
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sedosos arrumados num coque. Vestia-se de preto dos ps  cabea, e seus grandes olhos redondos davam a impresso de que vivia em perene sobressalto. A voz grave, 
quase rouca, passava uma sensualidade contida: - Muito prazer, comissrio. Papai est  sua espera. Meu nome  Galatea. - No quero parecer atrevido, mas sou forado 
a dizer que a sua beleza eclipsa a da esttua feita por Pigmalio - asseverou Machado, referindo-se  lenda. Galatea ruborizou-se. - Coisas de papai, que  apaixonado 
pela mitologia grega, mas tenho certeza de que tanto a ninfa como a outra Galatea eram bem mais inspiradoras de paixes do que eu... O Coruja contradisse-lhe a modstia: 
- Acho difcil. Muito difcil. - No repare que tenha sido eu a receb-lo. Minha bab foi visitar a sobrinha em Vila Isabel. - Bab? - Antiga bab. Desculpe,  a 
fora do hbito. Maria Eugnia cuidou de mim desde pequena. Continua conosco at hoje, ajudando aqui em casa  explicou a moa, enrubescendo outra vez. A residncia 
de Euzbio Fernandes era de uma simplicidade monacal. Numa pequena sala de estar, onde tambm eram servidas as refeies, havia livros espalhados pelos mveis, inclusive 
numa cristaleira antiga, junto com pratos e copos. Percebia-se que os diversos compndios iam pouco a pouco se apoderando de todas as dependncias da casa. Um corredor 
estreito dava, pelo que se supunha, para os quartos. O comissrio espantou-se ao ver a quasepenria da moradia do acadmico. As paredes acolheriam de bom grado algumas 
demos de tinta, e os estofados no reclamariam de novas almofadas. No entanto, essa escassez material no parecia afetar o bom humor de Fernandes. Ele aguardava 
Machado na sala, de braos abertos. - Que honra receber to notvel figura no meu humilde Parnaso! - O poeta  que merece todos os louvores. Sou apenas um funcionrio 
pblico no cumprimento do dever - retrucou o policial, com a mesma eloqncia irnica. - No seja modesto. O senhor causou excelente impresso ao meu colega Leonardo 
Feij, quando visitou o Petit Trianon. Euzbio afundou o corpanzil no que o detetive julgou ser sua poltrona favorita, uma bergre de couro devastada pelos anos. 
Fez
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sinal para que Machado se instalasse no sof em frente. Galatea sentou-se numa cadeira junto  parede que separava a sala da copa. Machado Machado iniciou a conversa 
com um elogio: - Eu gostaria de ter o seu imenso talento de poeta pra consguir expressar a beleza da sua filha. Galatea baixou a cabea, envergonhada, e Euzbio 
Fernandes inflou de satisfao. - Felizmente, ela puxou  minha saudosa Quitria  suspirou o vivo. - Mas... que posso fazer pelo senhor? - Antes de mais nada, 
o senhor pode me chamar de voc. - Foi por respeito  autoridade, mas , se  assim, obedeo s suas ordens  brincou Fernandes, batendo continncia. O comissrio 
Machado Machado sorriu e confessou: - Estou me sentindo frustrado com a investigao desses crimes. Talvez nossa conversa me ajude a entender o que se passa na Academia. 
A bela Galatea interrompeu: - Papai, por que  que, antes de comear, no oferece ao comissrio o famoso caf do Nordeste? S voc sabe a receita secreta que mame 
deixou. Euzbio Fernandes extraiu seu corpanzo da bergre. - Boa idia, minha filha. O comissrio aceita um cafezinho? - Com muito gosto. O grande poeta dirigiu-se 
 cozinha, e o Coruja viveu um dos episdios mais angustiantes da sua vida. Quando Euzbio saiu pela porta da copa, Galatea, em silncio, levantou lentamente a blusa, 
exibindo os mais lindos seios que Machado j tinha visto. Eram fartos e rijos, de bicos rosados. Ela o fitava com um sorriso de Mona Lisa. Molhou a ponta dos dedos 
com a lngua e acariciou os mamilos, deixando-os ainda mais trgidos. Seu olhar reluzia, carregado de promessas. Tudo isso enquanto Euzbio Fernandes preparava a 
famosa infuso. Machado, aturdido, temia que o acadmico voltasse de repente, surpreendendo a cena esdrxula. Alheio ao que acontecia na sala, Euzbio, coando o 
caf, falava alto, sem parar: - Esta receita da minha querida Quitria  de beber ajoelhado. Quitria morreu tsica, coitadinha. Dava pena ver aquele mulhero definhando. 
No , filhinha? - , papai - disse Galatea, sem suspender a exibio ertica. O poeta continuou, mudando de tema: - No sei se tenho informaes que lhe permitam 
desenrolar esse novelo. O que quer que eu conte sobre a Academia?
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- Qualquer coisa - sussurrou o Coruja, quase rouco, observando Galatea contorcer-se de prazer. Machado Machado apavorou-se ao pressentir a volta de Euzbio Fernandes. 
No havia razo para tanto. Com um sincronismo absoluto,  medida que seu pai se aproximava da sala, Galatea ia abaixando a blusa, devagar, sem tirar os olhos do 
policial. Machado suspirou, aliviado, quando Euzbio tornou a sentar-se. Teve vontade de fumar para diminuir a tenso. - O cigarro incomoda? - No, fique  vontade. 
Eu tambm fumo. Galatea e o acadmico recusaram o mao de Cairo. - Obrigado, mas prefiro charutos - explicou Fernandes. A filha sugeriu, com falsa inocncia: - Papai, 
por que  que no oferece ao comissrio um dos charutos cubanos que o embaixador Caio Pontes-Craveiro mandou de presente? Acho que voc guardou as caixas no armrio 
da copa. - Mas claro! Onde  que estou com a cabea? Que falta de educao a minha! - desculpou-se Euzbio, voltando a se levantar da poltrona. - Por favor! No 
v, no! No se incomode! gritou Machado, em desespero. - No  incmodo algum - Fernandes garantiu, indo para a copa. O comissrio Machado Machado passou de novo 
pela mesma provao. A tortura repetiu-se por vrias vezes, com pretextos diferentes. Galatea pedia mais acar para o caf, apontava o cinzeiro cheio, suplicou 
que o pai buscasse no quarto, para mostrar ao detetive, o retrato da falecida, me exemplar e esposa amantssima. A cada vez, ela levava a limites mais arriscados 
o movimento de cobrir os seios no retorno de Euzbio  sala. O perigo do flagrante exacerbava o frenesi de ambos naquele jogo sexual. Finalmente, j no havia o 
que sugerir para perpetuar a manobra. O gordo poeta deixou-se cair na poltrona, ofegando pelo exerccio, e retomaram o assunto que ocasionara a visita de Machado. 
Euzbio Fernandes explicou o que se passava na Academia: - Um verdadeiro alvoroo tomou conta do Petit Trianon.  a primeira vez que surgem trs vacncias ao mesmo 
tempo. De certa forma, os acadmicos esto na maior felicidade. - Por qu? - Meu caro comissrio, o nico momento em que do ateno aos imortais  quando surge 
uma vaga. A disputa pela cadeira provoca
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uma paparicao sem limites. Por que  que voc acha que o embaixador Caio Pontes-Craveiro, que nunca olhou na minha cara, me mandou seis caixas de charutos cubanos 
Partagas da melhor qualidade? Um juiz do Supremo, cujo nome vou omitir, me enviou uma cesta enorme de frutas cristalizadas, da Confeitaria Colombo. Tremenda gafe, 
o coitado no sabe que sou diabtico. Um general da cavalaria perguntou se minha filhinha no gostaria de ter um pnei ingls. O ignorante pensa que a Galatea tem 
nove anos. A no ser quando vai haver eleies, ningum se importa conosco, mas agora, com trs cadeiras vagas, somos tratados como realeza. Parou para tomar flego 
e acender um charuto. - E, assim, ns vamos nos deixando corromper docemente. Isso, at completar de novo os quarenta; depois, volta o desprezo absoluto. Gosto muito 
da definio do escritor Fontenelle, contemporneo de Racine e Corneille na Academia Francesa. - Qual ? - quis saber Machado, a quem encantavam as tiradas de efeito. 
- Veja voc, j naquela poca, e na Frana, ele dizia: "Quando somos trinta e nove, caem-nos aos joelhos; se somos quarenta, caoam de ns". - E Fernandes completou, 
repetindo em francs, com seu forte sotaque nordestino: "Sommes-noas trente-neuf, on est  nos genoux; et sommes-noas quarante, on se moque de nous ..." - Pensei 
que esse deboche fosse mania de brasileiro. - Qual o qu! A nossa Academia foi feita nos moldes da francesa, criada por Richelieu;  claro que l tambm zombaram 
de muita gente boa. Como aqui, muitos foram eleitos por serem amigos do rei continuou, vendo que o assunto agradava ao policial -, e muitos deixaram de entrar por 
no o serem. - Quem, por exemplo? - Alexis Piron. Um timo dramaturgo e epigramatista talentoso. Mas Lus xv se ops, por causa de um poema burlesco de autoria dele 
chamado "Ode a Prapo". Como ele era protegido da madame de Pompadour, pra compensar, o rei lhe concedeu uma penso vitalcia. Quanta hipocrisia! Depois de rejeitado, 
Piron redigiu seu epitfio: "Aqui jaz Piron, que no foi nada, nem mesmo acadmico". Cada vez mais, Machado Machado simpatizava com o poeta gordo de Santa Tereza. 
Euzbio deu uma baforada no charuto e ajeitouse na bergre, incomodado com o que ia confessar: - Eu reconheo que foi por interesses extraliterrios que batalhei 
pela eleio do meu conterrneo Bezerra... O corpo vibrante de Galatea enrijeceu na cadeira.
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- No acredite nisso, comissrio. Meu pai  um homem incorruptvel! - Obrigado pela defesa, filhinha, mas a verdade  que eu jamais teria me empenhado na eleio 
do senador, no fosse a promessa de um emprego no governo de Pernambuco. E, sem a presso do Lamaison, eu no teria votado no Varejeira - declarou, olhando com ternura 
para a filha. - Perdoe a Galatea, seu Machado. Ela  muito passional. O Coruja, que acabara de ter uma prova irrefutvel dessa afirmativa, consolou-o: - O senhor 
nada fez de grave. Depois, os assassinatos brutais corrigiram qualquer distoro. - Espero que o assassino no esteja inaugurando uma nova modalidade de crtica 
literria - ironizou o poeta. - Acha que os crimes podem ter sido cometidos por algum escritor frustrado, como  o caso na trama do ltimo livro do senador? - o 
policial perguntou. - Pode ser, porque, no fundo, todos querem entrar pra Academia. Fernandes deu um sorriso malicioso: - Escrevi um poeminha satrico a esse respeito. 
Quer ouvir? Galatea interferiu: - Papai, o comissrio tem mais o que fazer. - Nada disso. Vou adorar ouvir o poeta dizendo seu prprio texto, mesmo que seja jocoso. 
Sou admirador do seu pai h muitos anos. - No fundo  uma brincadeira. Peo que no comente com meus colegas; alguns deles no tm senso de humor e poderiam se ofender 
- revelou Euzbio, encabulado. - Prometo - disse o detetive, pondo a mo no peito. Euzbio Fernandes levantou-se e declamou em tom de farsa: Cano do exlio, s 
avessas Muito mais do que honraria, Prmio, medalha, homenagem, O auge da biografia Acha-se numa roupagem. At quem jura fobia, Ou lhe faz objeo, Num segundo aceitaria 
O cobiado fardo. Pois confesso emocionado: Desde os tempos de boemia, Penso no verde e dourado Da suprema fidalguia.
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 um desejo acobertado Pelo qual tudo faria. Por isso  que, ajoelhado, Eu repito a litania: Que outro escriba no concorra Quando chegar o meu dia. No permita 
Deus que eu morra Sem brilhar na Academia. Na minha obra eu invisto, Escrevo prosa e poesia. Aos modernismos resisto, Se ofendem a confraria. Falta rima ? Eu no 
desisto, Procurando noite e dia. Fico  espera do imprevisto Quebrando a monotonia: Um imortal que encontre Cristo Ao rolar da escadaria. Na mesma orao insisto, 
Com certa melancolia. Mantenho a perseverana, O fervor e a energia. Se quem espera sempre alcana, Repito logo a homilia: Que outro escriba no concorra Quando 
chegar o meu dia. No permita Deus que eu morra Sem brilhar na Academia. Alguns parcos contrapesam O valor desta autarquia. Muitos falam que desprezam A Ilustre 
Companhia, Que por ela eles no rezam, Que aquele ch d azia. Se aos meus colegas eu digo, Fazendo demagogia, Que para o fardo no ligo?  mentira,  covardia! 
Tambm sonho s escondidas Com esse nobre galardo.
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Nem temo as lutas renhidas Quando vai-se um ancio. Sei das vantagens nascidas Pelo porte do fardo. Que outro escriba no concorra Quando chegar o meu dia. No 
permita Deus que eu morra Sem brilhar na Academia. L dentro tem mais nobreza Do que na corte de um rei. Para provar dessa mesa, Garanto, tudo farei: Chamo os imortais 
de "Alteza"; E certo que agradarei. Evito qualquer franqueza E uso de hipocrisia. Direi que existe beleza Em bulas de homeopatia. S assim vou ter direito A mordomia 
e ao jetom. Prometo que, quando eleito, Direi em alto e bom som: Imortal no tem defeito, Viva o Petit Trianon! Machado e Galatea aplaudiram, rindo, entusiasmados. 
- Bravo! Bravo! Exaurido pela proeza, o rotundo poeta desabou na bergre, s gargalhadas. O detetive comentou: - No tinha idia de como ser imortal  importante 
pra certas pessoas. - E por pura vaidade - assegurou Euzbio -, porque, alm do jetom, no existe nenhuma vantagem financeira nisso. Um dos nossos fundadores, meu 
dileto amigo e compadre Olavo Bilac, dizia que era imortal porque no tinha onde cair morto... O comissrio Machado Machado matutou sobre as palavras de Bilac enquanto 
tomava mais uma xcara de caf. - Curioso o senhor ter mencionado o Prncipe dos Poetas. A ltima frase pronunciada por Lauriano Lamaison, pouco antes dele morrer, 
foi: "Brs Duarte  Olavo Bilac". J ouviu falar em Brs Duarte?
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- Nunca ouvi ningum chamar Olavo de Brs Duarte. O nico Brs que eu conheo  o Brs Cubas, do Machado. Ser que foi ignorncia do Lauriano? No me espantaria. 
- Duvido. Ele afirmou com muita convico. O que me intriga  que reli os poemas e as crnicas de Olavo Bilac, e no encontrei nenhuma referncia ao nome Brs Duarte. 
Os dois permaneceram em silncio por alguns instantes. Fernandes terminou seu charuto e disse, como se pensasse alto: - Trs acadmicos mortos. Tenho medo de sair 
de casa. Minha filha diz que estou ficando paranico. Se continuar deste jeito, daqui a pouco vai haver mais vagas do que imortais. Machado levantou-se. - Infelizmente, 
passou da minha hora. Foi uma tarde agradabilssima - frisou, olhando para Galatea -, mas ainda tenho que passar na chefatura, saber das novidades. Euzbio Fernandes 
perguntou: - Ento nos vemos domingo, na Candelria? - Domingo? - E, domingo. Acho que voc deve comparecer  missa solene em memria dos trs mortos, no? - Uma 
missa s? Pros trs? - Claro. Foi o padre Ignacio que teve a idia da homenagem tripla.  ele quem vai celebrar a missa. A Academia adorou juntar tudo numa cerimnia 
s. Fica mais barato. Galatea e eu estaremos l. No meu caso, espero estar de corpo presente - riu Euzbio. - At domingo, ento. - J que falamos em Olavo Bilac, 
fao questo de que voc leve uma lembrana daqui. Euzbio Fernandes abriu a cristaleira, pegou de l vrias edies encadernadas e autografou metade. - Minhas obras 
completas e as do Olavo. Os livros dele esto dedicados a mim e os meus, a voc. Machado emocionou-se ao receber as obras raras, com dedicatrias dos autores. - 
O senhor vai abrir mo destes livros assinados por ele? - Meu querido e recente amigo: Bilac e eu ramos como irmos. Pouca gente sabe, mas Olavo era padrinho de 
Galatea. Trago a obra do compadre impressa pra sempre, na minha cabea e no meu corao. Tenho certeza de que, l do Panteon dos verdadeiros imortais, ele est aprovando 
o meu gesto. Hoje,  raro encontrar um jovem que ame a poesia e a literatura. - No sei o que dizer.
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- Ento, no diga nada - finalizou o poeta, dando-lhe um abrao carinhoso. - Minha filha vai acompanh-lo at a porta. Volte sempre. - Pode estar certo que sim - 
garantiu o detetive, estendendo-lhe a mo e trocando um olhar cmplice com Galatea. Assim que se viram abrigados pela penumbra do corredor que levava  sada, Machado 
largou as oferendas no cho, e os dois agarraramse sofregamente. Extravasando o desejo reprimido, beijaram-se como alucinados. Apoiando Galatea contra a parede, 
Machado levantou a saia da moa, e ela, num gesto rpido, abriu-lhe a cala e empunhou o membro intumescido. Trmula de excitao, puxou-o para dentro de si. O orgasmo 
foi simultneo e ardente. Ambos recolheram s pressas os livros espalhados  sua volta e seguiram em silncio, de mos dadas, para o ponto do bonde de Santa Tereza. 
A doce Galatea ficou acenando at que o veculo desaparecesse na curva da rua. SBADO, 3 DE MAIO DE 1924 O COLECIONADOR Em toda a extenso das paredes na gua-furtada 
da rua dos Invlidos, Veneficor construra uma espcie de vitrine, que dava a impresso de ser um vasto mostrurio. Esse longo corredor iluminado e protegido por 
painis de vidro nada tinha de singular. A morbidez insana do Envenenador brotava dos objetos que ele ordenava, com diligncia, nessa montra funrea. Dispostos como 
numa passarela, viam-se vrios bonecos feitos de massa, em tamanho natural. Para diferenci-los de manequins comuns, Veneficor tentara recriar-lhes o rosto usando 
papel mach e moldara o corpo deles com tela gessada a fim de que ficassem com a aparncia de suas vtimas. No entanto, as questionveis habilidades do criminoso 
na arte da escultura davam feies grotescas aos descomunais fantoches. Os trs primeiros a ocupar a passarela vestiam os fardes roubados nas suas incurses noturnas. 
O resultado era tenebroso. Nada mais tinham de magnificentes aqueles trajes bordados. Ao verde do tecido de camura somavam-se, agora, manchas escuras de sangue, 
alm de pequenos torres de terra grudados aos botes das fatiotas que ele arrebatara dos tmulos.

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Ficava patente a demncia do assassino quando ele retocava, com ruge encarnado, a face das toscas esculturas dessa exposio sinistra. Enquanto se atarefava em volta 
delas, articulava frases apocalpticas, repetindo numa algaravia sem nexo: - Meu nome  Morte, e o inferno me segue. Sou o Mensageiro da Desforra, a Encarnao do 
Desagravo! Foi-me dado o poder de matar pelo veneno, pela peste e pela putrefao da carne. Meu nome  Morte, e vim montado num cavalo baio, para punir toda a iniqidade. 
Meu nome  Morte, e sou o flagelo dos escribas e dos magnatas, dos poderosos e dos lacaios dos poderosos, dos ricos e dos falsos sacerdotes. Meu nome  Ultor, o 
Vingador, e meu bramido  o resgate das afrontas: Vitriol! Vitriol!. Sob o doce mel escondem-se venenos terrveis! Terrveis, sim, esses venenos desconhecidos da 
cincia oficial, cujas frmulas eram passadas, em segredo, de gerao em gerao, pelos membros da Veneficorum Secta. Longe dos laboratrios das primeiras faculdades 
medievais e dos seminrios renascentistas de fsica e qumica, as receitas da Secta sobreviviam ocultas em locais secretos, sob as pedras das catedrais. Bruxas foram 
queimadas sem revelar o conhecimento destruidor dessa cincia colhida "no inferno, nas profundezas da Terra": "Tellure sub ima in inferis". Qualquer membro da Veneficorum 
Secta tinha o poder satnico de desencadear epidemias. Alguns ocultistas afirmam que os piolhos de rato, causadores da peste negra de 1501, em Paris, foram contaminados 
pelo sangue de ratazanas previamente infectadas com uma soluo espria, inoculada por um envenenador da seita. O autor da prfida encomenda seria Ludovico Sforza, 
duque de Milo e protetor de Leonardo da Vinci. A calamidade, que dizimou milhares de franceses, nada mais era do que um ato de vingana contra o rei Lus XII, que 
o destronara um ano antes. Os mesmos estudiosos sustentam que, apenas acrescentando algumas gotas concentradas de um lquido inodoro nos poos de gua que servem 
a cidade, um venervel da seita eliminaria sua populao. Esses pesquisadores garantem que a Grande Praga de Londres, responsvel pela morte de setenta e cinco mil 
pessoas entre 1664 e 1666, foi deflagrada por Sergei Piou Vandislavski, um monge excomungado de So Petersburgo. Vandislavski, gro-mestre da Secta, teria agido 
por vingana, depois de ser expulso da corte do rei Carlos II como charlato. Agora, tendo depurado as frmulas de todos os venenos misteriosos da seita, Veneficor 
dominava-os plenamente.

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Executada a tarefa a que se propusera, ele se afastou e observou, satisfeito, o resultado da criao repugnante. Sumiu pela porta de uma pequena alcova, situada 
no fundo do laboratrio, na qual guardava suas vestes. Escarnecendo a Academia, o Envenenador cognominara o cubculo de "Salo Francs". Em instantes, saltou de 
l inteiramente nu. Aproximou-se do quarto manequim, que ainda estava sem roupas, e comeou a acarici-lo, lnguido, segredando palavras incompreensveis no ouvido 
inanimado. De repente, Veneficor, nico membro da Secta no hemisfrio, atingiu um orgasmo delirante esfregando-se no andride nu. Exausto, rompeu com um grito aterrador 
a placidez tumular que envolvia a mansarda: - Lascive factum, Bras Duarte! Houve outra logo depois !

O PAIZ RIO DE JANEIRO, DOMINGO, 4 DE MAIO DE 1923 In memoriam Ser realizada hoje, na bellssima igreja da Nossa Senhora da Candelria, missa solenne homenageando 
os trs acadmicos fallecidos nos ltimos 30 dias, victimados pelo mesmo assassino psychsico. A missa ser celebrada pelo padre Iganacio de Villaforte, tambm da 
Academia Brasileira de Letras. Espera-se a comparecncia macia de todos os Immortais, que, trajando seus fardes, symbolizaro o apoio monolthico aos colegas ceifados 
pelos "Crimes do Penacho". O verde e dourado dos fardes ser um collyrio para os olhos, accrescentando um toque festivo s exquias, tradicionalmente ennegrecidas 
pelos trajes de luto. Em tais ocasies, nunca  demais relembrar a histria milagrosa dessa imponente igreja. O capito da nau Candelria, Antnio Martins de Palma, 
construiu-a em 1630, cumprindo promessa feita a Nossa Senhora da Candelria, por ter sido salvo de um naufrgio junto com sua esposa. O pianista e compositor Joo 
de Souza Lima, detentor do primeiro prmio do Conservatrio de Paris, em 1922, de passagem pelo Rio de
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janeiro, agregar seu talento  solennidade, exhibindo uma reduco para rgo, composta por ele, do famoso Requiem, derradeira symphonia de Wolfgang Amadeus Mozart.

DOMINUS VOBISCUM O templo de Nossa Senhora da Candelria, no centro da cidade, foi erigido no sculo XVIII, partindo de uma planta desenhada em formato de cruz. 
Construda em pedra lavrada, com forma geomtrica, sua fachada lembra a magia das antigas catedrais. Duas torres projetam-se do frontispcio, aumentando a magnitude 
do prdio. As paredes internas so revestidas de mrmore de Garrara, e pinturas com temas bblicos recobrem a abbada, tpica das grandes baslicas. As imponentes 
portas de bronze so esculpidas em estilo barroco. A histria da igreja  contada num extenso mural restaurado recentemente. Nessa chuvosa manh de domingo, a nave 
da Candelria estava lotada. Autoridades, artistas, escritores com pretenso s vagas e representantes do corpo diplomtico, inclusive Caio Pontes-Craveiro, com 
sua esposa, Manuela. Yamamoto, motorista e escudeiro fiel, observava de longe, em p, prximo a um dos confessionrios. Os imortais, com seus bicornes emplumados 
presos  axila e ostentando os espadins recm-polidos para as pompas fnebres, ocupavam os assentos da frente. O suor das mos passava-lhes pelas luvas brancas, 
molhando as finas pginas de papel de arroz dos brevirios. Os fiis, e os infiis com suas esposas, espremiamse nos bancos da igreja e respondiam, em latim, s 
palavras do sacerdote: "Et cum spiritu tuum...", muitos demonstrando uma f que no possuam. Euzbio Fernandes postara-se na primeira fila, por dever de ofcio. 
"Noblesse oblige", explicou, cumprimentando o comissrio, ao chegar para o ato litrgico. O Coruja observou um homem alto, com uma roupa preta que j vira dias melhores, 
aproximar-se do poeta, saud-lo com salamaleques subservientes e em seguida eclipsar-se pelo corredor lateral. Afastada do pai, Galatea colocara-se entre Machado 
e PennaMonteiro, os trs numa regio intermediria do recinto, de onde o detetive podia observar, sem ser visto, todos os acadmicos. A empatia surgida entre a moa 
e Penna-Monteiro fora imediata.
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Galatea era diferente das costumeiras aventuras do policial. O mdico sentiu que, dessa vez, o amigo tinha todos os motivos para se apaixonar. Como cientista ctico 
e agnstico convicto, Gilberto de PennaMonteiro mal ouvia o padre; entretanto, deleitava-se com a melodia executada por Souza Lima no rgo da Candelria. Nenhum 
deles sabia que Veneficor assistia  cerimnia, alerta a tudo o que se passava. Seu olhar tresloucado ia de Machado para os imortais e deles para Ignacio de Villaforte. 
Para ele, os caadores eram a caa. Dava ateno particular  ironia da escolha da msica: o Requiem, de Mozart. Os tolos no tinham idia de quo apropriado era 
o tema para ilustrar a tragdia que estava prestes a ser representada, conspurcando o palco daquele santurio. Sim, o Requiem, ltima obra do gnio. O Requiem, encomendado 
por um misterioso personagem, que o incumbiu de compor uma missa fnebre, dando-lhe um adiantamento. Talvez at conhecessem a verso clssica da histria, a qual 
relata que o compositor, com as finanas arruinadas, aceitou a encomenda e, com a sade em declnio, pressentiu que a missa dos mortos que concebera era o seu prprio 
rquiem. Essa verso conta tambm que Amadeus, j muito doente, imaginou que aquele homem era o mensageiro da Morte. De fato, Wolfgang faleceu antes de terminar 
sua obra-prima, em circunstncias obscuras, afirmando que o tinham envenenado. O Envenenador permitiu-se um sorriso de escrnio. O que s alguns iniciados sabiam 
 que Mozart estava certo. Ele foi assassinado pela ao fulminante de dois custicos venenos: o Mucor phycomycetes, um fungo indiano cujas sementes, diludas em 
gua quente e administradas como ch, aderem s paredes da faringe, crescendo rapidamente. Em trs semanas, atingem os pulmes, infiltram-se nos alvolos, sufocando 
pouco a pouco a vtima, numa lenta agonia. O resultado  semelhante ao das enfermidades das vias respiratrias. Os mdicos concluem que o doente morreu de causas 
naturais. O outro veneno  mais virulento ainda: chamase Inveja. Mora na estante dos herbanrios da alma. O compositor oficial da corte do imperador Jos n chamava-se 
Antonio Salieri. Wolfgang, com seu talento inequvoco, despertou, atravs dos anos, a invdia do msico. O infortnio de Amadeus foi a percia esotrica que o destino 
depusera nas mos do rival. Aos dezoito anos, Salieri havia sido iniciado na Veneficorum Secta, em Milo, por um tio marmorista da vila de Cuggiono, Mito Amorino 
Marchesi. Aos vinte e trs, um ano antes de ser nomeado compositor
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da corte, j era Magister Venerabilis, com conhecimento de todo o receiturio da seita. No lhe fora difcil obter acesso ao Mucor phycomycetes que matou sua nmesis. 
O pblico voltou a ateno para o rgo. Toda a msica da missa era suave e confortante, transmitindo a idia que Mozart fazia da morte: requiem, "descanso". Souza 
Lima interrompera a interpretao numa das passagens mais brandas. Chegara a hora da homilia. Era impossvel no ser tocado por aquela cerimnia. No se via mais 
o frgil padre, com todas as fraquezas do homem. A autoridade e o poder espiritual que o sacrifcio da missa lhe conferia faziam esquecer o vigrio ridculo atormentado 
pelos pecados da carne, o escrevinhador provinciano que se escondia atrs do burlesco pseudnimo de Dorian Gray. Quem ali estava agora era o sacerdote Ignacio de 
Villaforte. Terminada a leitura sobre Lzaro, no captulo 11 do Evangelho segundo so Joo, padre Ignacio dirigiu-se com passadas solenes para o magnfico plpito 
da Candelria, a fim de iniciar sua prdica. Em breve, ele pronunciaria mais uma vez, sublimadas pelo latim, as palavras que sempre o redimiam das transgresses 
humanas: "Domine, non som dignos ut intres sob tectum meum, sed tantum dic verbo, et sanabitur anima mea" - "Senhor, eu no sou digno de que entreis em minha morada, 
mas dizei uma palavra e minha alma ser salva". O talento magistral do alfaiate Camilo Rapozo contribura para realar-lhe a imagem hiertica de pontfice. A alvura 
da tnica de seda branca contrastava com a irrepreensvel casula roxa e a estola prpura e prata. Resplandecente, no plpito, De Villaforte abriu o missal e retirou 
dele um papel dobrado com o texto que havia composto para a ocasio. Olhou surpreso para a folha que segurava. Em seguida, as faces do padre afoguearam-se como as 
de Moiss quando surgiu no monte Sinai, trazendo as Tbuas da Lei. No demorou para que Machado e Penna-Monteiro percebessem que algo de muito errado se passava 
com Ignacio. No era uma luz, como a do profeta, que lhe alterara as cores, e sim o sangue concentrado em seu rosto por um ataque apopltico. Em vo, ele escancarava 
a boca tentando respirar. Um suor intenso brotava do seu corpo, empapando a tnica fina e aumentando a sensao de asfixia. Desesperado, o padre Ignacio de Villaforte 
rasgou as vestes como Caifs numa montagem mambembe da Paixo.

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Machado e Penna-Monteiro correram a tempo de apar-lo nos braos, quando despencou, j sem vida, do alto do plpito. Cerrada nas mos do sacerdote, no lugar do sermo 
em versos alexandrinos que pretendia ler, encontrava-se a senha horripilante, pressagiando seu funeral. Veneficor acrescentara duas palavras ao enigma: LASCIVE FACTUM 
Movidos pelo instinto de sobrevivncia, os acadmicos lanaram-se ao cho, escondendo-se sob os bancos da igreja. Apenas o poeta Euzbio Fernandes permaneceu de 
p, rgido como uma esttua, semblante impvido e olhar desafiador. Vendo o pai desprotegido, Galatea correu ao seu encontro e puxou-o para perto de Machado e PennaMonteiro. 
O alvoroo das pessoas que corriam, desorientadas, misturava-se ao rudo metlico dos espadins chocando-se contra o piso de mrmore. Os gritos dos assistentes, mesclados 
s plumas brancas soltas dos bicornes atirados longe, emprestavam  catedral uma apure de rinha de galos. Em meio  balbrdia, ningum deu importncia ao homem alto, 
envolto numa longa capa negra, que se afastava clere da Candelria. Um mendigo sentado na escadaria da igreja deixou cair a caneca cheia de moedas, estarrecido 
com a pattica figura que descera os degraus s carreiras, repetindo num ricto arrepiante: - Lascive facturo! Lascive facturo! Lascive facturo! DEUS LHE PAGUE - 
Doutor Machado, tem um vagabundo a fora dizendo que viu o homem que o senhor est procurando. O comissrio virou-se para o guarda, que, lvido, fixava os olhos 
no cadver contorcido do padre Ignacio de Villaforte, depositado na comprida mesa da sacristia,  espera do rabeco do Instituto MdicoLegal. - Como, um vagabundo? 
- O senhor sabe, um mindingo - explicou, estropiando o vernculo. - Manda ele entrar. -Aqui!? -perguntou o jovem guarda, apontando, espavorido, para o corpo inanimado. 
Machado pegou uma longa toalha rendada no armrio da sacristia e jogou-a para o guardinha.
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- Tem razo.  melhor voc cobrir o defunto. - Eu? - Algum problema? - Doutor Machado, eu comecei no servio essa semana. Me pede qualquer coisa, doutor, mas no 
me faz chegar perto de padre morto. Ainda mais desse jeito. Minha me  devota. O detetive apiedou-se do rapaz. Com o tempo, acostumara-se  viso da morte. Lembrou-se 
da primeira vez que vira uma vtima de assassinato. Era o corpo sem cabea de um bicheiro em Madureira. A imagem do pobre homem perseguira-o em sonhos meses a fio. 
Tirou a toalha das mos do guarda e cobriu o cadver do padre, enquanto o polcia se benzia repetidas vezes. O mendigo, tpico pedinte por profisso, sentiase acuado 
perante o comissrio. No devia ter mais que quarenta anos. Vestia um terno que fora branco em algum momento da sua existncia. No p direito, calava um sapato 
roto pelo menos trs nmeros maior que o dele. O outro p estava envolto numa atadura imunda, que devia ocultar um membro perfeitamente sadio. No parava de coar 
a barba e a cabea coberta por longos cabelos, num indcio bvio de que seus plos serviam de abrigo a uma saudvel colnia de piolhos. Machado refletiu e chegou 
 concluso de que gua e sabo eram nocivos ao couro cabeludo, pois nunca vira um mendigo careca. Notando que o homem estava meio embriagado, ofereceu-lhe uma cadeira, 
para que ficasse  vontade. - Quer dizer que o cidado avistou o elemento suspeito quando ele se afastava da ocorrncia? perguntou o Coruja, usando o jargo da polcia, 
o qual, alis, ele detestava. - No s avistei, como vi ele direitinho. Vi com estes mirantes que a terra h de comer. O sacana acabou com o meu dia. Olha que missa 
de famoso d uma nota, mas eu fiquei to tonto com aquela assombrao, que derrubei a caneca com a minha fria. A molecada da praa pegou tudo, me deixaram liso. 
Fiquei a xenxm, doutor contou o indigente, anunciando que perdera o faturamento do dia. - Como era ele? - indagou o policial. - Safado. Ele era safado. - Digo fisicamente. 
Que aparncia tinha? - Alto. Mais alto que o senhor. Parecia militar. - Por qu? - No sei, mas parecia. - E que mais? - Eu acho que era estrangeiro, porque no 
parava de gritar numa lngua esquisita. Ah, e era muito friorento.
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- Como  que voc sabe? - U, doutor? Com um calor desses, o homem estava de capa! sentenciou o bbado, terminando o depoimento com um arroto sonoro. SEGUNDA-FEIRA, 
5 DE MAIO DE 1924 PROCURANDO SEU LATIM No domingo  tarde, Gilberto de Penna-Monteiro cumpriu seu dever de legista, acompanhando 0 corpo do padre Ignacio de Villaforte 
at o necrotrio. Por solicitao da Cria Metropolitana, os despojos do celebrado eclesistico aguardariam no Instituto Mdico-Legal at tera-feira, quando seria 
realizada a necropsia. Depois de tomar todas as providncias cabveis como policial, o comissrio Machado Machado foi com Euzbio Fernandes e a filha at Santa Tereza. 
Nenhum dos trs pronunciou palavra at chegarem  residncia do poeta. Continuavam chocados com o acontecido. Nem o Coruja, com sua experincia, presenciara algum 
dia cena to dantesca. Ele tampouco estava tranqilo em relao  segurana do poeta e de Galatea. Deixou dois guardas vigiando a casa e despediuse, explicando que 
precisava lavrar a ocorrncia. - O que mais me amofina  ter que preencher essa papelada cheia de detalhes repulsivos. - Acompanho voc at a sada - disse Galatea, 
carinhosa. Na porta, Machado passou-lhe seu endereo ladeira do Russell, na Glria - e props: - Amanh te espero l. Galatea aceitou o convite e, na tarde seguinte, 
s duas horas, fazia amor com o detetive. O primeiro arroubo foi rpido, saciando o desejo contido. Depois, amaram-se de novo, dessa vez sem pressa, desfrutando 
o momento, um descobrindo com vagar o corpo do outro. Finalmente, sentados na beira da cama, Machado quis saber tudo a respeito de Galatea, e ela, desvendar os mistrios 
do comissrio. Era maravilhoso o despudor natural daquela mulher esplndida, que exibia o corpo nu com a espontaneidade de uma criana, enquanto o policial se cobria 
com o lenol. Riram-se muito do episdio de seduo que ela criara na casa do pai. - No sei o que me deu. Acho que eu queria te levar  loucura. - E quase levou...

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Machado acendeu um Cairo. Ela no fumava, mas, por cumplicidade, volta e meia dava uma tragada no cigarro do amante. Ele falou de sua vida: do porqu do nome repercutido, 
homenagem a Machado de Assis, por quem o pai, o escrivo Rubino, era apaixonado; do amor pelos livros; da vocao incoercvel e paradoxal para trabalhar na polcia; 
do apelido Coruja, dado pelos colegas, por causa das suas olheiras de poeta romntico. Contou que a me trabalhara como costureira para ajudar nos custos da faculdade 
de direito, j que o diploma era requisito indispensvel para a carreira de policial. Revelou, emocionado, que os pais faleceram num acidente de trem na estrada 
de ferro Leopoldina. Espantou-se, pois nunca desnudara tanto a alma para uma mulher. Finalizando, informou-a de tudo o que sabia sobre os Crimes do Penacho. Foi 
a vez de Galatea surpreend-lo, contando que conseguira a proeza de se formar em medicina aos vinte e um anos - agora tinha vinte e sete. Abandonara a prtica havia 
um ano e meio para cuidar da me, que morrera de tuberculose galopante. No tivera coragem de voltar ao trabalho, porque o pai continuava abalado pela perda da esposa, 
que fora sua primeira namorada, l no Recife. Era solteira, no que lhe faltassem pretendentes. A beleza dela atraa-os como o mel s moscas, porm, at ento, seu 
intelecto e independncia assustavam a maioria. Ultimamente vinha sofrendo o assdio de um certo Urbano Negromonti, escritor frustrado e professor de histria num 
liceu em Campo Grande. Ele publicara dois opsculos tediosos: um, intitulado Aproblemtica do mito na filosofia grega, e o outro, A influncia das tribos arianas 
no Imprio Bizantino. Pagara do prprio bolso as edies. A moa percebera, desde o incio, que, ao contrrio do Jac da Bblia, que sete anos de pastor serviu Labo, 
na verdade de olho em Raquel, filha dele, o esqulido mestre-escola fazia-lhe a corte interessado apenas no poeta Euzbio Fernandes. O sonho maior de Urbano era 
a Academia Brasileira de Letras. Para concretiz-lo, era capaz de vencer sua misoginia natural e tentar seduzir-lhe a filha. Sob qualquer pretexto, aparecia para 
uma visita: rosto abatido, ralos cabelos negros e roupa antiga cheirando a desinfetante. Trazia charutos mofados e um buqu de flores murchas. Achava-se injustiado 
e perseguido. No desistia do cerco, apesar do desinteresse explcito da moa e da resistncia de Euzbio a sugerir sua candidatura. Aquela descrio lembrou a Machado 
o estranho que cumprimentara o imortal na Candelria.
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Galatea fizera ps-graduao em neurologia e fora aluna do professor Antnio Austregsilo, fundador da ctedra na Universidade do Rio de janeiro. Despertara a curiosidade 
dos mestres por ser a primeira da turma. A faanha, realizada por uma mulher de beleza invulgar, suscitou o espanto e o interesse do catedrtico. Austregsilo convidara-a 
para ser assistente dele, cargo que Galatea exercera at a me adoecer. O convite nada tivera a ver com as ligaes acadmicas entre Austregsilo e Euzbio Fernandes, 
nem com o fato de Olavo Bilac ser padrinho da moa. Ao ouvir essa revelao, Machado pulou da cama. - Meu Deus! Como  que no pensei nisso antes? O Austregsilo 
 neurologista, psiquiatra e um dos homens mais importantes da Academia! O que  que eu estou esperando? - No sei - disse Galatea, sem se alterar. - E pode ajudar 
com a frase em latim da charada. - Franziu o cenho. - Lascive factum... que sentido tem? - Que eu saiba, nenhum, mas ele conhece latim melhor que ns. As vezes, 
latim, pra mim,  grego. O Coruja animou-se. - Ento, menina? Vamos logo! Estamos lidando com um maluco. Ele mata acadmicos, e at a lngua que usa  morta. O professor 
 doutorem psiquiatria;  provvel que consiga revelar o carter do assassino - decretou, pondo o chapu e saindo do quarto. - Talvez seja melhor se vestir - advertiu 
Galatea. - Assim, enrolado num lenol e de palheta, ele vai achar que o maluco  voc. Se o professor Antnio Austregsilo conhecesse o comissrio Machado Machado 
naqueles trajes, dificilmente deixaria de internlo. DE MDICO, POETA E LOUCO O professor Antnio Austregsilo Rodrigues Lima, famoso pelo dom quase infalvel que 
possua de fazer diagnsticos, acabara de acender o abajur na mesa do seu gabinete, no Sanatrio Botafogo. Vestia um elegante terno cinza com colete e uma gravata 
azulescura. Embora fosse sozinho, nunca descuidava da aparncia. O mdico no s mantinha essa clnica particular, com outros trs colegas, como chefiava o Servio 
de Clnica Neurolgica da Universidade do Rio de janeiro. Austregsilo tinha trabalhos publicados nas revistas de medicina mais importantes do mundo, como La Revue 
Neurologique e L'Encphale, e fora o primeiro a estudar os distrbios do movimento.
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Entretanto, no foram apenas os compndios de medicina que motivaram a entrada de Antnio Austregsilo para a Academia. Ele era tambm ensasta e lanara um livro 
de prosa potica na juventude. Mdico e poeta, portanto, e, para completar o ditado, seu pioneirismo na psiquiatria no o privara de uma "excentricidade": jamais 
abandonara as polainas dmodes, o que lhe valera por parte dos habitus do Caf Nice, que adorava freqentar, o apelido de P de Luxo. Amigo de Bastos Tigre e apreciador 
dos violes da boemia, o professor era sempre bem-vindo nas rodas intelectuais do caf. A linguagem literria de Austregsilo, s vezes um tanto pomposa, levara 
um jovem humorista gacho chamado Apparcio Torelly a galhofar, com sua verve invejvel, do estilo gongrico do mdico: "Pra complicar um texto, o Austregsilo  
capaz de escrever: `A mentira  apenasmente a negana da verdez"'. Dotado de extraordinrio senso de humor, o cientista divertia-se com essas tiradas e encarregava-se 
de espalh-las ele mesmo. Nos fins de tarde, dedicava-se a estudar o histrico dos novos pacientes. Correspondia-se regularmente com os mais renomados psiquiatras 
e psicanalistas da Europa. Fora ele o primeiro a divulgar as idias de Sigmund Freud, em 1916, no seu livro Pequenos males e, havia trs anos, tambm escrevera Psiconeurose 
e sexualidade, sobre as teorias do mdico austraco. O neurologista preparava uma carta para o suo Eugen Bleuler sobre o comportamento de um esquizofrnico, quando 
Galatea e o comissrio Machado Machado se anunciaram. Austregsilo reconheceu de pronto o detetive, da igreja e da sua visita ao Petit Trianon, porm dirigiu-se 
 moa: - A que devo a honra desta visita, depois de ter sido abandonado? - O professor sabe muito bem que no se tratou de abandono e que, se ainda me quiser, pretendo 
voltar assim que meu pai estiver mais resignado. - Estou brincando, claro. E volte quando puder. Voc foi uma das minhas melhores assistentes. Falando nisso, como 
vai seu pai? Nunca mais apareceu na Academia. S o cumprimentei rapidamente na malfadada cerimnia da Candelria. - Olhou para o comissrio. Que pandemnio! Sabe 
que no consegui recuperar meu espadim? Algum mequetrefe deve t-lo surrupiado como souvenir - brincou, apontando duas poltronas de couro para os visitantes. Antes 
mesmo de sentar-se, Machado tirou o bilhete do bolso e colocou-o sobre a escrivaninha do professor.
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- Por acaso, o senhor conhece Brs Duarte? - Nunca ouvi falar. Quem ? - perguntou Austregsilo, olhando a mensagem. - Tambm no sei. A nica pessoa que deu mostras 
de conhec-lo foi Lamaison. Morreu delirando, chamando Brs Duarte de Olavo Bilac. - Tpico do Lauriano - comentou o mdico, sem esconder o desprezo pelo colega 
falecido. Galatea retomou o assunto do bilhete: - E essa frase, professor? Lascive facturo? Nosso latim no d pra tanto - sorriu. Austregsilo examinou o enigma. 
- Lascive facturo... E curioso. Lascive tem vrios significados. O mais bvio vocs conhecem, "lascvia". Mas pode ser "brincadeira", "divertimento", ou mesmo "devassido". 
Facturo, claro, vem de fatio, "fazer". S que tambm  "ato", "obra", e no plural  usado como "feitos notveis" ou "faanhas de guerra". Ccero usou a expresso 
per lasciviam ludificare afiquem, ou seja, "zombar de algum por brincadeira". Escrito por um psicopata, no sei o que significa. -Talvez esteja querendo dizer que, 
pra ele, tudo no passa de um desafio - sugeriu Machado. - O pssaro, por exemplo. Perguntei aos maiores especialistas, e ningum conhece. Vai ver no quer dizer 
nada. Austregsilo discordou do policial: - Pra mim, so pistas, comissrio. Tudo: o pssaro, o nome Brs Duarte e a frase. Pistas evidentes. Pistas que saltam aos 
olhos, s que ns no conseguimos enxergar. Os crimes so muito elaborados, mostram cultura e uma inteligncia superior. Os venenos demonstram um conhecimento profundo 
de qumica, mas no h dvida de que se trata de um revoltado, de um homem que se acha incompreendido pela sociedade. - Ento, por que  que deixa esses indcios? 
indagou o detetive, confuso. - Porque o assassino, na sua esquizofrenia, ao mesmo tempo que no quer ser pego, quer que o mundo saiba quem ele  - concluiu o neurologista. 
- Esse tipo de criminoso sente uma imensa necessidade de reconhecimento. Enquanto no  descoberto, encara tudo como um jogo. Galatea levantou-se e comeou a andar 
pela sala. - Acho que o senhor acaba de colaborar pra traduo da frase. Se ele encara tudo como um jogo, est usando lascive, no como "brincadeiras",  claro, 
mas como "travessuras". Lascive facturo,

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"fazer travessuras". Ele quer nos dizer que est "fazendo travessuras" e que o Brs Duarte faz parte dessas travessuras. Austregsilo encarou Machado, os olhos brilhando 
de admirao. - E por isso que ela tem que voltar a ser minha assistente. - Virou-se para a moa: - Quando voc usou a palavra travessuras, lembrei-me de uma passagem 
de Sneca, na qual ele emprega o termo da mesma forma que o assassino: lascive facturo, "fazer travessuras" exclamou. O comissrio no resistiu e beijou Galatea 
na boca. - Desculpe o meu entusiasmo, professor, e obrigado por sua ajuda. Falta descobrir quem  Brs Duarte e que raio de passarinho  esse. Mas pelo menos deciframos 
parte da charada. Agora, tenho que achar um elo entre as quatro vtimas. - Quanto a isso, no sei dizer se h um arqutipo ou se basta ser acadmico. Nem mesmo um 
psiquiatra consegue conceber o que se passa na cabea das pessoas - ponderou o mdico. - Tem razo, doutor. A alma  um mistrio. Ou, como descreveu melhor o patrono 
da sua Academia, a alma " uma casa, no raro com muita luz e ar puro, mas tambm as h fechadas e escuras, sem janelas, ou com poucas e gradeadas". Antnio Austregsilo 
disfarou o espanto por ouvir, de um policial, uma citao quase textual de Machado de Assis. Machado Machado j se acostumara com a estranheza que seu hbito causava. 
Quando o casal se despedia, o neurologista comentou: - O Penna-Monteiro est trabalhando com voc, no ? Belo cientista. Fui amigo do pai dele, o obstetra. Ele 
ficou triste quando o filho resolveu no seguir a sua especialidade, mas acabou aceitando ao ver que o rapaz tinha a patologia no sangue. Afrnio me falou maravilhas 
desse moo - completou, referindo-se a Afrnio Peixoto, seu colega de fardo e professor de medicina legal. O mestre hesitou por um instante. Em seguida, dirigiu-se 
 prateleira repleta de livros atrs da sua mesa de trabalho e, depois de procurar atentamente, retirou dali quatro compndios encadernados em couro amarelado, com 
a lombada corroda pelo manuseio. O detetive percebeu que se tratava de exemplares muito antigos, impressos em pergaminho. Austregsilo estendeu-lhe os volumes. 
- Nada me faria emprestar estes livros, a no ser uma tragdia como essa. E estou sendo egosta, porque tambm sou uma vtima em potencial. Diga a Gilberto que estude 
bem os quatro - recomendou. Machado leu os ttulos: Trait de la peste, de Ia petite verolle & rougeolle, de Ambroise Par; Trait des poisons, de Maimnides; De
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occulta philosophia, de Heinrich Cornelius, e Baslica chymica, de Oswald Crollius. Jamais ouvira falar de nenhum dos quatro. Vendo a estranheza no rosto do policial, 
o mdico explicou: - So muito antigos e esotricos, mas  capaz que ajudem a identificar os venenos usados nesses homicdios. - Fez uma pausa. Ou ser que tambm 
eu devo dizer Crimes do Penacho? Prenda logo esse homem, porque eu pretendo continuar imortal por muito tempo - brincou o emrito professor e acadmico Antnio Austregsilo 
Rodrigues Lima, servindose da expresso folhetinesca que agora designava os assassinatos. Quando saram do Sanatrio Botafogo, Machado convidou Galatea para passar 
a noite em seu apartamento. A moa recusou. -Adoraria, mas no  o momento de deixar papai sozinho. O comissrio insistiu em acompanh-la. O casal foi namorando 
no vago aberto da Ferro-Carril Carioca, que atendia a linha de Santa Tereza. Desfrutavam a aragem fresca do anoitecer e o panorama da cidade sob o cu estrelado. 
Pela primeira vez, o Coruja enxergou de maneira diferente aquela paisagem. Perito na preveno de envolvimentos sentimentais mais profundos, admitiu que, dessa vez, 
corria o risco de se apaixonar. O luar destacava a alvura da ponte dos Arcos, refletindo suas formas no cho do largo da Lapa. Quebrando a perfeio desse quadro 
de paraso tropical, uma criatura de negro encostada ao Lampadrio Monumental do largo, em frente ao Grande Hotel, observava o bonde sumir de vista pela estrada 
do antigo aqueduto. S ento partiu pela avenida Mem de S, seu vulto nefando diluindose nas trevas da noite. TERA-FEIRA, 6 DE MAIO DE 1924 A MORTALHA EMPAVONADA 
Era madrugada, e o dr. Gilberto de Penna-Monteiro terminava de ler o ltimo dos volumes espalhados em sua mesa. A burocracia da Cria s permitira que se fizesse 
a autpsia do padre Ignacio de Villaforte na tarde que passara, e o corpo tinha apresentado os mesmos sinais de envenenamento dos trs primeiros cadveres, sem contribuir 
para o esclarecimento das mortes. Gilberto retomou a leitura iniciada na vspera, assim que Machado Machado lhe entregara os alfarrbios do professor.

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Antnio Austregsilo tinha razo: naquelas pginas descoradas estava registrado o que ele jamais encontraria nos manuais contemporneos de medicina. E as informaes 
apareciam claramente, ainda que dispersas pelos quatro tratados, dificultandolhe a tarefa. O cruzamento das experincias de quatro mestres da Antiguidade, cujo conhecimento 
cara em desuso, permitiu ao jovem patologista enxergar a luz. Uma fuso equivocada de cincia com magia, ocorrida desde os primrdios da alquimia, causara o descrdito 
de vrias frmulas, as quais no foram estudadas pela cultura oficial das universidades por serem interpretadas como mera superstio ou bruxaria. Penna-Monteiro 
trouxera para o pequeno laboratrio da sua casa no Cosme Velho a batina do padre Ignacio de Villaforte. No queria correr o risco de que a roubassem. Ao ler aqueles 
livros, deu-se conta de quo acertada fora essa deciso. No sabia como, mas o mistrio das mortes estava ligado aos trajes usados pelos acadmicos. Percorrendo 
o Trait des poisons, de Maimnides, esculpio do sulto Saladino, na poca da Terceira Cruzada, fica sabendo como ele salva a vida do monarca, frustrando uma tentativa 
de envenenamento. Os conspiradores utilizam um lquido txico, extrado de razes originrias da China, que, impregnado no turbante, infiltra-se pelos cabelos, causando 
a morte. Aos primeiros sintomas, o mdico obriga o sulto a mergulhar despido numa cuba cheia de acqua vita e sal grosso. Alm disso, impede que Abdul Gamayel, astrlogo 
da corte, ministre ao soberano o antdoto costumrio, que lhe seria fatal. Alis, nesse livro Maimnides alerta sobre o perigo do uso abusivo dos contravenenos. 
J o alquimista alemo Oswald Crollius, discpulo de Paracelsus e autor da Baslica chymica, detmse no estudo da aplicao perversa do mercrio, do chumbo e do 
antimnio. Menciona um ungento preparado com esses metais e gordura suna que, em contato prolongado com o corpo, mata uma pessoa saudvel em poucas horas, deixando-lhe 
a membrana mucosa da lngua com uma tonalidade escura. Uma pista importante aparece em 1568, no Trait de la peste, de Ambroise Par, mdico-cirurgio dos reis de 
Frana por vrias geraes. O cientista, considerado o pai da medicina legal, fala de um substrato feito da pele de cadveres, j em decomposio, de vtimas da 
peste negra, o qual serve como nutriente para um organismo que se alimenta de carne humana. Em De occulta philosophia, clssico do ocultismo durante a Renascena, 
Heinrich Cornelius refere-se a uma composio obtida
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da essncia de amndoas amargas, agregada ao vitrolo. Tal substncia  posteriormente diluda em arsnico, polvilho de cantrida e levedo. Segundo Heinrich, a rainha 
de Ganor, na ndia, assassina seu futuro marido, o raj Bukht, saturando dessa soluo mortfera as vestes nupciais do soberano. O dr. Gilberto de Penna-Monteiro 
no tinha mais dvidas: o veneno que vinha exterminando os membros da Academia estava impregnado na roupa deles. S no compreendera ainda qual era o elemento catalisador 
que desencadeava o poder txico dos ingredientes. Apesar da hora tardia, o clima quente abafava o pequeno espao da sala. Gilberto levantou-se e abriu a janela. 
Deixou que a brisa da madrugada refrescasse o ambiente. De sbito, seu rosto suado iluminou-se: "Claro! E isso! O calor! O agente catalisador  o suor! A transpirao 
 que provoca a absoro do veneno! Quanto mais eles suam, mais os poros se dilatam, e mais eles se intoxicam!". Faltava descobrir quem era o luntico que aprendera 
a juntar aquelas receitas to diferentes numa nova frmula avassaladora. Qualquer um poderia administr-la. Era s aplicar uma leve camada na gola, no punho ou em 
alguma parte do tecido que ficasse em contato com a epiderme da vtima. Voltou a se congratular por ter trazido com ele a batina do padre Ignacio. Com os recursos 
modernos de que dispunha, bastava examin-la para confirmar sua teoria. Lembrou-se de que, ao chegar em casa faminto, depois de passar o dia no Instituto Mdico-Legal, 
concentrado na necropsia, largara a batina em cima do console do saguo da entrada e fora preparar um sanduche na cozinha. Esquecera-a sobre o mvel, ao subir para 
o laboratrio, entretido com os alfarrbios que comeara a folhear enquanto comia. Desceu para busc-la. O porto da frente estava entreaberto, e o ferrolho havia 
sido forado. No lugar da sotaina envenenada, o assassino deixara outro recado zombador: A Fome  inimiga a da Virtode QUARTA-FEIRA, 7 DE MAIO DE 1924 "NO MENOSPREZES 
A SERPENTE POR SER RASTEJANTE. TALVEZ UM DIA ELA REENCARNE COMO DRAGO." PROVRBIO CHINS

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Sentado na sua poltrona favorita, o poeta Euzbio Fernandes segurava Micromgas, de Voltaire, um livro que sempre relia com prazer, pois tratava com muito humor 
da pequenez do homem na escala csmica. No tinha nenhum compromisso marcado e estava sozinho em casa, aproveitando aquele momento de tranqilidade. Aps o rebulio 
de domingo, tivera reunies no Petit Trianon com alguns colegas que pretendiam contratar guarda-costas particulares. Acabou convencendo-os de que seria intil, j 
que no havia costas a guardar. O veneno agia de forma sub-reptcia. O toque da campainha pegou-o de surpresa. No esperava ningum quela hora da tarde. Os ataques 
recentes recomendavam prudncia. Euzbio aproximou-se da entrada sem fazer rudo e espreitou pelo postigo. Vislumbrou o rosto oblongo de Urbano Negromonti, distorcido 
pelo vidro bisotado. Seu alvio no diminuiu a irritao com a visita inoportuna. Conservou a porta semi-aberta, contrafeito. - No sabia que tnhamos marcado um 
encontro. Urbano esgueirou-se pela abertura. Vestia o mesmo terno preto, surrado e fouveiro. Nas mos macilentas, trazia uma lata velha de biscoitos e o indefectvel 
buqu de flores fanadas cheirando a cemitrio. - No tnhamos. E uma surpresa - explicou, com um sorriso amarelo que lhe expunha os dentes estragados. - Perdeu a 
viagem. Galatea no est. O triste mestre-escola pousou a lata e o buqu no aparador, transformando o mvel num jazigo de biscoitos adornado por flores mortas. - 
A verdade  que vim visitar o senhor - disse Urbano, ajeitando com os dedos os cabelos oleosos. Era o que Euzbio Fernandes temia. Acompanhou o professor de histria 
e amante das belas-letras at a sala. Indicou-lhe a cadeira mais incmoda do recinto e afundou na sua amada bergre. - Em que posso ser til? - Bem, no  desconhecido 
do ilustre poeta o meu desejo de pertencer  Casa de Machado de Assis. Nas vrias visitas que fiz  sua filha, insinuei sutilmente essa vontade. Hoje, pretendo ser 
mais peremptrio: o peso dos meus trabalhos exige uma cadeira no Petit Trianon. Conto com seu empenho irrestrito nesta eleio, porque estou certo de que a estatura 
da minha obra no lhe ficou despercebida.

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Fernandes, que no conseguira passar da segunda pgina dos livrecos, assentiu de olhos fechados. Negromonti continuou dissertando sobre sua minguada literatura: 
- Eu destacaria, n'A problemtica do mito na filosofra grega, as belas pginas onde descrevo em mincias a cor prpura da tnica de Scrates. Quanto ao livro A influncia 
das tribos arianas no Imprio Bizantino, a modstia impede-me de salientar o zelo com que tratei a questo do assassinato de Dagoberto n por Pepino, o Gordo afirmou, 
apontando para a barriga de Euzbio, como se ilustrasse o que dizia. O acadmico interrompeu o pretendente: - Meu caro Urbano, a qualidade desses volumes preciosos 
no se discute. S acho o momento inadequado. A disputa vai ser muito acirrada. A explicao no convenceu Negromonti. - Por que muito acirrada, se so quatro vagas? 
Existe um amplo espao de manobra pra nossa campanha. Com um gesto indefinido, o poeta argumentou: - Ampla, sim. Ampla. Mas no se esquea de que ampla  uma palavra 
ambgua. - Como, ambgua?! - estranhou Urbano, a irritao transparecendo na voz esganiada. -Ambgua porque, quanto mais amplo o nmero de vagas, maior o nmero 
de candidatos. Voc tem que entender que, em toda a histria da Academia, isso nunca aconteceu. H que ter pacincia, meu amigo, esperar a ocasio certa. - E arriscou 
um gracejo, sorrindo: - A ocasio faz o fardo... O trocadilho acabou de vez com toda a cerimnia de Urbano Negromonti. O verniz que cultivara tentando a interesseira 
ligao com pai e filha se desfez como num passe de mgica. Ele se levantou, derrubando a cadeira, e, com o rosto transfigurado pelo dio, avanou para o poeta: 
- Quantos, ento?! Quantos desses macrbios idiotas tm que morrer pra que se reconhea o meu talento?! Diga! Quantos?! Por quanto tempo vou ter que fingir interesse 
nessa sua filha mimada, com a cabea cheia de idias progressistas?! Demonstrando agilidade insuspeita num homem daquele tamanho, Euzbio extraiu seu corpo da poltrona 
e enfrentou Negromonti, o rosto quase colado ao dele. O insulto despertou a memria atvica dos heris de cordel, e o sangue ferveu nas veias do velho pernambucano.

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- O qu, seu cabra safado!? Se depender de mim, podem morrer os outros trinta e nove que eu no escolho voc, seu berdamerda! Como  que tem coragem de vir aqui 
vestindo essa gonga fubenta!? Puxe! Antes que eu lhe meta o p na taioba! Escrevedor de fancaria! V! Puxe daqui! O lamentvel Urbano Negromonti, ex-candidato que 
nunca foi, deulhe as costas, lvido, e seguiu cambaleando pelo corredor em direo  porta. Antes de sair, no se esqueceu de recolher as oferendas fenecidas que, 
ao chegar, deixara no aparador da entrada. QUINTA-FEIRA, 8 DE MAIO DE 1924 O ENIGMA Galatea passou a manh em casa, acalmando o pai, que continuava irritado com 
o extravasamento involuntrio de fria nordestina, enquanto Machado Machado, na chefatura, tentava localizar a residncia de Negromonti. Galatea queria devolver 
um camafeu barato que Urbano lhe oferecera como sendo uma jia rara da famlia. Saltava aos olhos o acabamento grosseiro no engaste de lata daquele berloque comprado 
na feira. Educada e gentil, a moa fingira-se deslumbrada com o presente. Mas agora, depois do entrevero, queria restituir o pfio mimo. Contudo, no colgio de Campo 
Grande onde Negromonti alegara ensinar, desconheciam o paradeiro do mestre-escola, que fora despedido por faltar s aulas com uma regularidade superior  dos alunos 
gazeteiros. Urbano sumira sem deixar vestgios. No endereo que constava da sua ficha de inscrio, informaram que ele se mudara havia cerca de um ano. Machado ponderou 
que essa descoberta inslita poderia colocar o pretenso candidato na lista de suspeitos. Ligou para Galatea e marcou um encontro no apartamento dele, convertido 
em sede improvisada das investigaes. O comissrio tinha assuntos relevantes a tratar, inclusive com Gilberto de Penna-Monteiro, com quem s conseguira falar no 
dia anterior, por telefone, ocasio em que lhe narrara o episdio ocorrido entre Euzbio Fernandes e Urbano Negromonti e ficara sabendo das descobertas do amigo. 
Perdera a tarde inteira prestando contas das investigaes ao general Floresta, que, por sua vez, ouvira reprimendas do prefeito, a quem o ministro da justia, por 
ter recebido fortes presses do cardeal, cobrava a soluo do estrepitoso assassinato do padre Ignacio de Villaforte. Sua Reverendssima
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estava furiosa porque os dirios sensacionalistas insinuavam que o crime estaria ligado s atividades poticas de Dorian Gray. Machado relembrou o encontro da vspera. 
O general explodira: - Quero que prendam imediatamente esse Dorian Gray! O Coruja tentara explicar: - Dorian Gray  o padre, general. - No me venha com histrias! 
O nome do padre  Ignacio de Villaforte! - Mas Dorian Gray  nom de Alume, general. - No interessa o cargo! Pode ser nondeplume, almirante ou senador! Quero o homem 
preso! - Perdo, general, nom deplume quer dizer "pseudnimo". O padre Ignacio de Villaforte assinava alguns poemas como Dorian Gray. Floresta no se dera por achado: 
- Eu sei! S estava testando voc! Ou pensa que eu sou ignorante? Mas ns estamos no Brasil, e aqui se fala portugus, entendeu? Chega de mariquices! O comissrio 
Machado Machado ordenou a um escrivo que continuasse no encalo de Urbano Negromonti e partiu ao encontro de Galatea. A primeira coisa que qualquer mulher faz ao 
invadir a intimidade de um homem solteiro  procurar entender o ambiente bablico do seu habitat para, em seguida, dar a esse espao alguma aparncia de harmonia. 
Os interesses eclticos do comissrio Machado Machado transformavam tal empreitada numa tarefa herclea. Em cima da cmoda, dezenas de discos misturavam-se s meias 
e camisas. O dentifrcio, guardado no armrio do banheiro, confundiase com o tubo de graxa lubrificante para pistola. Toalhas de mo conviviam com flanelas de limpeza, 
dependuradas no mesmo toalheiro. A mesa da copa servia para as refeies e de escritrio, com as gavetas lotadas de arquivos de antigas investigaes. A pedido do 
Coruja, Galatea tentava organizar a rea til do apartamento na ladeira do Russell. Numa primeira vistoria, na cozinha a moa encontrou um par de algemas dentro 
do forno e caixas de munio na geladeira. Olhando aquelas balas, lembrou-se de um colega mexicano dos tempos da faculdade. Assistiam  autpsia de um cften morto 
a tiros por uma prostituta, e ela se assustara com os projteis extrados do peito do marginal. Nunca esquecera as palavras sbias do amigo: "No te alarmes, Galatea. 
A las balas no hay que tenerles miedo, hay que tener miedo a la velocidad con que vienen...".

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Dois fatores complicavam ainda mais a arrumao de Galatea: nenhum papel podia ser jogado fora, e pilhas de livros erguiam-se do solo, dificultando a circulao. 
Aqueles montculos espalhados pelo assoalho pareciam formigueiros brotando dos tacos. Paradoxalmente, as estantes da sala estavam vazias. Sentado no brao do sof, 
Machado explicou, apontando o aglomerado de volumes: - E que um dia eu pretendo arrumar tudo isso. - Pois esse dia chegou. Vem me ajudar. - Agora? - muxoxou o detetive, 
escorregando para as almofadas do mvel. - Agora, sim - ordenou a moa. - Vamos comear pela coleo que papai te deu. Anda, sacode a preguia. O comissrio espichou-se 
e estendeu-lhe as obras completas de Euzbio Fernandes e Olavo Bilac. Galatea ia arrumando as edies autografadas na estante de cima. Com gestos delicados, ela 
afagava, uma a uma, as capas de couro dos livros. Conhecia-os de cor. Todos tinham um significado especial em cada momento da sua vida. Crescera junto a eles, embalada 
pela poesia sensvel do pai e do padrinho. Esticou-se na ponta dos ps para alcanar o alto da estante. Um livro de capa desbotada, preso entre os volumes encadernados, 
escapuliu-lhe dos dedos e caiu, quase se desfolhando. Ela sorriu ao ver de qual se tratava e o recolheu com carinho. Sentou-se ao lado do Coruja e mostrou-lhe o 
exemplar maltratado. Na capa, no se via o nome de Euzbio nem o de Bilac. - Conhecia este trabalho? - perguntou. O detetive abriu o livro na primeira pgina e viu 
que, diferentemente dos outros, aquele era dedicado a Galatea. - Foi presente do tio Olavo quando eu era menina - explicou a moa, referindo-se ao poeta como o fazia 
desde pequena. Machado leu o ttulo: - Juca e Chico, de Wilhelm Busch. - Juca e Chico. Traduo de Olavo Bilac, meu padrinho - completou ela, sorrindo como uma criana. 
O policial devolveu-lhe o livro. - J tinha ouvido falar, mas no sabia que a traduo era dele. -  dele, e  sensacional - disse a moa, orgulhosa. - Fico impressionada 
com a maneira como ele pegou o esprito desse alemo doido, que mistura terror e humor num conto infantil. Os versos retratam bem a crueldade dos dois moleques, 
com muita graa. Voc nunca leu mesmo?
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- Nunca. - Tem que ler. Na minha opinio,  uma obraprima pra qualquer idade. E impossvel no rir das estripulias dos meninos, apesar de saber que elas sempre vo 
acabarem desastre. Ouvindo-a falar, Machado tinha a ntida impresso de conhecer uma histria semelhante. De repente, recordou onde vira dois garotos como aqueles: 
nas tiras dos Sobrinhos do Capito, publicadas num dos jornais de Lauriano Lamaison. Veio-lhe  cabea a lembrana das gargalhadas do magnata divertindo-se com as 
traquinagens perversas dos pirralhos. Galatea continuou: - Sabia que os Katzenjammer Kids so inspirados neles? Aqui, os Katzenjammer Kids so chamados de Sobrinhos 
do Capito. Tambm fazem coisas horrveis com a Mama Chucrutz e com o coitado do Capito explicou, rindo. O policial pensou nas ltimas palavras de Lamaison: "Brs 
Duarte  Olavo Bilac". Tinha que haver alguma ligao com aquele livro. A moa refletia em voz alta: - Traquinagens... eles fazem traquinagens, diabruras... travessuras! 
Fazer travessuras, lascive factum! Que coincidncia! Como seus colegas e o general Floresta sabiam, o comissrio Machado Machado no acreditava em coincidncias. 
Levantou-se, impaciente, e comeou a andar pela sala, como fazia quando elaborava uma idia. -Acho que  mais que isso, meu amor. Acho que a chave pra entender a 
charada do assassino est a, na histria infantil. Galatea cerrou o volume nos braos, como se protegesse as duas crianas. - No meu livro!? Meu padrinho no tem 
nada a ver com esses crimes pavorosos. - E claro que no, mas talvez o criminoso se identifique com os moleques. Vai ver que ele pensa que continua criana. Uma 
espcie de Peter Pan do mal. Tirou o volume envelhecido das mos dela e instalou-se a seu lado no sof. - Vamos ter que ler desde o incio. A soluo deve estar 
numa destas pginas. Entreolharam-se ao ver o subttulo. Abaixo do nome Juca e Chico, lia-se, em letras menores, a palavra Travessuras. As primeiras linhas do prlogo 
pareciam confirmar que Machado estava no caminho certo:

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No tm conta as aventuras, As peas, as travessuras Dos meninos malcriados, - Destes dois endiabrados, Um  Chico; o outro  o Juca: Pem toda a gente maluca, No 
querem ouvir conselhos Estes travessos fedelhos! - Certo  que, para a maldade, Nunca faz falta a vontade... A traduo de Olavo Bilac era magistral. Liam-se as 
aventuras como se a obra tivesse sido criada em portugus. O poeta havia adaptado os nomes dos personagens, facilitando a integrao do leitor na narrativa. O livro 
era composto de travessuras descritas com humor e talento extraordinrios, o que amenizava as aes daqueles pequenos demnios, as quais beiravam o sinistro. Impossvel 
no rir das crueldades que eles planejavam com extremo cuidado, mesmo prevendo-se o desfecho trgico. Wilhelm Busch era, antes de tudo, pintor e desenhista. Seu 
trao moderno ilustrava os episdios com caricaturas extravagantes, e os bonecos distorcidos acentuavam o pattico das histrias. Paradoxalmente, a poesia de Wilhelm 
era doce e cruel. Bilac captara com perfeio essa dualidade. Machado e Galatea devoraram os dois captulos iniciais, e ele percebeu que as primeiras "travessuras" 
terminavam com um verso que lhe soava familiar. Era a mesma frase do bilhete que o assassino deixara na sacristia do padre, rabiscado com uma absurda grafia infantil: 
"Houve outra logo depois". - "Houve outra logo depois" - repetiu, em voz baixa, abalado pela descoberta. O Coruja acendeu um cigarro, dando uma longa tragada. Acabara 
de se deparar com a primeira pista real na investigao dos Crimes do Penacho. Tudo por causa de um livro que viera por engano da casa de sua doce Galatea. - Obrigado 
- disse, beijando demoradamente a moa. - Por qu? - Depois eu digo por qu. Primeiro vamos terminar de ler o livro. Iam comear a terceira "travessura", quando 
a campainha tocou. Estavam to entretidos que tiveram um sobressalto, pensando, por um segundo, que eram Juca e Chico que chegavam para puni-los.
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Machado abriu a porta para o dr. Gilberto de Penna-Monteiro. Pela aparncia do legista notava-se que ele no dormia havia tempo. De fato, no pregava os olhos desde 
que descobrira como os venenos eram administrados. Tambm estava furioso consigo mesmo por no ter tido mais cuidado com a batina envenenada do padre. Repetiu para 
os dois o que j havia adiantado mais ou menos por telefone. Exps, em detalhes, de que maneira o suor, dilatando os poros e mesclando-se s substncias txicas, 
agia como gatilho para a ao dos venenos exticos que encontrara nos alfarrbios do professor Austregsilo. Ao escolher a medicina legal e a carreira de patologista, 
no imaginara enfrentar crimes dessa natureza, mais adequados  Idade Mdia. Conscientizou-se da arrogncia dos catedrticos de Cambridge, com quem estudara, que 
desprezavam como crendices tudo o que fugia aos cnones da cincia oficial. Por pudor, no telefonema no revelara o roubo da batina. Sentia-se impotente ante o atrevimento 
daquele assassino louco. Machado e Galatea tentaram consol-lo. - Podia acontecer a qualquer um. Estamos lidando com um psicopata que se arrisca a tudo pra conseguir 
o que quer - afirmou o policial. - Claro! Quem entra no So Joo Batista e no necrotrio atrs dos fardes no vai respeitar uma reles fechadura - completou Galatea. 
- A fechadura da minha casa no  reles! - retrucou Gilberto, amuado como um garotinho de cinco anos. Diante do ridculo daquela reao, os trs caram na gargalhada. 
Machado voltou ao assunto que interessava. Ps Penna-Monteiro a par das descobertas que haviam feito na obra de Wilhelm Busch. Arrancou o livro das mos de Galatea 
e levantou-se. - Eu estava prestes a comear a ler o prximo captulo. Querem ouvir? A moa reclamou: - No  justo. A gente estava lendo junto! - Sim, mas agora 
tenho platia - declarou, pomposo, o detetive. Esto prontos? Penna-Monteiro e Galatea aproximaram-se no sof, como duas crianas ansiosas para ouvir um conto de 
fadas. Impostando a voz, o comissrio Machado Machado passou a ler a terceira travessura: Havia um homem na aldeia, Alfaiate de mo-cheia.

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Pulou alguns versos e continuou: Blusa, capa, sobretudo, Casaca de rabo - tudo Sabia fazer com arte O alfaiate Brs Duarte. Fez-se um silncio sepulcral na exgua 
sala do apartamento. O detetive recriminou-se por no ter investigado mais a srio a derradeira declarao de Lauriano Lamaison. O Baro Amarelo no confundira Brs 
Duarte com Olavo Bilac. Ele tentava avisar que Brs Duarte era personagem do livro Juca e Chico, traduzido pelo poeta. A silhueta minscula de Camilo Rapozo agigantou-se 
na mente do comissrio. Ele no conseguia entender o que compeliria o homenzinho quelas atrocidades. Lembrou-se ento de Machado de Assis. - "O cancro" - citou, 
destacando cada palavra -, "quando ri, ri; roer  o seu ofcio." DA DISCUSSO NASCE A DISCUSSO A conversa entre o casal e o amigo Gilberto continuou at de madrugada. 
Galatea preparou uma ceia com o que havia na despensa de Machado: bertalha e ovos. Regaram o lauto banquete com uma garrafa de Vinha Grande, da Casa Ferreirinha, 
de uma caixa com que um comerciante portugus agradecido presenteara o detetive depois que este prendera o contador que o roubava. No havia unanimidade entre eles 
a respeito da espantosa descoberta. Penna-Monteiro teimava que o alfaiate no correspondia s descries feitas do criminoso. - Voc mesmo o entreviu de longe, da 
janela, quando ele fugiu depois de enfiar a primeira mensagem por baixo da sua porta. As duas testemunhas que ns temos tambm descreveram o assassino como um homem 
alto: o rouba-tmulos e o mendigo bbado da Candelria. Sem ofensa, Machadinho, mas Camilo Rapozo  ano! Galatea nunca vira o alfaiate, porm o pai j lhe falara 
das suas diminutas dimenses e da famosa Alfaiataria Dedal de Ouro, responsvel pelos fardes havia muitos anos. Segundo ele, Camilo era um homem dcil e educado. 
Euzbio fazia restries s blagues dos colegas, que, sem exceo, sempre que a ocasio se apresentava, inclusive quando Rapozo aparecia no Petit Trianon, apalpavam-lhe 
a
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cabea ou as costas, soi-disantpara dar sorte. Riam-se muito do constrangimento que provocavam. O imortal simpatizava com todos os anes. "O gordo e o ano tm muita 
coisa em comum. Reparam logo na gente, sofremos preconceitos por causa do fsico, e nada no mundo  feito  nossa medida", costumava afirmar. Lembrando-se do que 
o pai dizia, a moa reforou a opinio de Penna-Monteiro: - Concordo com Gilberto. Por mais que tenha sido visto de longe, ou  noite, ou na neblina, ou por um bbado, 
ano  ano. O Coruja tentou justificar sua teoria: - Pode ser que tenha um parceiro alto. Depois, sendo o alfaiate oficial da Academia, era a pessoa com mais acesso 
aos fardes e  batina. Pra ele, seria muito fcil envenenar as roupas. - Mas ano  ano... - repetiu Galatea, timidamente. Machado acendeu um Cairo e desafiou 
PennaMonteiro, que j conhecia tudo sobre o caso: - Est certo. Ento sugere outro suspeito. Quem? Manuela PontesCraveiro vestida de homem? O marido dela, o embaixador? 
O francs Maximilien? Urbano Negromonti? Monique travestida, ou Yamamoto, que no chega a ser ano mas  japons? - Qualquer um deles  mais provvel do que o ano 
Camilo Rapozo. Voc est esquecendo o mais importante: o motivo. Pelo menos todos tinham algum motivo pra matar uma das vtimas. O assassino ou assassina pode ter 
liquidado os outros pra encobrir o crime. Pra atrapalhar as investigaes. - Muito risco pra pouco motivo - insistiu o detetive. - E que motivo tem o alfaiate pra 
se livrar dos seus clientes? perguntou Penna-Monteiro. - Quem so Manuela e Monique? Voc no me disse que tinha mulheres envolvidas nessa histria. Andou interrogando 
as duas? quis saber Galatea, sua voz denotando uma ponta de cime. - Mal falei com elas. Tm ligao com o francs e com o embaixador mentiu Machado, acendendo um 
segundo cigarro antes de terminar o primeiro. Deram fim  quarta garrafa do suavssimo Ferreirinha sem chegar a uma concluso. As idias embaralhavam-se, prejudicando 
o raciocnio. As quatro da madrugada, os trs estavam exaustos e embriagados. O comissrio argumentou com Penna-Monteiro, sugerindo que a unha longa e pontiaguda 
de Camilo Rapozo podia ser o instrumento cortante que rasgara a garganta do infeliz capanga de Belurio Bezerra no cemitrio. Gilberto no tinha mais foras para 
discutir.

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Galatea, com a testa franzida, olhava fixamente para a ltima mensagem cifrada, como se quisesse recordar alguma coisa. Machado bocejou, encerrando o assunto: - 
De qualquer forma, amanh vou conversar com Camilo. Tenho uma boa desculpa pra passar na alfaiataria. Ele me prometeu um terno de tropical ingls azul-escuro, de 
presente, e no mandou at hoje. Galatea achou estranho. - E voc aceitou? - Muito a contragosto. Penna-Monteiro, dando sinais de que no conseguiria passar outra 
noite em claro, despediu-se dos amigos. - Preciso ir embora. No agento mais ficar sem dormir. Antes de abrir a porta para Gilberto, o Coruja virou-se para ele 
e para Galatea e declarou, com a lngua enrolada pelo vinho: - Quero terminar nossa discusso lembrando as palavras de sirArthur Conan Doyle, pronunciadas por Sherlock 
Holmes, meu dolo de juventude. Galatea interessou-se: - Que palavras? Apoiado na soleira, Machado recitou, caprichando no sotaque britnico, a frase clssica que 
o dr. Watson ouvira tantas vezes: - "When you have eliminated the impossible, whatever remains, however improbable, must be the truth." Galatea repetiu, numa traduo 
quase simultnea: - "Quando voc eliminou o impossvel, o que restar, por mais improvvel que parea, tem que ser a verdade." O comissrio Machado Machado apagou 
a luz, acrescentando dramaticidade a essa sentena de efeito.

SEXTA-FEIRA, 9 DE MAIO DE 1924 OLHOS DE RESSACA? V, DE RESSACA... Machado acordou ao meio-dia com um aroma forte de caf invadindo o quarto. De olhos fechados, 
a cabea latejando pelo excesso de vinho bebido na vspera, apalpou o espao a seu lado na cama, onde esperava encontrar Galatea. Virou-se e encontrou apenas um 
bilhete sobre o travesseiro:
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"Meu amor, fiz caf e comprei po fresquinho. Aproveite. Fui at em casa porque me lembrei de algo que pode ajudar bastante. Volto logo. Beijos, Galatea." O Coruja 
levantou-se tonto de sono, foi  cozinha e, com a percia desenvolvida por anos de celibato, requentou o caf que a moa preparara. Engoliu um pedao de po, empurrando-o 
goela abaixo com goladas do rubiceo fumegante, e voltou para o quarto. Achou que dormir mais quinze minutos enquanto sua amada no chegava seria uma panacia para 
aquela enxaqueca. Desabou na cama e cobriu-se com os lenis mornos que recendiam  pele da doce Galatea, a de olhos de ressaca, como Capitu. OH! QUE SAUDADES QUE 
TENHO... Assim que chegou a Santa Tereza, Galatea abriu o ba que ficava embaixo da sua cama, depositrio de ternas lembranas da infncia. Fazia mais de dez anos 
que no mexia naqueles guardados. Cada objeto tinha para ela um significado especial. Examinou cartas presas por fitas coloridas, trocas de confisses com amigas 
adolescentes sobre os primeiros namorados. Folheando os cadernos de colgio, riu-se dos trabalhos manuais do primrio, como a extravagante bandeira do Brasil coberta 
de purpurina verde e amarela onde escrevera "Ordem e Progrezzo". Nos lbuns antigos, deteve-se, nostlgica, nas fotografias dela com a me. Perdida em recordaes, 
nem notou as horas passarem e aproximar-se o cair da tarde. Por ltimo, tirou do ba vrios livros amarrados com um barbante grosso. Soltou o n que prendia a pilha 
e vasculhou os textos castigados pelo tempo. Finalmente, achou os volumes que procurava. Esfregou-os na prpria saia para livr-los da poeira acumulada. Eram de 
uma velha edio portuguesa d' Os livros da jngal, de Rudyard Kipling. Lembrou como, quando menina, correra ao dicionrio do pai para descobrir que jngal significava 
"selva". Os livros da selva. No sabia bem por qu, mas o pssaro dos bilhetes do assassino recordara-lhe uma das ilustraes naqueles livros que ela lera e relera 
inmeras vezes, fascinada pelas aventuras de Mowgli, o Menino-Lobo. Examinou as folhas uma a uma, com cuidado, para no pular a informao que buscava. No topo de 
uma das pginas do segundo

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tomo, achou a imagem que transformava sua vaga lembrana em realidade. Viu o ttulo do conto: "Rikki-Tikki-Tavi". Animada pela descoberta, o corao saltando no 
peito, ela leu o primeiro pargrafo: "Esta  a histria da grande guerra que RikkiTikki-Tavi travou sozinho pelas salas de banho do grande bangal, no acantonamento 
militar de Segowlee. Foi ajudado por Darzee, o Pssaro-Alfaiate...". Ilustrando o conto, l estava o desenho do mesmo pssaro que aparecia empoleirado nas funestas 
mensagens. Aquilo confirmava as suspeitas de Machado. O passarinho tinha inclusive um qu de ano. Agradecendo a Kipling pela centelha, Galatea correu com o livro 
para o escritrio do pai, onde estava a enciclopdia. Era bvio que nenhum dos passarinheiros consultados conseguiria identificar a pequena ave: ela no pertencia 
 nossa fauna. Leu o verbete em voz alta: TAILORBIRD. Pssaro-Alfaiate (Orthotomus sutorius) -Pssaro canoro, freqente nos jardins da ndia, em Java e no sul da 
China. Assim chamado por sua habilidade de costurar as bordas de vrias folhas para construir o ninho. Com seu bico longo e fino, ele antes perfura as folhas recolhidas 
para junt-las com fibras de plantas, seda de insetos ou at, encontrando janelas abertas, com pedaos de linha roubados das residncias. O ninho  preso por laadas 
separadas que o pssaro-alfaiate amarra pelo lado externo. "Bico longo e fino...", pensou Galatea, lembrando-se da descrio que seu amado fizera da unha do alfaiate. 
"Preciso ver de perto esse famoso ano." Olhou o relgio e viu que passara boa parte da tarde distrada, embalada pelas recordaes. Tentou ligar vrias vezes para 
a casa de Machado, mas ele no atendia. Decerto j sara. Lembrou que planejava uma visita ao alfaiate: quem sabe no o encontraria l? Resolveu esper-lo na rua 
da alfaiataria. Talvez surpreendesse algum movimento suspeito, ou mesmo a chegada de um cmplice. Caso Rapozo a visse antes do Coruja aparecer e desconfiasse de 
algo, ela inventaria que viera trazer um recado do pai. A paixo, que Galatea sentia pela primeira vez, impedia-a de enxergar o perigo da empreitada. Queria participar, 
ajudar o homem que amava. Como no conseguia refletir claramente, preferiu fazer o que mandava o corao. Na agenda de Euzbio, que no estava em casa, achou o endereo 
da Alfaiataria Dedal de Ouro.

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Enquanto partia s pressas, levando o livro, gritou um recado para Maria Eugnia, a velha bab portuguesa, meio surda, que fazia quase parte da famlia: - B Maria, 
se o doutor Machado ligar, diga que eu me encontro com ele na Alfaiataria Dedal de Ouro. - Na tabacaria? Andas a comprar cigarros? O menina, v l o que ests a 
fazer! Tu sabes que uma mooila de recato no fuma! reclamou a portuguesa. - No, b! E alfaiataria! - gritou Galatea. - Pode deixar que ele entende - repetiu, chispando 
casa afora. Maria Eugnia fechou a porta, resmungando: - Essa agora! Uma rapariga de bem meter-se a fumar! A culpa  do senhor doutor Euzbio, que acha piada nesses 
modernismos da cachopa. Indiferente aos riscos que poderia correr, Galatea seguiu para a cidade, rumo  alfaiataria de Camilo Rapozo. O BELO ADORMECIDO Se o comissrio 
Machado Machado pudesse calcular que os quinze minutos que pretendia cochilar se estenderiam at as quatro e meia da tarde, no teria voltado a dormir. Nada compensava 
o sombrio despertar que experimentou quando verificou que Galatea ainda no chegara. No fora apenas o vinho que o fizera perder a hora. Havia dias que estava com 
o sono atrasado devido aos Crimes do Penacho. Deu-se conta de quo vazio ficara o pequeno apartamento sem aquela moa que conhecera poucos dias antes. Sua ausncia 
inesperada pareceu-lhe um mau pressgio. Ela no passaria tanto tempo fora sem pelo menos telefonar. O Coruja tomou um banho de chuveiro e vestiu-se sem fazer a 
barba. Tentou ligar para Gilberto, na esperana de que ele soubesse do destino de Galatea. Sua ansiedade aumentou quando percebeu que a linha estava muda, confirmando 
as stiras feitas na revista Al!... Quem fala?. Os cariocas j aceitavam com resignao esses defeitos. Era provvel que ela tivesse tentado chamlo e no conseguira 
completar a ligao. Largou tudo e foi bater  porta do vizinho. - Preciso usar seu telefone. E urgente. Sabendo que Machado era da polcia, o vizinho levou-o at 
o aparelho, na sala. O comissrio discou, nervoso, o nmero de Penna-

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Monteiro. O mdico interrompeu um exame de corpo de delito para atend-lo. - O que houve? - Galatea sumiu. - Como assim, sumiu? - indagou Penna-Monteiro, preocupado 
com a angstia que transpareceu na voz do amigo. - Sumiu! Ficou de ir a Santa Tereza, buscar alguma coisa relacionada com a investigao, e at agora no voltou 
- explicou o policial, omitindo que dormira alm da hora. - Bom, agora o mais importante  ficar calmo. Estou terminando o exame e encontro voc a. No deve ser 
nada srio. Mulher sempre atrasa - mentiu Gilberto, tentando confort-lo. - Enquanto isso, liga pra casa dela. Quem sabe ela no est l? Machado percebeu que no 
estava raciocinando direito. Evidente que a primeira coisa que devia ter feito era telefonar para Galatea. Acendeu um cigarro para clarear as idias e, pedindo licena 
ao vizinho, que comeava a se sentir partcipe de uma investigao, discou o nmero de Santa Tereza. Surpreendeu-se com o sotaque lusitano da voz que atendeu o telefone. 
- Estou? -Aqui  o comissrio Machado. Por favor, eu queria falar com a dona Galatea ou com o senhor Euzbio Fernandes. - No se encontram. O senhor doutor Euzbio 
volta  noitinha. - Fez uma pausa. -  o doutor Machado ao aparelho? - Sim, senhora. - A menina Galatea deixou um recado pro senhor. O policial animou-se: - Graas 
a Deus! Qual  o recado? -A menina saiu a correr com um livro nas mos e disse que ia ter consigo pra comprar os cigarros. - Que cigarros?! - Isto tambm gostava 
eu de saber. Pois no acha um absurdo uma rapariga de boa famlia pr-se a fumar? Machado procurou no perder a pacincia. - Por favor, com quem falo? - Comigo. 
O Coruja respirou fundo. - Sei, mas qual  o seu nome? - Maria Eugnia. Fui bab da menina. O detetive lembrou-se da histria que sua amada lhe contara no dia em 
que se conheceram.

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- Dona Maria Eugnia, acho que est havendo um equvoco nesse recado. A Galatea no fuma. - Pois que no fuma sei-o eu. Estou a rezar pra que no comece. Se calhar, 
a menina quer fazer-lhe um mimo. O senhor fuma, pois no? A invejvel fleuma de Machado, herana paterna aprimorada por anos na polcia, comeou a dar mostras de 
que estava prestes a se extinguir: - Dona Maria Eugnia, eu tenho certeza de que a Galatea no foi comprar cigarros. - Sero charutos? O senhor doutor Euzbio fuma 
charutos. Mas pode ficar tranqilo. Nem se apoquente,  homem, que a menina vai l ter consigo afirmou, querendo tranqiliz-lo. O efeito dessa conversa prolongada 
foi deixar o comissrio mais impaciente. Afligia-lhe o tempo que passava sem ter notcias da moa: cada minuto aumentava a possibilidade de que ela corresse perigo. 
Insistiu: - Dona Maria Eugnia, por favor, procure reproduzir a frase exata. Puxando pela memria, a portuguesa tentou a faanha: - Ouve l, calma, fique tranqilo 
que a menina falou que ia encontrlo na tabacaria. Um suor frio aflorou  testa de Machado. - Dona Maria Eugnia, preste bem ateno: em vez de " tabacaria", no 
foi " alfaiataria"? - Exatamente:  ta-ba-ca-ria. - ALFAIATARIA - berrou o Coruja, exaltado. - No grite que no sou surda! Escutei muito bem o que ela disse. Inclusive 
achei o nome do tal comrcio uma patuscada. - E qual era? Dona Maria Eugnia enunciou com clareza no seu castio sotaque lusitano: - A Tabacaria do Pedal de Couro. 
O detetive bateu o telefone, amaldioando o tempo perdido por causa daquele qiproqu digno dos melhores vaudevilles. Penna-Monteiro chegou quando ele, cansado de 
esper-lo, j se preparava para sair. Ainda abalado pela notcia, Machado relatou a temeridade que Galatea havia cometido. - O pior  que a culpa  minha. Ontem 
comentei que hoje ia falar com o Rapozo. E se ele desconfiar de alguma coisa? Estou com um pssimo pressentimento. Vamos logo pra l. O legista argumentou:

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- A esta hora a alfaiataria j deve estar fechada, e no temos nenhuma prova de que Galatea esteja com ele. Com que pretexto vamos entrar? - Pretexto nenhum. Eu 
arrombo a porta. Voc se esqueceu do estado de stio? Animado pela agitao, o vizinho prontificou-se: - Posso ir com vocs. Penna-Monteiro perguntou: - Por qu? 
Voc  chaveiro? - No, dentista. Mas sou muito curioso. Estou louco pra saber como  que essa histria vai acabar. Sem se dar o trabalho de responder, os dois desceram 
para a rua, entraram no carro de Gilberto e dispararam pela ladeira do Russell. INVASO DE DOMICLIO Quando Galatea chegou  rua dos Invlidos, os ltimos raios 
de sol arroxeavam o cu, anunciando 0 lusco-fusco. O casaro ficava no centro do terreno, no final da rua, cercado por um extenso e malcuidado jardim. As portas 
da alfaiataria estavam fechadas. No havia sinal de Machado. A velha manso de trs andares funcionava como loja, oficina e residncia. O que ningum sabia  que 
o mesmo prdio abrigava na mansarda o infame laboratrio de Veneficor, mais conhecido como Camilo Rapozo, o magnfico alfaiate da Academia Brasileira de Letras. 
Cosendo-se aos muros como uma sombra, a moa aproximou-se da casa e, atravs dos basculantes do sto, viu luzes que bruxuleavam. Ignorando o fato de que essa aventura 
poderia ameaar-lhe a vida e de que talvez seu amor estivesse nas mos de um assassino, ela examinou, uma a uma, as janelas do trreo. Notou que, numa delas, a castigada 
persiana estava a ponto de se soltar dos gonzos. Usando o sapato como alavanca, conseguiu for-la e, num movimento gil, pulou para o saguo escuro da alfaiataria. 
Foi tateando em direo  escada, seguindo a rstia de luz que vinha dos andares de cima. Parou quando atingiu o segundo patamar, perdida na penumbra. Estendeu as 
mos, tentando se orientar, e esbarrou na parede arcaica, fria e mida em conseqncia dos tratos causados por goteiras antigas. Num gesto de repulsa, recuou e, 
ao faz-lo, sentiuse enlaada por dois braos fortes que a mantiveram imvel. Um leno encharcado de clorofrmio que lhe cobriu o rosto abafou seu grito de pavor.

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O MESTRE DO VOLANTE Ao contrrio de Machado Machado, que odiava automveis, o dr. Gilberto de Penna-Monteiro considerava-se um dos melhores volantes do Rio, do Brasil 
e, por que no dizer?, do mundo. Pilotava com destreza sua Bugatti Royale, afugentando animais e transeuntes. O hobby de Gilberto era cuidar do motor daquela verdadeira 
jia. Passava as manhs de domingo numa roda de aficionados, traduzindo para os mecnicos profissionais as revistas especializadas, pondo-os a par das ltimas inovaes 
do mundo automobilstico. Participara de corridas e conservava seus trofus num armrio da sala. Para o policial, era uma tortura sentar-se ao lado do amigo na sua 
mquina voadora. Mesmo naquele momento aflitivo, em que desejava chegar logo  rua dos Invlidos, estava tenso em virtude da conduo audaz do rei das pistas. Ia 
anunciando os obstculos, como um navegador: - Poste na curva. Carroa na esquina. Bonde  direita. Cachorro na rua. Gilberto procurava acalm-lo: - Fica tranqilo, 
que eu guio at de olhos fechados. - Talvez fosse melhor. - Quando  que vais admitir que sou um excelente motorista? - Jamais. Se, em vez de comissrio, eu fosse 
guarda, ia te multando daqui at l. Nem aquela conversa tola conseguira afastar a obsesso que atormentava o Coruja pelo desaparecimento de Galatea. No se perdoaria 
se algo terrvel lhe acontecesse. A rua dos Invlidos nunca parecera to distante. Machado percebeu o quanto amava aquela mulher ao ouvir sua prpria voz pedindo 
ao amigo, numa splica: - Pelo amor de Deus, Penninha, vai mais depressa. O MALQUIMISTA Cada um v o que pareces, poucos sentem o que s. Os homens devem ser acarinhados 
ou destrudos, pois que se vingam de pequenas injrias. Das grandes, no podem. MAQUIAVEL, O Prncipe

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Galatea acordou com o rudo de uma melodia repetitiva que lembrava um cantocho medieval. Vinha da outra extremidade do salo, que, pelos basculantes, ela identificou 
como sendo o sto da alfaiataria. Sua fronte latejava, e ela se sentia nauseada pelo clorofrmio. Candelabros e crios negros imensos espalhados pelo aposento iluminavam 
a mansarda. A moa piscou vrias vezes, ajustando a viso  semi-obscuridade. Deu-se conta de que estava com as mos e os ps amarrados, deitada num desgastado cho 
de tbuas corridas. Ao lado dela, jazia o Livro da jngal, aberto na pgina do pssaro-alfaiate. Levantou-se com dificuldade, apoiandose nas costas de uma cadeira. 
Percebeu que o som vazava de uma porta no fundo da gua-furtada. A cantiga que ouvia a aterrorizou. Constava apenas de uma frase em latim, seguida pela traduo: 
Impia sub dulci melle venena latem. Sob o doce mel escondem-se venenos terrveis. Veneficor abriu a porta do seu "Salo Francs" e deixou-se ficar parado um instante, 
o contorno do corpo projetado pela luz atrs dele. Vestia uma longa bata de cetim negro que ia at o cho. Ao ver aquela assustadora figura gigantesca, de quase 
dois metros, Galatea perguntou-se: "O ano? Onde est o ano?". O Envenenador aproximou-se sem pressa, as passadas rgidas ecoando no assoalho carcomido. A demncia 
nublava seu olhar, transfigurando-lhe as feies. Galatea registrou o objeto metlico e pontiagudo como um punhal que lhe envolvia o dedo mnimo, cobrindo uma unha 
exageradamente longa. A pequena lmina afiada resplendia  luz das velas. O homem apontou com aquele dedo revestido de ao para a imagem do pssaro no livro aberto. 
- Est procurando por Camilo Rapozo? - perguntou, a voz suave mascarando o desatino. - Estou - disse ela, num sussurro. - Achou. Unindo o gesto  palavra, abriu 
a longa tnica e revelou as pernas de pau que o deixavam com quase um metro e noventa de altura. Elas se diferenciavam das andas dos malabaristas, porque tinham 
o feitio de pernas normais e estavam de botas. O cano longo dos calados terminava na pequena plataforma onde o alfaiate apoiava os ps. Na parte de trs das andas, 
uma haste subia at a dobra do joelho, permitindo que o ano as fixasse com largas correias de couro. O mendigo bbado que o vira saindo da Candelria fora correto 
na descrio feita a Machado. As pernas de madeira davam ao assassino uma andadura marcial.
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- Camilo Rapozo. Nas horas vagas, Veneficor. Galatea desabou bestificada numa cadeira, esquecida das cordas que lhe machucavam os pulsos e os tornozelos. Veneficor 
sentou-se ao lado dela, desatou as andas, lanou-as longe e transformou-se em Camilo Rapozo. A moa acompanhou incrdula a metamorfose. Tomando seu espanto por admirao, 
Rapozo vangloriou-se, enquanto desfilava pelo laboratrio: - No  fcil ficar to  vontade em cima de andas. Requer muita prtica. Comecei quando era criana, 
num circo das redondezas. Fiquei amigo dos palhaos, e todos os dias treinava com eles. Aquelas no eram assim sofisticadas. Eram apenas pernas de pau comuns, bem 
mais compridas. Eu praticava com andas de um metro e vinte. As que uso agora tm sessenta centmetros, por isso fico to  vontade quando subo nelas. Galatea adulou 
o assassino e mentiu sobre o motivo da sua vinda: -  fascinante. No sabia que algum podia ter tanta habilidade. Mas diga-me: por que me deixou desacordada e me 
amarrou? Vim aqui s pra trazer um recado do meu pai. Ele quer saber se no d pra alargar mais um pouco o seu fardo. Sou filha do doutor Euzbio Fernandes. Rapozo 
irritou-se. - No minta! O obeso do seu pai est farto de saber que no h mais o que alargar naquele fardo. No fao milagres! - Voc est enganado. Eu... Camilo 
interrompeu-a: - Eu sei que voc est de namorico com aquele detetive de roupa esbodegada. Segui vocs dois vrias vezes! - Pois . Inclusive ele ficou de vir aqui 
ainda hoje - informou Galatea, numa tentativa de intimidar o ano. - Vai continuar mentindo? Eu vi voc fuando sozinha em volta da minha casa! Pensa que sou idiota? 
Galatea comeou a se preocupar com a demora de Machado. Por onde ele andaria? Ser que lhe acontecera algo nefasto? Decidiu ganhar tempo: - Eu sei que voc no  
idiota. Precisa ser muito inteligente pra conseguir fazer tudo o que j fez. Um homem assim no tem nada de bobo. A palavra bobo acionou um escaninho da alma do 
ano, que vociferou: - E claro que eu no sou bobo!

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Comeou, ento, a girarem volta dela, pulando enquanto entoava uma cantiga de roda, com voz infantil: - Eu no sou bobo! Eu no sou bobo! Eu no sou bobo! - Estacou 
e encarou-a, os olhos faiscando de dio insano: - Como foi que descobriram? - Juca e Chico. O ano recuou, enraivecido. - Aquele tolo conhecia Juca e Chico? Galatea 
tratou de apazigu-lo, fingindo-se de cmplice: - E claro que no! Sua idia foi coisa de gnio. As pistas que voc deixou foram muito difceis: Brs Duarte indicando 
um alfaiate, e o pssaro-alfaiate, quase desconhecido. Fui eu que descobri, mas por acaso. Juca e Chico  o meu livro de cabeceira. Adoro as travessuras dos meninos. 
- Eu tambm! Eu tambm! Sou igualzinho a eles. Pequeno, e fao travessuras. Tudo o que eu fao so travessuras. Galatea sentiu que Rapozo estava fisgado pelo assunto 
e, utilizandose do treino que tivera como psiquiatra, perguntou, serena: - Quem foi que lhe mostrou o livro? Camilo Rapozo sentou-se de novo ao lado dela, 0 olhar 
perdido, a voz voltando ao normal, e relembrou sua infncia: - Minha me. Eu ainda era criana. Mame fez tudo por mim. Foi ela quem me criou, me ensinou tudo. Inclusive 
a ser alfaiate, porque eu perdi meu pai muito cedo, nem me lembro dele. Ela teve que tomar conta da alfaiataria at eu aprender a profisso. Minha me comeou a 
ler as histrias pra mim no dia que eu descobri que era ano. - Sua me no era... mignon? - perguntou Galatea, lanando mo de um eufemismo. - No. Meu pai, sim; 
meus avs, bisavs e tataravs, todos anes, todos alfaiates. Mame, no. Mame era linda, alta... - E como foi que voc descobriu? - No colgio. Um dia, os outros 
meninos comearam a gritar pra mim na hora do recreio: "Ano! Ano! Olha o ano!"... Quando cheguei em casa, perguntei pra minha me se eu era ano. Mame me sentou 
no colo dela e contou. Contou tudo. Depois disse que no era ruim ser pequenino e leu a primeira travessura do Juca e do Chico. Imediatamente, eu quis ser como eles. 
Galatea continuou, conservando o tom desapaixonado e usando um tratamento mais ntimo: - E os venenos? Como  que voc adquiriu esse conhecimento extraordinrio 
sobre os venenos? - Minha me era gr-sacerdotisa da Veneficorum Secta.
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- Seita dos envenenadores? - traduziu a moa. - Parabns pelo latim - elogiou Rapozo, com um sorriso maligno. Galatea, calculando que Machado investigava seu paradeiro, 
mais uma vez tentou ganhar tempo. Para tanto, espicaou a vaidade do ano: - Incrvel! Que seita fantstica  essa? Veneficor passou a dissertar, como um mestre 
dirigindo-se ao discpulo preferido. -  uma sociedade secreta muito antiga. Foi criada na Idade Mdia por Isidoro de Carcassonne, um monge guerreiro portugus, 
que escapou ao massacre dos Cavaleiros Templrios. Meu tatarav foi o primeiro da famlia a ingressar nessa seita. Desde ento, todos os Rapozo fizeram parte dela. 
O fato de ser ano facilita os envenenamentos, porque afasta as suspeitas. O ano  sempre tido como uma figura ridcula, inofensiva. - No diga isso. "Pequena  
a coroa, no quem a porta." - Lindo! De quem ? - Shakespeare - mentiu Galatea, que inventara a frase na hora. O alfaiate prosseguiu: - Enfim, foi numa cerimnia 
da Secta que meus pais se conheceram. Hoje, no h mais essas reunies. Sou o ltimo membro vivo da Veneficorum Secta no Novo Mundo. - E uma pena. Mas como  que 
voc acumulou tantos conhecimentos? - Durante anos, minha me foi me transmitindo os segredos da seita. Ela me fez decorar as frmulas, antes de morrer provando 
uma nova poo por minha causa. Estava tentando descobrir um preparado que me fizesse crescer. Em vez disso, a soluo diluiu todas as cartilagens e os rgos do 
seu corpo. Teve uma morte lenta, urrava de dor. Camilo Rapozo encerra a conversa bruscamente e aproxima-se do imenso caldeiro que borbulha pendurado sobre o forno. 
O fulgor da loucura volta-lhe ao semblante. - Bem, se me d licena, est na hora de preparar uma travessura. - Juca e Chico  s fico! - argumenta Galatea, em 
desespero. - Era. Agora  realidade. A alma dos meninos mora em mim. Ns somos a sacrlega trindade! Endoidecido, ele lana lquidos pestilentos e estranhos ps 
de cores escuras no caldeiro, enquanto improvisa: Ai de ti, scia imoral, Que julga ser imortal.
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Pois  hora da diabrura, De mais urna travessura. A PEDRA NA ENCRUZILHADA Comprovando que o destino tem por ofcio ser imprevisvel, uma surpresa castigou os dois 
companheiros a caminho da Alfaiataria Dedal de Ouro. Quando a Bugatti atingiu a rua Mem de S, prximo  rua do Lavradio, o possante motor de oito cilindros em linha, 
com quinze litros de cilindrada, obra-prima da engenharia automobilstica, inveja dos construtores europeus, tossiu repetidas vezes e morreu, exalando um tmido 
suspiro. O pnico tomou conta do Coruja, que saltou do carro e se ps a chutar os pneus. Penna-Monteiro tambm saiu do veculo e, enquanto abria o cintilante cap 
de metal, buscou tranqiliz-lo: - Calma. Muita calma. O importante  conservar a calma. Machado refreou o mpeto de transferir os pontaps para as canelas do amigo. 
Gilberto comeou a analisar o problema: - No pode ser nada grave. Fiz uma reviso geral domingo passado. Deve ser um probleminha no distribuidor. Examinou os cabos 
e constatou que no era. Como sempre acontece quando um automvel fora do comum enguia, os curiosos e palpiteiros apareceram com a rapidez de formigas atrs de 
acar, despertado o mecnico latente em cada membro do chamado sexo forte: - Pra mim  o acionamento da rvore de comando. - Est me cheirando a virabrequim. - 
Vinha batendo biela? - Pode ser coroa e pinho. - Meu cunhado  chofer de praa. Garanto que  carburador. - Nada disso. E pistom. Deve ter fundido o anel de segmento. 
Gilberto verificava cada diagnstico, mesmo os mais absurdos, e nada encontrava. As roupas cobertas de graxa, ele se arrastava embaixo do veculo. At que, em desespero 
de causa, Machado Machado, o nico que no entendia nada de motores e detestava automveis, sugeriu: - No ser falta de gasolina? Penna-Monteiro foi olhar o tanque, 
e era. No havia nenhum posto de abastecimento  vista. Gilberto atribua o incidente ao que chamava de "peripcias de percurso". Como estavam perto da rua dos Invlidos, 
Machado e ele abandonaram a
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Bugatti Royale, menina-dos-olhos do legista, e seguiram a p, correndo como alucinados. O detetive comentou: - Quem devia ficar na rua dos Invlidos era esse seu 
carro. Vendo o quanto o amigo estava irritado com sua distrao, PennaMonteiro inventou: - Eu juro que enchi o tanque antes de sair de casa. Machado olhou para ele 
e, sem pestanejar, citou Machado de Assis: - "A mentira  muita vez to involuntria como a transpirao." REVELAES Veneficor pretendia encerrar sua misso de 
envenenador no dia seguinte, quando completaria a mais gratificante de todas as "traquinagens". Depois, voltaria a ser apenas o artfice da Alfaiataria Dedal de 
Ouro, o ano inofensivo que todos ignoravam, a no ser nas ocasies em que lhe requeriam os talentos com a agulha, a linha e a tesoura. Por enquanto, desfrutava 
daquela reduzida platia compulsria. A solido era a perene companheira de seus atos ignbeis. Nunca pudera exibir-se como fazia agora, sem constrangimentos. Certo 
de que a nica espectadora dele no sairia dali com vida, deleitava-se com o som da prpria voz e esmerava-se em torno do caldeiro fumegante, preparando a frmula 
para a derradeira "travessura". - Como lhe disse, tudo comeou com o meu tatarav, Antnio Gomes Rapozo, que era alfaiate do marqus de Pombal. Foi quem financiou 
a primeira alfaiataria, l em Lisboa. Por indicao do marqus, ele passou a fazer as roupas do rei, tornando-se artfice de cortes e costuras da famlia real. Dom 
Jos t achava tanta graa em ter um ano por perto que nomeou meu tatarav tambm bobo da corte. - Seu tatarav era bobo? - A moa corrigiu a gafe: - No bom sentido, 
 claro. - Pois . S porque era ano. Ficou to humilhado que aceitou a proposta feita por um primo do duque de Aveiro pra envenenar o rei, que morreu, digamos, 
em circunstncias misteriosas - explicou Veneficor, com um sorriso de menino arteiro. - Foi assim que seu tatarav conheceu a Veneficorum Secta deduziu Galatea. 
- Muito bem - confirmou Rapozo. E ironizou: - Voc aprende rpido... Descendo pela Mem de S, Machado e Gilberto cruzam a rua do Lavradio. Camilo prosseguiu:
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- A partir da, a famlia ingressou na seita, e a saga continuou. Meu bisav, Manoel Rapozo, o Manuca, tambm alfaiate, foi vtima do mesmo ultraje. Teve que acumular 
as duas funes. Por mais que ele suplicasse, o prncipe dom Pedro, casado com Maria i, no permitiu que abandonasse o cargo de bobo da corte pra se dedicar somente 
 costura. O Manuca envenenou o insensvel em 1786, e o filho dele, dois anos depois. Antes disso, contaminou o herdeiro com um ataque de bexigas purulentas. - Se 
ele j pretendia matar o rapaz, por que as bexigas purulentas? - Por prazer. - Entendo - assentiu Galatea, sempre procurando ganhar tempo. - Mas o melhor foi o que 
ele fez com a rainha Maria t. - A me de dom Joo m, Maria, a Louca? - E por que  que voc acha que ela ficou maluca? - revelou, rindo, Camilo Rapozo. Machado e 
Gilberto chegam  altura da rua Gomes Freire. Com admirao fingida, Galatea compeliu o ano a ir adiante: - Quer dizer que a doena da rainha Maria, a Louca, foi 
obra do seu bisav? - Claro! Pra mim, o seu trabalho mais sutil. Levou anos envenenando a infeliz. Depois das mortes suspeitas do marido e do filho mais velho, a 
guarda palaciana revistava todos os visitantes. Mas Manuca era o bobo, o palhao. Ningum lhe dava muita ateno. Ele carregava o veneno escondido nos guizos do 
chapu. - Muito inventivo. E que veneno  esse que causa loucura? - O peiote. Um cctus que provoca alucinaes, trazido do Mxico em 1650 por frei Bernardo de Saraga, 
um frade proscrito filiado  seita. O boto do peiote  consumido, em doses pequenas, pelos xams da tribo Huichol nas cerimnias sagradas, mas, usado em grandes 
quantidades, durante muitos anos, causa danos irreversveis no crebro. Quando meu bisav faleceu, fazia muito tempo que a velha j estava completamente louca. Camilo 
atirou mais lenha no forno que esquentava o caldeiro. Galatea incentivou-o a continuar: - E uma lstima que nada disso possa constar dos livros de histria. E seu 
av? Machado e Gilberto entram na rua dos Invlidos. O ano prosseguiu: - Sim, meu av, Apolinrio Rapozo, que veio pro Brasil com dom Joo m. Depois que meu bisav 
morreu, ele assumiu o posto de artfice-alfaiate-mor de Sua Majestade. Dom Joo no era chamado de "o Clemente" sem motivo. Atendeu aos pedidos feitos por
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intermdio da rainha Carlota Joaquim e alforriou meu av da funo de bobo da corte. Galatea comentou: - Imagino que dom Joo vi nunca soube do risco que correria 
comendo seus frangos se no tivesse consentido. - Muito bem, grau 10! - brincou Camilo, como se desse nota a um aluno diligente. - Obrigada - agradeceu Galatea, 
tentando dissimuladamente se desvencilhar das cordas que a machucavam mais e mais. - Gomo recompensa, sua morte vai ser bem rpida - garantiu o ano, enquanto molhava 
numa proveta com um lquido negro a ponta de ao do esporo que lhe cobria a unha. - Pensei que voc estivesse comeando a gostar de mim - arriscou ela, disfarando 
seu pavor. Precisava desesperadamente alongar aquela conversa surreal. - Gosto tanto que vou lhe contar a ltima travessura - disse Veneficor, e aproximou-se, sorrindo. 
A tnica, longa demais agora que ele no usava as andas, varria as tbuas do assoalho, deixando um rastro sulcado e fazendo um rudo sinistro. - Amanh, vai haver 
uma sesso solene no Petit Trianon, com a presena de todos os acadmicos. Inclusive seu papai. - O que  que voc vai fazer? - perguntou Galatea, dominada pelo 
medo. - Um carinho. Vou me encarregar pessoalmente do ch. - Com um gesto elegante, mostrou o caldeiro, de onde se evolava um odor ftido, e explicou, como um chef 
de cuisine falando de iguarias: O espantoso dessa frmula  que, no final, o cozimento emite um cheiro irresistvel de jasmim. S que, na minha receita, o lquido 
derrete os rgos e as cartilagens de quem bebe. Uma homenagem pstuma a mame. A moa refreou a nusea. O Envenenador continuou: - No acha maravilhoso que a minha 
ltima travessura termine da mesma forma que o livro estpido do Belurio Bezerra comea? Ela lembrou que, no livro, todos os acadmicos morriam bebendo o ch envenenado. 
Camilo recitou de cor um trecho da primeira pgina do Assassinatos na Academia Brasileira de Letras: - "`Finita la commedia!' Divertiu-se vislumbrando a contradio 
no cabealho dos dirios do dia seguinte: MORTOS TODOS OS IMORTAIS. Sim. Os quarenta Imortais da Academia." Camilo deixou cair no cho a tnica incmoda. Vestia 
um calo preto de malha, justo como o dos atletas de luta greco-romana. Seu
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torso descoberto mostrava uma musculatura invejvel, e ele tinha as pernas torneadas com harmonia. O corpo do alfaiate era uma miniatura perfeita do David de Michelangelo. 
Galatea surpreendeuse. No havia dvidas de que Camilo Rapozo era um homem bonito. Um homem bonito e pequeno que lhe ameaava a vida. Levantou-se e, mesmo com os 
movimentos cerceados, experimentou se afastar aos pulos. Encetaram uma caada  volta do caldeiro, onde a presa era maior que o predador. A CARGA DA BRIGADA MAIS 
QUE LIGEIRA No exato momento em que Veneficor consegue pegar a moa pelos cabelos para lhe dar a estocada mortal, a pesada porta do sto vem abaixo. O comissrio 
Machado Machado e Gilberto de Penna-Monteiro atravessam o umbral da gua-furtada. O esforo despendido na corrida deixa-os quase sem flego. Antes que o detetive 
possa abrir a boca, o ano sobe numa banqueta e agarra Galatea, passando-lhe o brao ao redor do pescoo. Coloca o dedo mindinho, transformado em arma letal, contra 
a jugular da moa. - Mais um passo, e ela morre. Machado tira a palheta, dando idia de submisso: - Estamos parados. No acha melhor conversar antes de cometer 
uma loucura? -Loucura? S os loucos cometem loucuras. No sou maluco! Sei perfeitamente o que estou fazendo! - Lgico que sabe. Desculpe, me expressei mal. Eu quis 
dizer "um desatino momentneo". Daqueles que todo mundo comete e dos quais depois se arrepende. Ns j sabemos que  voc o autor dos Crimes do Penacho. Pra que 
matar mais uma pessoa? - Por brincadeira. J que estou vendo que no vai dar pra concluir minhas travessuras do jeito que eu tinha planejado - declara o alfaiate, 
com um riso infantil. Penna-Monteiro v as pernas de pau jogadas num canto. Tenta distrair Rapozo: - Muito inteligente a idia de disfarar a altura com as andas. 
Ningum ia imaginar que as mortes eram provocadas por um... um... um cavalheiro de baixa estatura.

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-Ano. Pode falar. Ano. No me incomodo. Como disse Shakespeare, "pequena  a coroa, no quem a porta" - lana Camilo, citando a frase inventada por Galatea. Durante 
a resposta do alfaiate, o Coruja e PennaMonteiro vo lentamente avanando na sua direo. Ele ameaa: - Se vocs se mexerem de novo, adeus Galatea. O veneno na ponta 
desta lmina mata em questo de segundos. - Por que  que ns no conversamos um pouco sobre tudo isto? Afinal, nem sei por que voc fez o que fez - prope Machado. 
- No sabe? Claro que no sabe. Como  que ia saber? Nunca foi ano, pra sofrer as humilhaes que eu sofri. At que um dia me fartei. Foi fcil embeber os fardes 
e a batina nos meus venenos. - Voc fazia isso quando? - pergunta o detetive. - Todos eles me chamavam pra ajudar na hora de vestir aquela parafernlia absurda. 
Eu me prontificava, sempre humilde, e os imbecis vaidosos adoravam. Cansei de sentir as mos luarentas daqueles velhos decadentes nas minhas costas, na cabea, no 
rosto. Diziam que dava sorte e ficavam s gargalhadas. Isso sem falar naquele padre pervertido, que me apalpava em outros lugares! Exaltado, ele aperta mais a pequena 
adaga envenenada no pescoo da moa. O Coruja procura acalm-lo: - Eu entendo. Voc tem toda a razo. Pra mim, quando algum tem razo, tem razo, e voc tem razo. 
- Tambm acho. Razo  razo. Ningum vai negar que ele tem razo - confirma Penna-Monteiro. A clera ilumina o olhar do Envenenador. Ele passa a falar do alfaiate 
na terceira pessoa e confessa, enfim, o que mais o mortifica: - Tem pior. Muito pior. Tudo isso o Camilo suportava com submisso, mas eu, o Veneficor, ia ficando 
indignado. A gota d'gua foi quando comeou o jogo de empurra. - Que jogo de empurra? - Entre o acadmico e o estado do imortal, pra pagar o fardo. E se o estado 
no pagar? Mesmo quando paga, e o tempo que leva? Eles podiam pelo menos adiantar o dinheiro, porque a alfaiataria do Camilo est indo  falncia! E os mais ricos 
so os que menos ajudam. Camilo pedia, rogava, suplicava, e nadai Por isso eles foram os primeiros: Belurio Bezerra, milionrio e arrogante. Aloysio Varejeira, 
milionrio e ladro. Lauriano Lamaison, milionrio e canalha. Depois o padre Ignacio, pobre mas devasso e mentiroso, que fez uma vestidura carssima e disse que 
foi a Academia que encomendou mas o estado  que ia pagar. Eu pergunto: algum aqui j conseguiu receber em dia uma conta do estado?!
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Machado, Penna-Monteiro e at Galatea baixam os olhos, encabulados. Realmente, cobrar do estado podia levar qualquer um  loucura. O Envenenador termina sua diatribe 
aos berros: - Veneficor se vingou porque eles no pagam! Os miserveis no pagam! Galatea interfere, com medo de ser picada pelo ano enraivecido. No sabe se o 
chama de Camilo ou de Veneficor. Na dvida, opta pelos dois: - Camilo, acho que Veneficor est muito abalado. Vocs tm toda a razo. Agora ns compreendemos que 
a culpa no  de vocs. Tudo vai se esclarecer. Penna-Monteiro oferece sua opinio abalizada de mdico: - Evidente! Vocs fizeram o que muitos gostariam de fazer. 
Vocs no so responsveis. Foi um momento de privao de sentidos. Machado refora-lhe as palavras: - Como policial, concordo com o doutor Penna-Monteiro. No vai 
nem haver processo. No mximo, alguns dias de repouso na clnica do doutor Austregsilo. O nome de um acadmico intensifica a fria de Camilo, que grita: - Outro 
imortal? Nunca! Prefiro morrer! Gesticulando no seu desvario, por um instante Rapozo afasta do pescoo de Galatea a pequena lmina envenenada. Como um discbolo, 
o Coruja atiralhe a palheta, e a aba rgida do chapu atinge sua testa em cheio. Ele se desequilibra em cima da banqueta e mergulha de cabea, aos urros, na mistura 
virulenta do caldeiro. Machado recolhe do cho seu precioso chapu-palheta, que, nesse caso, mostrou ser uma arma bem mais eficaz do que o Colt.45. Os trs ficam 
em silncio por um instante, observando o ano se dissolver em meio ao borbulhar macabro. Em pouco tempo, daquele corpo perfeito em miniatura sobra apenas o pequeno 
esqueleto. Galatea lacra-lhe o epitfio: - Morreu como viveu. Num conto da carochinha, no caldeiro da bruxa. O comissrio Machado Machado aproveitou a presena 
de PennaMonteiro, alm de legista, perito em qumica, para fazer uma primeira explorao do local. Galatea seguia ao lado, a curiosidade aulada pelo que aprendera. 
Contou a eles tudo o que Camilo Rapozo lhe revelara sobre a famlia, os venenos e a Veneficorum Secta. Encontraram dezenas de frascos com lquidos exticos, etiquetados 
com nomes em latim. Sob a bancada, acharam vasilhames com ter, terebintina e gales de lcool. Galatea refreou a
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repulsa quando Penna-Monteiro abriu uma caixa repleta de vermes. Havia outras, guardando asas de morcegos, cabeas de serpentes e produtos desconhecidos da cincia 
oficial. Em meio ao silncio, um zumbido chamou-lhes a ateno. Vinha de trs da cortina enodoada que ocultava a vitrine construda na extenso de uma das paredes. 
O detetive afastou-a, e eles se depararam com a passarela ocupada pelos horrendos bonecos de massa envergando os fardes e a batina esbulhados dos mortos. O zumbido 
era causado por gordas moscas-varejeiras, prenhes de larvas, que voavam em torno das figuras daquela medonha caricatura de museu de cera. Havia ainda trinta e seis 
manequins desnudos,  espera de paramentos que jamais viriam. Galatea desviou o olhar com asco, abrigando-se nos braos de Machado. A CERIMNIA DE EXPURGAO Restava 
resolver como se livrar de toda aquela imundcie ameaadora. Apesar da sua curiosidade acadmica, Penna-Monteiro receava recolher amostras das poes, que eram desconhecidas, 
e acidentalmente deflagrar alguma epidemia. Machado sugeriu que se chamasse o dr. Carlos Chagas, chefe do Departamento de Sade Pblica. Chagas combatera vrias 
epidemias: peste bubnica, febre amarela, varola e a gripe espanhola. Penna-Monteiro deu o contra. Reconhecia o extraordinrio talento do cientista, entretanto 
argumentou que estavam lidando com substncias inexploradas. At os exames nos laboratrios de Manguinhos constituam um risco. - Alis, ns mesmos j podemos estar 
contaminados. A melhor idia veio de Galatea, a mais pragmtica: - Simples. Temos que incendiar a casa toda. E a nica forma de evitar a possibilidade de uma praga. 
Alm de impedir que uma mistura dessas caia em mos de pessoas inescrupulosas. Machado e Gilberto entreolharam-se. A soluo era exeqvel. A casa que abrigava o 
laboratrio e a loja do alfaiate se localizava no meio de um terreno isolado, bem longe das outras residncias. As dezenas de velas que iluminavam o sto eram justificativa 
suficiente para um incndio. As tbuas velhas do assoalho, a cortina caindo aos pedaos, os recipientes contendo lquidos inflamveis completariam a propagao das 
chamas, sem contar o forno aceso sob o caldeiro.

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Uma coisa incomodava o comissrio: os ultrajes e chacotas que levaram o homenzinho  insanidade durante anos de aviltamento como ano e tambm como alfaiate. Sabia 
que, muitas vezes, o governo era mau pagador. Seu pai tivera uma pequena casa desapropriada pelo plano de urbanizao do prefeito Pereira Passos, em 1903, e morrera 
sem ver a cor do dinheiro pblico. Sacrificando, de vez, a vaidade de policial, j amortecida pelo fato da sua Galatea ter descoberto as pistas que redundaram na 
soluo do caso, no boletim de ocorrncia Machado Machado escreveria que: o assassino, um mentecapto desconhecido em cujo encalo este comissrio estava havia dias, 
foi surpreendido no depsito da alfaiataria roubando fazendas e materiais utilizados na confeco dos fardes. Adentrei o local do sinistro no instante em que o 
referido elemento, aos gritos no sto, onde se localizava o depsito, vangloriava-se de seus crimes, segundo ele, por vingana. Ouvi nitidamente sua confisso, 
todavia no cheguei a tempo de impedir que o paranico incendiasse o local. Uma cortina de fogo quase instantnea impediu-me o acesso s escadas. A sociedade livra-se 
do perigoso assassino, incandescido pelas chamas, sem conhecer, contudo, sua identidade. Camilo Rapozo, cuja coragem era inversamente proporcional ao tamanho, lutou 
bravamente at a morte, no em defesa do seu patrimnio, mas pela honra da Academia. O Coruja contava resgatar a memria do pequenino alfaiate, tornado louco por 
anos de humilhao. - Acha que o Floresta vai engolir essa patacoada? - duvidou Penna-Monteiro. - Claro que vai. Assim que eu garantir que os Crimes do Penacho terminaram. 
O que o general quer  sossego. Cabem a Galatea as honras de iniciar a depurao. Antes, recolhe o precioso Livro da jngal e mostra aos dois o pssaro-alfaiate, 
esclarecendo o ltimo enigma das mensagens. Depois, com um dos candelabros, ateia fogo s cortinas. As chamas sobem rpido pelos panos. Os vidros estalam, e o incndio 
comea a derreter os imensos fantoches. As labaredas transformam em cinzas as vestes, comprovando que, como os acadmicos, seus fardes no so imortais. Penna-Monteiro 
derruba os crios junto aos manuscritos pousados na bancada. Um candelabro encarrega-se de consumir o grosso compndio da Malignum opus entronado no atril de madeira. 
Machado derrama um garrafo de lcool na tbua corrida, que se incendeia ao contato de outro castial, alastrando o fogo pelo assoalho.
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O calor fica insuportvel. Os tecidos, brocados, aviamentos e passamanarias guardados nos andares de baixo tambm alimentaro o apetite pantagrulico das chamas. 
A um sinal do detetive, todos correm pelas escadas, antes que o incndio as destrua. Os trs atravessam a rua e observam a nuvem de fumaa negra que se forma sobre 
o casaro. Um cheiro repugnante desprende-se dela. O vento divide em duas a nuvem negra, dando-lhe a aparncia de pulmes. Enojado, o comissrio espreme entre as 
mos seu mao de cigarros Cairo e lana-o no meio das chamas. Nunca mais voltaria a fumar. Por um momento, ningum pronuncia uma palavra, at que Gilberto pergunta 
a Machado: - Est pensando em qu? - No terno azul de tropical ingls que nunca vou ter - responde ele com ironia. Galatea declara, sorrindo: - Juro que prefiro 
voc assim, espandongado. Espandongado, mas vivo. Ao longe, faz-se ouvir a sirene, anunciando a chegada dos bombeiros. O policial comenta: - Eles so muito valentes, 
mas no vai adiantar nada, - No sei, podem minimizar os estragos e encontrar vestgios do que aconteceu - diz Penna-Monteiro, preocupado. - Impossvel - garante 
o detetive. - Como  que voc pode ter tanta certeza? - pergunta Galatea, tambm apreensiva. - Esqueceram da falta d'gua? O Coruja refere-se ao problema endmico 
do Rio de Janeiro, que os bombeiros sempre enfrentam. Os moradores das casas vizinhas comeam a sair para a rua, tentando entender o que aconteceu. Machado, Galatea 
e Perna Monteiro olham fascinados para o fogo que se alastra, hipnotizando-os. - O belo horrvel - diz Machado. - O qu? - pergunta Galatea, sem tirar os olhos das 
chamas. - Meu pai costumava dizer que essa dana das labaredas queimando  ao mesmo tempo linda e pavorosa. E o belo horrvel. Penna-Monteiro confirma: - E verdade. 
Tive um professor muito feio chamado Euclides Belo, e o apelido dele era Incndio. O Belo horrvel. A gargalhada dos trs  interrompida pelo desmoronar da manso 
desfazendo-se em brasas. O rudo lembra o urro derradeiro do
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Envenenador. As pedras transformam o velho casaro no mausolu de Camilo Rapozo. O comissrio ajeita a palheta na cabea e recita um necrolgio, referindo-se ao 
ano: - "O adulto apoucado, preso no corpo da criana a quem foi negado o crescimento, transmuta-se no menino descomunal e cruel. Imagem triste de um ser gargantuesco, 
genial e ferico." - Machado de Assis - deduz Gilberto. - No. Machado Machado - responde o Coruja, beijando a sua terna Galatea.

O PAIZ RIO DE JANEIRO, SEGUNDA-FEIRA, 12 DE MAIO DE 1924 Final Feliz Em uma entrevista collectiva realizada hontem, o general Floresta declarou encerradas com sucesso 
as investigaes a respeito dos "Crimes do Penacho" Agindo sob instrues exatas do general, exmio xonhecedor da psyche humana, que havia dias conjecturava sobre 
o envolvimento do suspeito, o comissrio Machado Machado, acompanhado do dr. Gilberto de Penna-Monteiro e de uma senhora desconhecida, presenciou a derrocada do 
assassino. O ignoto psychsico foi descoberto quando assaltava o depsito da Alfaiataria Dedal de Ouro em busca do rico tecido usado nos trajes dos acadmicos. O 
assassino foi pego em flagrante pelo alfaiate antes da chegada do comissrio. O herico Camilo Raposo, encarregado da manufactura de todos os fardes, falleceu na 
ocorrncia. Tanto Raposo como o criminoso sucumbiram em um incndio dantesco provocado pelo meliante. Finaliszamos repetindo as palavras ditas de improviso por Floresta, 
na coleltciva de hontem, a respeito de Camilo Rapozo: "Sua coragem era inversamente proporcional ao seu tamanho. Lutou bravamente at a morte, no em defesa do seu 
patrimnio, mas pela honra da Academia".

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O fim de semana de Machado e Galatea  dedicado ao descanso e ao amor. Exorcizaram entre os lenis os momentos horrveis passados juntos na sexta-feira. Depois 
de dormirem dez horas seguidas, os amantes acordam com o rudo insistente da campainha. O detetive beija a amada e pede que ela no se levante. - Vou ver quem  
e volto pra cama. Ningum me tira de casa hoje. Veste a cala amarrotada e vai descalo abrir a porta. O zelador do prdio entrega-lhe o jornal e uma caixa muito 
bem embrulhada para presente. - Quem deixou essa encomenda? - No sei, doutor. Parece que era pra chegar na semana passada. Atrasou porque o rapaz da entregadora 
estava gripado. Machado agradece e volta para a sala. Pe a caixa imensa em cima da mesa, enquanto Galatea, curiosa, levanta-se da cama enrolada no lenol e debruase 
sobre o ombro dele. O Coruja desfaz o lao colorido que amarra a tampa, onde se l: "Para o Excelentssimo Senhor Doutor Comissrio Machado Machado". Abre o embrulho 
e v, deitado em bero de papel de seda, num cabide revestido de veludo vermelho, o magnfico terno azul-escuro, de tropical ingls. Preso  lapela por um alfinete, 
h um bilhete escrito com caligrafia esmerada: "Caro comissrio, use com sade." Camilo Rapozo Esta  uma obra de fico. Mesmo as figuras histricas nela apresentadas 
so tratadas deforma ficcional, numa mescla de fantasia e realidade. Qualquer semelhana dos personagens fictcios com personagens reais no passa de fortuita coincidncia.

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